JUROS

Taxas de juros despencam com cessar-fogo entre EUA e Irã, em meio a dúvidas sobre trégua

Publicado em 08/04/2026 às 18:11
Reprodução / Agência Brasil

Os juros futuros negociados na B3 exibiram recuo expressivo no pregão desta quarta-feira, que alcançou 50 pontos-base no miolo da curva, na esteira do otimismo após o cessar-fogo de duas semanas confirmado na terça-feira por Estados Unidos e Irã. As taxas chegaram a reduzir o ímpeto da queda, porém, após notícias de que o país persa não considera as negociações nem o cessar-fogo viáveis nas condições atuais, e também de que o estreito de Ormuz foi novamente bloqueado.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 cedeu de 14,254% no ajuste da terça para 13,925%. O DI para janeiro de 2029 caiu a 13,345%, vindo de 13,822% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 recuou de 13,881% a 13,485%.

O presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, divulgou comunicado no qual afirma que, na atual situação, um cessar-fogo bilateral com os EUA ou negociações são "irracionais".

Mesmo antes do início das tratativas, acusou Ghalibaf, os EUA descumpriram cláusula referente ao cessar-fogo no Líbano, assim como a proibição de qualquer violação adicional do espaço aéreo do país persa. Além disso, o presidente do Parlamento cita a negação do direito do Irã ao enriquecimento de urânio. As três exigências estão entre os 10 pontos apresentados aos EUA pelo governo iraniano para que um cessar-fogo seja viável.

Nesta manhã, Israel atacou as ilhas iranianas de Lavan e Siri, apesar do pacto de trégua com que afirmou ter concordado na noite da terça. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netahyahu, declarou nesta tarde que o cessar-fogo não representa o fim da campanha militar, e que o país pretende atingir novos objetivos. Reiterou, ainda, que a pausa não inclui o Hezbollah, indicando continuidade das operações no Líbano. A agência iraniana Fars, por sua vez, informou que o estreito de Ormuz voltou a ser bloqueado para navios petroleiros pelo país persa, como represália aos ataques e à postura de Israel.

Ignorando o ambiente ainda volátil, os futuros de petróleo recuaram cerca de 15% na sessão desta quarta-feira e abaixo de US$ 95 o barril, tanto no Brent quanto no WTI, aliviando as curvas de juros globais.

"O movimento dos DIs é praticamente quase todo correlacionado às notícias sobre a guerra, e o preço do Brent tem influência fortíssima na questão inflacionária", afirma Otávio Oliveira, gerente da tesouraria do Daycoval. Se na terça era esperado "o apocalipse", ou seja, recrudescimento da guerra, sem um cessar-fogo, nesta quarta os mercados abriram com um cenário totalmente oposto e, no meio da tarde, o aparente encaminhamento da situação voltou a ser questionado, disse. "É muito cedo para avaliar que a guerra vai acabar. Até onde entendemos, existe possibilidade de diálogo entre as partes, mas a situação segue instável", completou.

De qualquer forma, com a percepção de alguma normalização e o arrefecimento nas cotações do petróleo, a possibilidade de que o Banco Central acelere a queda dos juros na reunião de abril voltou para a mesa. Nesta tarde, a curva a termo apontava probabilidade de 30% de corte de 0,5 ponto da Selic neste mês, observa Flávio Serrano, economista-chefe do banco Bmg, aposta que não era considerada terça. Já a taxa projetada ao final de 2026 estava em 13,40%. "Ainda há muita incerteza, e a normalização do tráfego de navios em Ormuz deve ser lenta. Acho que o Banco Central vai seguir com cautela", avalia Serrano.

Ao participar de evento do Bradesco BBI nesta manhã, o diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, disse que o conflito representa um choque de oferta com efeito inflacionário relevante, mas também com impacto negativo sobre o crescimento global, e que há alta incerteza sobre sua duração e intensidade. À luz do conflito, disse, houve deterioração das expectativas de inflação de longo prazo. As afirmações não fizeram preço na curva.

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