Festival no MTB celebra protagonismo feminino e cultura afro-brasileira
3º Festival Yá Dandara reúne mulheres percussionistas do Nordeste, fortalece redes e amplia debate sobre protagonismo negro e intolerância religiosa
Nos dias 10 e 11 de abril, a partir das 10h, o Museu Théo Brandão (MTB), equipamento cultural da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), será palco do 3º Festival Yá Dandara. Nesta edição, o evento se consolida como um importante espaço de encontro entre mulheres percussionistas do Nordeste, reunindo participantes de Alagoas, Sergipe, Pernambuco e Bahia.
Com uma programação gratuita e aberta ao público, o festival propõe vivências, oficinas e rodas de diálogo que articulam cultura, ancestralidade e resistência negra, ampliando discussões sobre intolerância religiosa e o protagonismo feminino em espaços historicamente marcados por desigualdades.
Museu amplia debate para além de datas simbólicas
A diretora do museu, Hildênia Oliveira, destaca que o compromisso com a valorização da cultura afro-brasileira vai além de datas específicas do calendário. “Embora exista um dia específico para refletir e conscientizar a sociedade, como o 20 de novembro, no MTB, ampliamos essa discussão ao longo de todo o ano. Não se trata de uma pauta para ser lembrada apenas em um dia, mas de uma história que precisa ser reconhecida continuamente”, afirmou.
Segundo ela, o 3ºFestival Yá Dandara reforça esse posicionamento ao promover um espaço dedicado ao protagonismo feminino, especialmente de mulheres percussionistas: “Estamos ainda mais lisonjeados por receber grupos de mulheres de Sergipe, Pernambuco e Bahia, que se somam a Alagoas nesse encontro. Um momento de troca, de fortalecimento e de conhecimento sobre a nossa cultura, a nossa história e também sobre o Nordeste como um todo e que, apesar de ser um evento voltado ao público feminino, todas as pessoas são bem-vindas”, destacou a diretora, que também chama atenção para o caráter político do evento enfatizando que “a Consciência Negra não se resume a uma festa e que o ‘20 de novembro’ não é uma celebração, mas um espaço para relembrar tudo o que ainda precisa resistir até hoje”.
Crescimento regional e fortalecimento coletivo
Pela primeira vez com dimensão regional, o festival marca um novo momento para o movimento, ampliando conexões entre grupos e fortalecendo redes de mulheres na percussão. Para Dani Lins, fundadora e mestra do Maracatu Yá Dandara, o evento simboliza a superação de desafios e a concretização de um projeto coletivo.
“Nos dias 10 e 11 de abril, vivenciaremos um marco que, para muitos, parecia um sonho impossível. O Festival Yá Dandara chega à sua terceira edição e, pela primeira vez, com uma dimensão regional. Hoje, não apenas vivenciamos esse crescimento; nós provamos a nós mesmas do que somos capazes”, afirmou.
Segundo a percussionista, o festival carrega uma mensagem que ultrapassa a programação cultural. “O ponto central do que estamos construindo não é apenas a festa em si, mas a mensagem que ela carrega: é preciso acreditar em si mesmo primeiro. Queremos mostrar que os sonhos são possíveis”, acrescentou.
Resistência, protagonismo e oportunidades
Com foco em mulheres, sobretudo mulheres negras, o Festival Yá Dandara se estabelece como um espaço de resistência e construção coletiva, promovendo oportunidades de visibilidade, circulação de saberes e fortalecimento de iniciativas culturais. “Para nós, resistir é abrir caminhos, quando organizamos esse movimento, conseguimos dar oportunidade para que outras mulheres participem, trazendo seu trabalho, sua arte e sua gastronomia”, ressaltou Dani.
A artista também define o festival como um espaço simbólico de pertencimento. “O festival é o nosso quilombo moderno; um espaço onde o protagonismo feminino negro não é apenas uma pauta, mas uma realidade”, finalizou.
Incentivo cultural amplia alcance do festival
A edição de 2026 marca um avanço significativo: pela primeira vez, o Festival Yá Dandara integra o Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac nº 250473), instituído pela Lei Rouanet (Lei 8.313/1991), principal mecanismo federal de incentivo à cultura no Brasil.
Por meio dessa política pública, empresas e pessoas físicas podem destinar parte do Imposto de Renda devido para financiar projetos culturais aprovados pelo Ministério da Cultura. O modelo funciona como renúncia fiscal, não se configurando como repasse direto de recursos públicos.
O acesso a esse mecanismo fortalece a realização do festival, amplia seu alcance e evidencia a importância das políticas de incentivo para a valorização da cultura brasileira, especialmente de iniciativas que promovem diversidade, inclusão e preservação das tradições populares.
O evento conta também com o patrocínio da Equatorial Energia e apoio da Fundação Municipal de Ação Cultural (Fmac).
Trajetória e transformação social
De acordo com Wilson Santos, percussionista, baterista e educador musical, o 3º Festival é resultado de um processo iniciado em 2009, com a criação do Batuque Yá, a partir da identificação da baixa presença feminina na percussão.
“Naquela época, percebemos um distanciamento das mulheres em relação aos instrumentos de percussão e decidimos mudar essa realidade por meio de vivências exclusivas, desse movimento, surgiu o Maracatu Yá Dandara, liderado por Dani Lins, que transformou o tambor em um território de afirmação política e artística, explicou.
Segundo ele, o crescimento do festival evidencia mudanças importantes no cenário cultural. “O que começou de forma local, hoje ganha dimensão regional e conecta mulheres de todo o Nordeste. Ver espaços antes ocupados majoritariamente por homens sendo preenchidos por essa potência feminina é uma transformação significativa”, afirmou.
Programação gratuita e convite ao público
A programação inclui oficinas, vivências e mesas de diálogo, com destaque para a construção da Rede Nacional de Mulheres no Tambor, iniciativa que busca fortalecer a articulação entre grupos e ampliar a atuação em nível nacional.
O evento é gratuito e aberto ao público, reafirmando o compromisso com a democratização do acesso à cultura e toda a programação pode ser acompanhada pelo Instagram @maracatuyadandara e @museutheobrandao.
“Estamos esperando todos vocês. Será uma experiência incrível”, convidou Hildênia Oliveira.