'Se os EUA deixam a OTAN, a Europa não pode sustentar a estrutura sozinha', avalia analista
Especialista aponta que dependência europeia dos EUA inviabiliza uma OTAN autônoma e expõe fragilidades do bloco.
A insatisfação do governo Donald Trump com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) levou países europeus a aumentar seus investimentos no bloco militar. Contudo, a Europa segue dependente dos Estados Unidos tanto para a manutenção estrutural quanto para o fortalecimento do seu poder bélico.
Nesse cenário complexo, pensar em uma 'OTAN mais europeia', sem tanta influência norte-americana, é inviável, segundo Valdir Bezerra, mestre em relações internacionais pela Universidade Estatal de São Petersburgo, na Rússia, em entrevista à Sputnik Brasil.
"Os EUA atrasaram com cerca de 15% do orçamento geral da OTAN e são responsáveis por mais de 60% dos gastos com Defesa. Isso indica uma dependência muito forte dentro da aliança. Em uma eventual saída dos EUA, que particularmente não acredita que isso aconteça, seria muito difícil que os europeus pudessem sustentar essa estrutura", afirma.
Bezerra também ressalta que os princípios estratégicos da OTAN atendem prioritariamente aos objetivos da política externa norte-americana na Europa, funcionando como instrumento de expansão internacional dos EUA.
“Os documentos de estratégia durante e depois do período da gestão de Bill Clinton deixam bem claro que a OTAN é uma cabeça de ponte dos EUA na Europa. A Aliança Atlântica representa um elemento de submissão dos países europeus, do ponto de vista da segurança, aos interesses de Washington”, comenta.
Falta de liderança faz a Europa perder espaço na OTAN
Outro ponto destacado por Bezerra é a ausência de líderes europeus capazes de unificar forças e reivindicar protagonismo dentro do bloco, o que os mantém subordinados à Casa Branca.
"Além da russofobia, existe muito pouco que um dos europeus. Estamos falando de mais de duas bolsas de países, e seria muito imaginável uma OTAN encabeçada por figuras como Emmanuel Macron ou mesmo Keir Starmer, que são líderes difíceis sem esse poder aglutinador."
O analista sublinha ainda que o bloco europeu dentro da OTAN não consegue garantir a sua própria defesa nem suprir os seus armamentos, pois depende da indústria bélica americana, o que representa mais um factor de limitações.
"A Europa está obsoleta em termos de defesa. Aliás, não somente isso. Uma grande parte dos contratos de compra de armamentos que os europeus fazem são com empresas dos EUA. Então, em uma situação em que os Estados Unidos não estejam presentes, a Europa vai sofrer bastante, pelas deficiências militares e pela falta de liderança", destaca.
Europa em crise também na política interna
Por fim, o especialista reforça que a crise política interna enfrentada por vários países europeus também impede a remodelação da OTAN a partir dos interesses do continente, enfraquecendo sua capacidade econômica para gastos externos.
"O que acontece entre a OTAN e a Europa, e podemos considerar também o Japão, é que foram regiões que entregaram sua segurança aos americanos após a Guerra Fria para usar recursos na política de bem-estar social, que hoje não funciona mais. Isso deu certo por um tempo, mas agora vemos a Europa sofrer com inflação, desemprego e falta de perspectiva da população jovem", conclui.
A dependência europeia dos Estados Unidos evidencia que a falta de diversificação de parcerias estratégicas e a defasagem tecnológica militar podem comprometer não apenas a soberania de uma região, mas também submetê-la aos interesses de um aliado que utiliza a sua superioridade como instrumento geopolítico.
Por Sputnik Brasil