'Uma condição de subalternidade cada vez mais explícita', diz analista sobre EUA e União Europeia
Especialistas ouvidos pelo Mundioka analisam como tensões sob Donald Trump, divergências sobre China e movimentos como desdolarização ampliam espaço para o Sul Global e reconfiguram a ordem internacional.
As recentes crises no cenário mundial têm colocado o Ocidente contra ele mesmo, com autoridades estadunidenses ampliando suas divergências com figuras europeias, melhor demonstrado entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e a União Europeia.
Em áreas como política industrial, os Estados Unidos adotaram políticas agressivas de subsídio que atraíram empresas estratégicas europeias para o mercado estadunidense, gerando custos industriais mais altos na Europa e ampliando a vantagem competitiva americana.
Outro ponto central de fissura está na relação com a China. Enquanto Washington defende uma estratégia de contenção mais abrangente contra China — refletida inclusive em seus documentos de defesa —, parte significativa da Europa prefere adotar uma abordagem mais pragmática, focada na redução de riscos sem romper completamente com Pequim.
No Oriente Médio, as divergências também se tornam evidentes. As diferentes posições sobre Israel, Gaza e Irã mostram que o alinhamento transatlântico está longe de ser automático, com prioridades e discursos que nem sempre convergem.
Estruturalmente, o que se observa é uma erosão da coesão estratégica do Ocidente. Esse desgaste abre espaço para maior autonomia europeia, negociações independentes e, sobretudo, para que potências médias ampliem sua margem de manobra no sistema internacional. É nesse contexto que o BRICS ganha ainda mais relevância.
No Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, o episódio desta segunda-feira (6) discute como essas fissuras na aliança transatlântica impacta a ordem internacional, quais são os limites e as oportunidades para o BRICS e o Sul Global nesse cenário.
Para Diego Pautasso, doutor em ciência política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), cocriador do projeto Fios de China no Instagram e autor do livro "A China e a Nova Rota da Seda", a atual política externa dos Estados Unidos tem deixado mais explícito a "condição de subalternidade" da Europa.
Embora ressalte a aliança histórica entre o país norte-americano com os países europeus, Pautasso pontua que a Europa depende muito mais dos EUA como um "guarda-chuva geoestratégico" desde a Segunda Guerra Mundial: no aspecto econômico com o Plano Marshall e a Doutrina Truman e no aspecto militar com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Para o especialista, as recentes crises mundiais somadas com a visão atual de Washington expõem essa erosão de confiança.
"Sob o governo Trump, essa condição de subalternidade está se tornando cada vez mais explícita, cada vez mais contraditória, cada vez mais, digamos assim, difícil de ser sustentada no longo prazo", diz Pautasso.
"Os Estados Unidos dão declarações que expõem esse caráter de subalternidade da Europa, no caso da guerra da OTAN, no caso das ameaças à Dinamarca pela questão da Groenlândia, no caso das responsabilidades securitárias que a Europa deveria ter acerca do orçamento da OTAN, etc."
Em análise, Pautasso vê a China como principal fator propulsor para esse cisma do Ocidente: à medida que os Estados Unidos, cientes de que enfrentam um declínio relativo, buscam reverter esse processo por meio de estratégias de reafirmação de poder, acabam tensionando suas próprias alianças tradicionais.
Segundo o especialista, esse movimento se expressa de forma clara na política externa adotada sob o governo de Donald Trump, que parte de um diagnóstico de perda de centralidade global — sintetizado no slogan "Make America Great Again" (Faça a América ser grande novamente, do inglês). No entanto, os métodos escolhidos para alcançar esse objetivo podem gerar efeitos contraditórios no médio e longo prazo.
"Há uma consciência, por parte de uma elite americana encarnada no governo Trump, de que os Estados Unidos enfrentam um declínio. Mas, ao mesmo tempo, as estratégias para reverter isso podem produzir resultados opostos ao pretendido", explica Pautasso.
Nesse sentido, Washington tem mobilizado seus recursos de poder em três frentes principais: reafirmar sua influência no continente americano, conter a ascensão chinesa e redefinir sua relação com a Europa — seja por meio de maior controle, seja por um relativo desinteresse estratégico. Além disso, esse processo não ocorre de forma isolada, já que também é reforçado por fragilidades internas da própria União Europeia.
"Existe uma elite europeia que, na minha perspectiva, não compreende plenamente o seu lugar no sistema internacional, nem o seu declínio relativo. Isso dificulta tanto o diagnóstico quanto a construção de alternativas diante do tratamento que os Estados Unidos vêm dispensando à Europa."
A China, por outro lado, tem se mostrado como uma opção mais segura e viável dentro desse cenário de incertezas. Segundo Pautasso, Pequim adota uma postura estratégica de distanciamento em relação ao conflito direto entre Estados Unidos e Europa, ao mesmo tempo em que busca explorar as contradições desse desgaste.
De acordo com o analista, a diplomacia chinesa tem reforçado sua presença internacional ao intensificar o diálogo com diferentes atores — desde o Canadá até lideranças europeias e países do Sul Global, incluindo o Brasil. Em todos esses casos, a mensagem de Pequim segue uma linha consistente: defesa do multilateralismo, das organizações internacionais e do direito internacional.
"Enquanto a liderança americana recrudesce o intervencionismo, a coerção e as medidas unilaterais, a China busca se apresentar como um contraponto, um fiel da balança, apostando no diálogo e na construção coletiva de decisões", explica.
Para Pautasso, essa diferença de postura tende a ter impactos relevantes no médio e longo prazo, especialmente no contexto de um possível reordenamento do sistema internacional. A China, ao se posicionar como alternativa à liderança americana, amplia seu espaço de influência justamente no momento em que o Ocidente demonstra sinais de fragmentação.
No curto prazo, contudo, o especialista avalia que o agravamento das tensões entre Estados Unidos e Europa está ligado a uma sucessão de episódios recentes sob a gestão de Donald Trump. Entre eles, destacam-se os tarifaços aplicados contra aliados europeus, as declarações contundentes durante a Conferência de Munique, as pressões pelo aumento dos gastos militares no âmbito da OTAN e até controvérsias envolvendo a Groenlândia.
"É um acúmulo de eventos que aponta sempre para uma posição de confrontação e, ao mesmo tempo, reforça essa condição de subalternidade da Europa em relação a Washington."
Apesar dessa crise de confiança entre Estados Unidos e União Europeia, movimentos que não incluem nenhuma das duas potências — como a desdolarização — têm ganhado força no cenário internacional. Para Ricardo Caichiolo, professor de relações internacionais do Ibmec, esse tipo de iniciativa ajuda a explicar a crescente atenção e desconfiança do Ocidente em relação ao BRICS, que tem a China como um dos membros fundadores.
Segundo o especialista, o BRICS não se define como um bloco antiocidental, mas sim como um grupo que busca reformar a governança global. Ainda assim, suas ações recentes acabam sendo interpretadas como um desafio direto à ordem vigente.
"Qualquer movimentação em termos globais ou regionais que não tenha a participação dos Estados Unidos ou da União Europeia tende a ser questionada", explica. "O BRICS nunca se colocou como um bloco antiocidental, mas, ao propor alternativas, ele naturalmente chama atenção."
Caichiolo destaca que iniciativas como a desdolarização, a ampliação de acordos bilaterais em moedas locais e a própria expansão do grupo acabam gerando incômodo em Washington e Bruxelas. Isso porque tais medidas reduzem, ainda que de forma gradual, a centralidade dos EUA no sistema financeiro internacional.
"Desde 1945, a ordem econômica global foi estruturada com base em instituições e mecanismos fortemente influenciados pelos Estados Unidos, como o sistema do dólar, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial."
"Quando surgem alternativas a esse arranjo, há uma percepção de possível redistribuição de poder."
Nesse sentido, mesmo que o discurso do BRICS esteja centrado na cooperação e na pluralidade, qualquer movimento que diminua a dependência do dólar tende a impactar diretamente os interesses estratégicos dos Estados Unidos e, em menor medida, da própria União Europeia. "Isso afeta não só a influência econômica, mas também a capacidade geopolítica dessas potências".
Embora o BRICS seja frequentemente interpretado como um bloco ideológico ou antiocidental, sua natureza é muito mais heterogênea, destaca o especialista. Trata-se de um arranjo flexível, no qual diferentes países utilizam o espaço para ampliar sua margem de manobra em um sistema internacional que já está, por si só, em transformação.
"Não é apenas China e Rússia que utilizam o BRICS. Na prática, todos os países ali presentes atuam de forma pragmática, defendendo seus próprios interesses e tentando extrair ganhos dessa articulação."
Por Sputinik Brasil