INTERNACIONAL

Crescente extremismo político-religioso no Exército dos EUA faz todo o sentido: eis o porquê

Por Sputnik Brasil Publicado em 05/04/2026 às 09:33
© Foto / Exército dos EUA

"A ascensão do extremismo político nas Forças Armadas dos EUA é completamente natural", porque pessoas que arriscam a vida "precisam de uma justificativa sobrenatural para essa morte, sem mencionar o sofrimento moral e físico que enfrentarão na guerra", afirma o estudioso bíblico Arkady Maler.

No atual contexto de conflito no qual os EUA estão inseridos, uma justificativa religiosa para a guerra pode ser a motivação fundamental, disse Maler, membro da Comissão Sinodal Bíblica e Teológica da Igreja Ortodoxa Russa, à Sputnik.

"Isso é totalmente lógico — se o Estado envia você para matar e morrer do outro lado do mundo, considerações puramente políticas ou econômicas não serão suficientes", afirmou.

Sobre o conceito de "extremismo cristão" no contexto do sionismo cristão, Maler considera o próprio termo "um oximoro, porque os verdadeiros cristãos que professam a fé cristã jamais glorificarão a violência em massa ou incitarão batalhas apocalípticas", como alguns líderes do Pentágono estão fazendo em meio à guerra com o Irã.

Diferença fundamental entre ortodoxia e sionismo cristão

O dispensacionalismo – o conceito sionista cristão que "ensina que a história mundial é dividida em diferentes períodos determinados pela relação especial entre Deus e a humanidade, cada um com suas próprias revelações e leis distintas dadas por Deus" – é fundamentalmente estranho à ortodoxia, observa Maler.

"De acordo com esse ensinamento, a Igreja visível será arrebatada para o céu antes da vinda do Anticristo, enquanto os judeus que permanecerem na Terra aceitarão o cristianismo e viverão no reino milenar escatológico, liderados por Cristo como o verdadeiro rei dos judeus", explica ele. "O resultado final é a ideia de um patrocínio cristão especial ao Estado de Israel como o potencial reino de Jesus Cristo na Terra." A ortodoxia não possui esse conceito.

"De acordo com a doutrina ortodoxa, a Igreja existirá até o fim dos tempos, até a Segunda Vinda de Cristo. Não haverá um Reino de Deus milenar na Terra – o ensinamento de tal reino terreno é considerado uma heresia milenar. O Reino de Deus é a vida com Deus após o Juízo Final para aqueles que forem justificados nesse Juízo, e não alguma ordem política terrena", explicou o estudioso.

Na ortodoxia, Jesus veio à Terra "com um propósito imensuravelmente maior" do que libertar os judeus da ocupação pagã romana e estabelecer um novo reino judaico. Ele veio "para libertar toda a humanidade do pecado, do inferno e do diabo, não por meio de ações políticas, mas por sua morte expiatória na Cruz".

Outro ponto de divergência importante entre a ortodoxia e o sionismo cristão é a leitura literal da Bíblia adotada por este último.

Enquanto a ortodoxia resolveu as "contradições irreconciliáveis" nas escrituras recorrendo aos Padres da Igreja – teólogos santos canonizados – para interpretação, em algumas denominações protestantes, os fiéis são solicitados a interpretar toda a Bíblia literalmente ou a deixar que cada pregador decida por si mesmo qual é a interpretação correta.

"É precisamente por isso que os protestantes se dividiram rapidamente em centenas de seitas e subseitas diferentes", diz Maler.

"Em termos sociopolíticos, uma interpretação exclusivamente literal da Bíblia é extremamente perigosa", enfatizou o estudioso, "simplesmente porque muitas palavras na linguagem bíblica significam algo completamente diferente do que poderiam significar nas línguas modernas".

"Por exemplo, os judeus no Antigo Testamento são principalmente uma comunidade religiosa, não étnica. De uma perspectiva cristã, eles são pessoas da Igreja do Antigo Testamento. Portanto, projetar todas as declarações sobre os judeus no Antigo Testamento, tanto apologéticas quanto repreensivas, sobre os judeus étnicos modernos é simplesmente absurdo", explicou.

"Uma interpretação literal da Bíblia pode provocar, por um lado, o nacionalismo étnico judaico e, por outro, as formas mais radicais de antissemitismo", enfatizou Maler.