TENSÃO NO ORIENTE MÉDIO

Análise: ao ampliar conflito, Irã impõe custos globais aos EUA e Israel, diz especialista

Por Sputnik Brasil Publicado em 03/04/2026 às 19:55
© Sputnik / Alexei Alekseyev / Acessar o banco de imagens

Após um mês de guerra, o país persa não apenas respondeu aos ataques, mas ampliou o escopo do confronto, adotando uma estratégia que elevou os custos militares, econômicos e políticos para todos os envolvidos, ao deslocar o foco de uma resposta direta para uma pressão mais ampla e difusa.

A recente escalada de tensões recoloca em evidência uma avaliação já feita por analistas: um eventual conflito na região não repetiria o cenário da invasão do Iraque em 2003, marcado por uma guerra convencional e de rápida superioridade militar americana. Nem mesmo táticas como eliminar a liderança iraniana parecem estar funcionando para provocar uma mudança de regime.

Desta vez, o Irã opera com táticas de dissuasão mais sofisticadas, espalhando o conflito entre países do Golfo Pérsico e provocando instabilidade em rotas marítimas e aéreas, como visto com o bloqueio do estreito de Ormuz – uma das vias mais importantes para o fluxo do petróleo mundial, sendo bloqueada por minas, lanchas, drones e mísseis.

Essa abordagem não apenas surpreendeu Washington e Tel Aviv, como também saturou sistemas de defesa israelenses. O mito do Domo de Ferro, sistema antiaéreo de Israel, foi superado em situações em que cidades israelenses, como Dimona, Arad e até a capital de Israel foram atingidas por mísseis balísticos supersônicos iranianos.

"O Irã, desde a guerra com o Iraque nos anos 1980, passou a se preparar para ampliar sua zona de influência e aprimorar suas defesas", afirma Najad Khouri, pesquisador sênior do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre o Oriente Médio (GEPOM), sobre a capacidade de resposta dos iranianos ser resultado direto do passado do país.

Sem acesso a armamentos modernos por conta das sanções, o país investiu no desenvolvimento de tecnologia própria, especialmente em mísseis balísticos, que se tornaram o eixo central de sua estratégia militar.

No conflito na Ucrânia, por exemplo, o Irã demonstrou essa capacidade ao se aproximar da Rússia e fornecer drones de ataque do tipo "kamikaze", como os modelos Shahed 136, utilizados para atingir infraestrutura e saturar sistemas de defesa aérea, consolidando um modelo de guerra assimétrica baseado em volume, baixo custo e capacidade de sobrecarga dos sistemas inimigos.

"Ele [Irã] aprendeu a desenvolver seus meios balísticos com uma certa sofisticação e com precisão usando tecnologia própria, indígena [...] Então, obviamente se preparou desde o ano passado e, quando houve esses ataques, já estava pronto, descentralizando as suas defesas em um modelo chamado 'mosaico'."

"Com isso, dispersou o comando e garantiu capacidade de reação contínua, lançando mísseis e conduzindo ataques não só contra Israel, mas também contra bases americanas e países árabes que abrigam forças dos Estados Unidos em seus territórios."

Khouri avalia que a estratégia adotada por Estados Unidos e Israel ao longo do conflito foi além da simples eliminação de lideranças iranianas, atingindo também possíveis interlocutores para negociações. "Eles miraram tanto lideranças mais radicais quanto aquelas que poderiam costurar um possível acordo", afirma, destacando que o objetivo seria pressionar o Irã a aceitar condições mais rígidas, como o fim do enriquecimento de urânio e limitações ao seu programa militar.

Segundo ele, os ataques também buscaram causar danos estruturais profundos para forçar concessões. "A ideia era quebrar a espinha dorsal do Irã", diz. No entanto, a reação iraniana seguiu outro caminho: em vez de recuar, ampliou o conflito. "O Irã ampliou esse conflito para que o mundo pague caro e para que os americanos paguem ainda mais", explica, citando o impacto sobre rotas estratégicas como Ormuz e a alta global nos preços de energia.

Para o pesquisador, essa mudança de dinâmica transformou a guerra em um problema internacional mais amplo. "Ela ampliou o custo da guerra tanto para os árabes quanto para os americanos e para o mundo", afirma. O resultado é um cenário mais complexo, com envolvimento indireto de diversos países e tentativas de mediação por atores como Paquistão e China, enquanto Israel mantém autonomia para seguir com ataques independentemente de negociações por cessar-fogo.

Na visão de analistas ouvidos pela Sputnik Brasil, Israel está focando seus ataques no Líbano para compensar o desgaste com o Irã, visto que as ofensivas iranianas estão tendo maiores resultados que ataques de grupos menores como Hamas ou, mesmo, contra o Hezbollah. Embora também haja uma iniciativa de "redesenhar" o Oriente Médio, há também uma tentativa de mascarar que Israel não possui as mesmas capacidades ofensivas do Irã.

No lado dos EUA, o presidente norte-americano Donald Trump tem feito afirmações de que iranianos e entidades do país estariam buscando um acordo de cessar-fogo, indicando que uma proposta poderia ser considerada caso o bloqueio no Estreito de Ormuz fosse encerrado. No entanto, tanto o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) quanto o chanceler iraniano Abbas Araghchi negam tais negociações diretas, afirmando que há apenas trocas de mensagens por intermediários.

Khouri pontua que a estrutura de poder no Irã limita esse tipo de negociação. "O presidente do Irã não manda nada na política externa, muito menos na guerra. Isso está 100% na mão do líder supremo", afirma, referindo-se ao aiatolá Mojtaba Khamenei, que assumiu o comando após a morte de seu pai . Segundo ele, quem efetivamente conduz a estratégia militar e diplomática são os Guardas Revolucionários.

Nesse contexto, Khouri avalia que não há, de fato, um canal direto de negociação com Washington. "Pode haver troca de mensagens, mas o verdadeiro diálogo tem que ser com os guardas revolucionários", diz. Para ele, são esses atores que "estão ampliando a guerra e lutando pela sua sobrevivência", o que torna qualquer tentativa de cessar-fogo mais complexa e dependente de mediações indiretas.

Sobretudo, um acordo entre Estados Unidos e Irã só daria certo, em sua avaliação, se cada país conseguir uma "vitória", seja a abertura do estreito para os americanos ou uma compensação pelos danos à infraestrutura iraniana. "Os EUA também têm interesse no petróleo iraniano. O Irã tem interesse na tecnologia deles de petróleo [...] Há interesses entre os dois, sem dúvida."

Khouri pontua, no entanto, que os entraves são profundos, estruturais e marcados por baixa flexibilidade política. "É como pegar duas caixas de fósforo e tentar encaixar. Elas não vão encaixar. Alguém tem que ceder", afirma. Entre os principais pontos de impasse estão o alcance dos mísseis balísticos iranianos, as restrições ao enriquecimento de urânio — especialmente a exigência israelense de enriquecimento zero — e o apoio de Teerã a grupos aliados no Líbano, Iraque e outros pontos da região.

Do outro lado, o Irã exige não apenas o levantamento das sanções econômicas, mas também uma indenização bilionária pelos danos causados à sua infraestrutura, com milhares de alvos atingidos, incluindo indústrias, instalações energéticas e ativos logísticos.

Além disso, ele destaca que há interesses econômicos cruzados relevantes, mas ainda insuficientes para destravar o conflito no curto prazo. "O Irã precisa de tecnologia americana para recuperar campos de petróleo antigos, enquanto os EUA têm interesse direto nesses recursos", explica. Khouri lembra ainda que o país persa enfrenta limitações estruturais, como uma frota aérea envelhecida e projetos interrompidos após o colapso de acordos anteriores, o que reforça a dependência de cooperação externa em um eventual cenário de distensão.

Apesar disso, o pesquisador avalia que qualquer negociação efetiva esbarra na própria arquitetura de poder do Irã e na ausência de canais diretos confiáveis. "A única pessoa que pode decidir é o líder supremo. É ele que pode autorizar qualquer acordo", afirma. Sem um cessar-fogo prévio, abertura das rotas estratégicas e uma mediação internacional robusta, Khouri considera que tratativas atuais são frágeis. "Qualquer diálogo agora é especulação ou não tem valor nenhum", conclui.

O que parece certo é que, caso os Estados Unidos saiam do conflito sem a reabertura do estreito de Ormuz, isso seria visto como uma derrota de Washington — ainda que menos custosa do que a continuidade da guerra ou uma eventual invasão terrestre.

Khouri pondera, no entanto, que as decisões passam por fatores estratégicos mais amplos. "O custo da guerra está muito alto para os americanos, para o Irã, para os árabes e para o mundo", afirma, destacando que a continuidade do conflito por mais algumas semanas pode gerar prejuízos globais significativos. Segundo ele, além dos impactos econômicos, há também pressões políticas internas, especialmente nos Estados Unidos, em um contexto eleitoral sensível.

"Os dois têm que sair vitoriosos numa guerra que os dois estão perdendo", diz. Isso poderia ocorrer por meio de um acordo em que Washington alegue ter alcançado seus objetivos estratégicos, enquanto Teerã sustenta ter resistido às pressões externas.

Khouri também destaca a resiliência iraniana diante dos ataques e a complexidade de um eventual avanço militar direto. "O Irã provou que pode resistir", afirma, lembrando das dimensões territoriais e da capacidade de resposta do país. Nesse cenário, uma escalada maior poderia ampliar ainda mais o conflito, atingindo outras instalações estratégicas na região e envolvendo novos atores.

"Alguém está ganhando? Não, todo mundo está perdendo, até quando alguém aguentar mais a perda. Então, aí vai ser o limite dos dois lados em combate. Certamente, o Irã provou ser resiliente."