Análise: sem suporte militar, insurgência em Moçambique pode se espalhar pelo sul da África
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas explicam riscos da possível retirada de tropas ruandesas da região de Cabo Delgado.
As forças militares de Ruanda atuam desde 2021 com milhares de homens na região de Cabo Delgado, ao norte de Moçambique, para coibir uma insurgência local ligada ao Daesh (organização terrorista proibida na Rússia e em vários outros países). Estima-se que o grupo, autodenominado Ansar al-Sunna, mas também conhecido como Ansar al-Sharia, tenha provocado a morte de cerca de 6.500 pessoas e o deslocamento forçado de outros 1 milhão.
As tropas ruandesas chegaram ao local a pedidos do governo de Moçambique, que não conseguiu estabilizar a situação nos primeiros anos de revolta, supostamente motivado pelas condições sociais precárias alavancadas pela crise econômica do país localizado no sul da África.
Sem dinheiro para bancar as forças de Ruanda, Moçambique conta com a ajuda da financeira União Europeia, que já desembolsou 40 milhões de euros para custear a presença ruandesa na região. Por trás, o bloco europeu tem interesse na abundância de gás da região de Cabo Delgado, que abriga um projeto de extração deste hidrocarboneto liderado pela empresa francesa TotalEnergies.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas explicam que não combater a insurgência moçambicana, apoiada pelo Daesh, pode fomentar novas células como esta no continente.
Eden Pereira, professor de história e pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul (NIEAAS), acredita que o Cabo Delgado pode se tornar um foco de instabilidade naquela região da África para a atuação de grupos terroristas.
"No caso de Moçambique, isso é muito sério, porque ela seria a primeira insurreição bem-sucedida, por assim dizer, de ramificações do Estado Islâmico (Daesh) ao sul do Saara. E isso traz um perigo muito grande para países naquela região, como a Tanzânia, como a África do Sul, que possuem populações muçulmanas, evidentemente, e que estariam diante de um foco de instabilidade diretamente nas suas fronteiras."
Para Pereira, a região deveria estar no foco da ONU para missões de paz. Todavia, segundo o especialista, a organização vive uma crise de legitimidade política "muito profunda" encabeçada pela instrumentalização do órgão por parte das potências ocidentais.
"No continente africano, talvez interessasse a algum país naquela região [financiar as tropas ruandesas], como o caso, por exemplo, da África do Sul, mas as relações entre a África do Sul e Ruanda são relações muito ruins. Isso coloca a possibilidade de que a União Europeia tenha duas escolhas: ou ela bota a a mão no bolso e resolve dar o valor que Ruanda está exigindo ou a União Europeia vai ter que abrir mão e desistir do projeto de exploração de gás naquela região."
Christopher Antunes Dom de Capua, mestrando em relações internacionais na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e do membro do Grupo de Estudos em Capacidade Estatal, Segurança e Defesa (Gecap), assim como Pereira, acredita que a saída de Ruanda de Cabo Delgado deixaria um vácuo de poder que poderia ser assumido por essa célula do Daesh. No entanto, há um imenso interesse da União Europeia em ter mais fontes de gás após interromper a compra dos hidrocarbonetos russos.
"A União Europeia precisa aumentar o seu leque de acesso a recursos energéticos, muito por conta das situações que foram acontecendo com essa guerra ucraniana no seu território europeu. Portanto, a União Europeia também tem este interesse de poder diversificar o seu acesso a recursos energéticos e Moçambique, através de Cabo Delgado, acaba por oferecer esta possibilidade à União Europeia."
Capua reforça que ainda não há um posicionamento oficial de nenhuma das partes sobre o acordo de financiamento para a operação ruandesa ou sequer se pretendem permanecer ou sair de Cabo Delgado.
"É bem sabido que as forças de segurança moçambicanas ainda não têm capacidade para poder garantir a estabilidade e segurança em Cabo Delgado. E nesse preciso momento, Ruanda sair de Cabo Delgado, iria agravar a situação de segurança."
Moçambique: soberania em xeque
As ações violentas insurgentes não se justificam, mas seguem um roteiro de reivindicações populares do povo moçambicano, que vive em um país em que está na lista das dez piores nações no Índice de Desenvolvimento Humano.
Para Pereira, o governo de Moçambique não tem a capacidade de coibir as ações rebeldes e tampouco atuar na extração de gás da bacia de Roruma sem a ajuda de atores externos, colocando em xeque a soberania sobre o território deste país africano.
"Uma vez que o Moçambique está em uma condição onde ele precisa dessas forças militares estrangeiras para garantir o controle sobre parte do seu território, que, na prática, é um território que é operado por empresas internacionais, isso coloca a possibilidade ou a autoridade do Estado moçambicano sobre essas regiões quase que nula e quase que mínima."
Capua, por sua vez, destaca que Ruanda, ao socorrer um país africano, deseja passar a "imagem de um Estado militarmente capaz, seguro e economicamente estável" embora haja o que ele classifica como "ambiguidade" por ruandeses nutrirem tensões com a República Democrática do Congo.
"Enquanto africano e também estudante de questões de África, olho o Ruanda como um país na África que procura se afirmar continentalmente. O que o Ruanda procura fazer nesta altura, inicialmente, é ganhar protagonismo na sua, digamos, região mais próxima, que é da África Oriental, da África Central, e agora com esta atuação que tem feito em Moçambique."