ANÁLISE

'Linguagem narrativa da política entrou na lógica das mídias sociais', diz analista

Professor Viktor Chagas analisa como políticos utilizam memes, humor e tendências digitais para engajar e influenciar o debate público.

Publicado em 03/04/2026 às 11:51
Políticos utilizam memes e tendências digitais para engajar e influenciar o debate nas redes sociais. CC BY 2.0 / Flickr.com / Blogtrepeneur /

Em meio à saturação informacional, líderes e governos recorrem cada vez mais à comunicação bem-humorada como estratégia para abordar temas sérios, como a geopolítica, buscando engajar e ampliar seu público. Essa abordagem descontraída, porém, pode distorcer fatos e servir como ferramenta para influenciar a opinião pública e atacar adversários.

Com a digitalização acelerada e o consumo ágil de conteúdos, o universo político se adaptou à lógica das tendências populares nas plataformas virtuais. É o que explica Viktor Chagas, professor de Comunicação Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), em entrevista à Sputnik Brasil.

"Temos observado políticos recorrendo a artifícios performáticos, como dancinhas e esquetes em vídeos curtos, típicos das trends digitais. Estamos em um momento em que a política está intrinsecamente associada às mídias sociais", afirma.

Chagas destaca que a midiatização da política não é novidade, mas parte da evolução estratégica da comunicação para aproximar figuras públicas de seus eleitores e ampliar sua base de apoio, por meio da identificação.

"A midiatização da política segue a lógica da mídia, não só no digital, mas também em TV, rádio e jornais. Nos anos 90, já se discutia como candidatos adaptavam discursos para campanhas televisionadas. A construção de um personagem político favorece a humanização e aproximação com o público", comenta.

Memórias afetivas também engajam narrativas

No atual conflito no Oriente Médio, circulam na Internet conteúdos que vão de memes a vídeos criados por Inteligência Artificial (IA), como um em que personagens em estilo Lego ridicularizam a atuação de EUA e Israel contra o Irã.

Segundo Chagas, esse tipo de conteúdo visa não apenas engajar apoiadores, mas atrair grupos que se identificam com imagens de sua memória afetiva, ampliando o alcance da mensagem por meio de compartilhamentos.

"Esses conteúdos constroem relações intertextuais com elementos da cultura pop e da memória afetiva, como Lego e super-heróis. É uma associação típica do ambiente digital, que ajuda a circular mensagens entre pessoas que se identificam com elas", destaca.

O analista também explica o conceito de conteúdo sintético: imagens aleatórias usadas para validar discursos narrativos, comuns nos memes e potencializadas pela IA.

"Conteúdo sintético é produzido sem necessariamente ancorar-se em fatos ou personagens reais. É digitalmente criado, muitas vezes sem sabermos quem o produziu, pois pode ser fruto de instruções humanas ou da IA generativa", explica.

Memes como porta de entrada ao debate político

Se, por um lado, essa dinâmica amplia a influência de atores políticos e governos para atrair públicos globais no universo online, por outro, os memes podem ser porta de entrada para debates públicos mais qualificados, como ressalta o professor.

"Nunca se discutiu tanto política quanto hoje. Precisamos saber lidar com o ônus disso. Os memes podem cooptar o cidadão para o debate público de qualidade, indo além do humor, mas há interesses para que muitos se limitem apenas aos memes", conclui.

No mundo digital, onde realidade e ficção frequentemente se misturam, as redes sociais tornam-se ferramentas potencialmente poderosas para engajamento popular e construção de narrativas políticas.

Por Sputnik Brasil