'Linguagem narrativa da política entrou na lógica das mídias sociais', diz analista
Professor Viktor Chagas analisa como políticos utilizam memes, humor e tendências digitais para engajar e influenciar o debate público.
Em meio à saturação informacional, líderes e governos recorrem cada vez mais à comunicação bem-humorada como estratégia para abordar temas sérios, como a geopolítica, buscando engajar e ampliar seu público. Essa abordagem descontraída, porém, pode distorcer fatos e servir como ferramenta para influenciar a opinião pública e atacar adversários.
Com a digitalização acelerada e o consumo ágil de conteúdos, o universo político se adaptou à lógica das tendências populares nas plataformas virtuais. É o que explica Viktor Chagas, professor de Comunicação Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), em entrevista à Sputnik Brasil.
"Temos observado políticos recorrendo a artifícios performáticos, como dancinhas e esquetes em vídeos curtos, típicos das trends digitais. Estamos em um momento em que a política está intrinsecamente associada às mídias sociais", afirma.
Chagas destaca que a midiatização da política não é novidade, mas parte da evolução estratégica da comunicação para aproximar figuras públicas de seus eleitores e ampliar sua base de apoio, por meio da identificação.
"A midiatização da política segue a lógica da mídia, não só no digital, mas também em TV, rádio e jornais. Nos anos 90, já se discutia como candidatos adaptavam discursos para campanhas televisionadas. A construção de um personagem político favorece a humanização e aproximação com o público", comenta.
Memórias afetivas também engajam narrativas
No atual conflito no Oriente Médio, circulam na Internet conteúdos que vão de memes a vídeos criados por Inteligência Artificial (IA), como um em que personagens em estilo Lego ridicularizam a atuação de EUA e Israel contra o Irã.
Segundo Chagas, esse tipo de conteúdo visa não apenas engajar apoiadores, mas atrair grupos que se identificam com imagens de sua memória afetiva, ampliando o alcance da mensagem por meio de compartilhamentos.
"Esses conteúdos constroem relações intertextuais com elementos da cultura pop e da memória afetiva, como Lego e super-heróis. É uma associação típica do ambiente digital, que ajuda a circular mensagens entre pessoas que se identificam com elas", destaca.
O analista também explica o conceito de conteúdo sintético: imagens aleatórias usadas para validar discursos narrativos, comuns nos memes e potencializadas pela IA.
"Conteúdo sintético é produzido sem necessariamente ancorar-se em fatos ou personagens reais. É digitalmente criado, muitas vezes sem sabermos quem o produziu, pois pode ser fruto de instruções humanas ou da IA generativa", explica.
Memes como porta de entrada ao debate político
Se, por um lado, essa dinâmica amplia a influência de atores políticos e governos para atrair públicos globais no universo online, por outro, os memes podem ser porta de entrada para debates públicos mais qualificados, como ressalta o professor.
"Nunca se discutiu tanto política quanto hoje. Precisamos saber lidar com o ônus disso. Os memes podem cooptar o cidadão para o debate público de qualidade, indo além do humor, mas há interesses para que muitos se limitem apenas aos memes", conclui.
No mundo digital, onde realidade e ficção frequentemente se misturam, as redes sociais tornam-se ferramentas potencialmente poderosas para engajamento popular e construção de narrativas políticas.
Por Sputnik Brasil