COOPERAÇÃO INTERNACIONAL

Brasil e Índia estreitam parceria energética: expertise de refinamento indiano pode ajudar Brasília?

Aumento das exportações de petróleo e possível colaboração em refino marcam nova fase da relação bilateral.

Por Por Sputnik Brasil Publicado em 03/04/2026 às 07:27
Brasil amplia exportação de petróleo à Índia; parceria pode envolver refino e fortalecer laços energéticos. © Arquivo / Petrobras

O reordenamento do sistema mundial, impulsionado por tarifas inéditas dos Estados Unidos e conflitos que transformam a dinâmica dos negócios globais, tem levado países a buscar novas estratégias comerciais. Nesse contexto, a Índia vem intensificando seus laços com o Brasil no setor petrolífero.

Em termos de números recentes, em 2025, a Índia foi o décimo principal destino das exportações brasileiras e o sétimo no segmento de petróleo bruto e minerais betuminosos. Porém, nos dois primeiros meses deste ano (janeiro e fevereiro), o cenário mudou significativamente: Nova Deli tornou-se o segundo maior mercado para o combustível fóssil brasileiro, superando os Estados Unidos e ficando atrás apenas da China.

Além disso, a Petrobras ampliou, em 2024, os contratos de venda de petróleo para as principais refinarias indianas, como a Indian Oil Corporation Limited (a maior do país), Bharat Petroleum Corporation Limited e Hindustan Petroleum Corporation Limited. O volume total dessas vendas, previsto até março de 2027, pode chegar a 60 milhões de barris, superando US$ 3 bilhões (aproximadamente R$ 15,4 bilhões).

Recentemente, em entrevista ao jornal indiano Mint, o embaixador brasileiro na Índia, Kenneth Félix Haczynski da Nóbrega, destacou que a elevada capacidade de refino de Nova Deli poderia contribuir para reduzir a vulnerabilidade brasileira nesse setor. O diplomata também mencionou a possibilidade de instalação de refinarias indianas em território brasileiro, em uma eventual colaboração para produção interna de derivados como o diesel, fundamental para os transportes rodoviário e ferroviário do país.

Para André Figueiredo Nunes, doutor em ciências militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) e analista de relações internacionais na Empresa Gerencial de Projetos Navais (EMGEPRON), a parceria pode ser promissora no futuro, embora os acordos recentes não prevejam, por ora, a instalação de refinarias indianas no Brasil.

"O modelo de negócios dos contratos recentes em relação à Índia é mais favorável à exportação de petróleo bruto do que à redução do gap de refino no Brasil", observa.

Segundo Nunes, os acordos firmados em meio a conflitos militares envolvendo grandes exportadores e à imposição de tarifas dos Estados Unidos à Índia pela importação de petróleo russo geram ganhos concretos para o Brasil. "A Petrobras incrementa suas exportações de petróleo para a Índia e se posiciona como um parceiro estratégico relevante. Ao mesmo tempo, o Brasil, diante do terceiro maior consumidor de petróleo e quarto país em capacidade de refino, fortalece sua imagem como fornecedor confiável e estratégico nas relações político-econômicas do Sul Global, além de ampliar o diálogo em fóruns internacionais como o BRICS e o G-20".

Nesse contexto, o Brasil pode obter vantagens ao importar petróleo refinado, adquirindo o produto a preços mais competitivos e beneficiando setores como agronegócio, aviação, transporte de cargas em geral e, principalmente, o consumidor final.

Por outro lado, diante do cenário geopolítico marcado por instabilidade, Nunes ressalta que investir na Petrobras e em refinarias nacionais ganha relevância estratégica, sobretudo para garantir a segurança e a soberania energética do país diante de crises internacionais que afetam o preço do barril.