DEFESA

Análise: com melhor custo-benefício no front, drones iranianos impõem derrota econômica à OTAN

Por Por Sputinik Brasil Publicado em 02/04/2026 às 16:34
© AP Photo / Vahid Salemi

À Sputnik Brasil, especialistas apontam que os mísseis iranianos de baixo custo que vêm se sobressaindo frente aos sistemas aéreos dos EUA e Israel representam um desafio para a aliança.

Os drones Shahed ganharam papel central na defesa iraniana contra os ataques dos EUA e de Israel. Produzidos a um baixo custo, eles impõem derrotas à máquina militar norte-americana, ao devastar equipamentos caros e sofisticados e levar ao esgotamento dos sistemas de defesa aérea estadunidense.

A disparidade no custo-benefício é exorbitante: os drones Shahed custam menos de US$ 40 mil (cerca de R$ 206 mil) para serem produzidos, muito abaixo dos US$ 400 mil (cerca de R$ 2 milhões) necessários para produzir os mísseis norte-americanos NASAM ou dos cerca de US$ 4 milhões (cerca de RS 20 milhões) empregados na produção de mísseis do sistema Patriot.

A eficácia dos drones Shahed levou os EUA a tentar copiar o sistema, desenvolvendo o drone LUCAS (Low-cost Unmanned Combat System), utilizado pela primeira vez no combate na guerra contra o Irã.

Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas avaliaram que a ascensão dos drones de baixo custo iranianos representa uma derrota econômica que impacta diretamente os EUA e seus aliados na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) nos conflitos recentes.

O capitão da reserva da Marinha do Brasil Robinson Farinazzo afirma que o crescimento da indústria de drones e mísseis do Irã é um reflexo da necessidade do país, que por conta das sanções e bloqueios fiscais pelos EUA desde a Revolução de 1979 não tinha condições de comprar equipamentos novos e modernos no mercado internacional. Diante disso, comecei a desenvolver tecnologia própria.

Ele afirma que o Irã tem engenheiros de qualidade, "uma gente jovem, motivada e que pensa no futuro do país".

"Outros países do Sul Global, inclusive o Brasil, poderiam adotar essa filosofia de construção, mas infelizmente a gente não tem intenção para isso ainda. A gente ainda está vivendo achando que a OTAN é nossa amiga, que ela vai nos proteger. A gente não percebe quem é o predador nessa história toda. O Irã se tocou disso há mais de 40 anos."

Ele afirma que é difícil prever as vantagens de que o drone LUCAS possa conferir à defesa estadunidense porque as Forças Armadas dos EUA, historicamente, não conseguem fazer material barato e cita como exemplo as fragatas norte-americanas que custam de três a sete vezes o custo de uma equivalente chinesa.

"As indústrias de defesa já se acostumaram a tirar vantagem do competitivo americano nas vendas ao Pentágono, e elas precisam remunerar também Wall Street com dividendos. Então eu não sei se isso vai funcionar, sinceramente, eles fazem muita propaganda, mas é difícil saber no momento", afirma Farinazzo.

Ele avalia que o melhor custo-benefício não só do Shahed, mas de alguns mísseis do Irã também, representa uma derrota para a OTAN, mas frisa que a aliança também enfrentou, embora em menor grau, o mesmo problema que os EUA por não conseguirem produzir armamentos baratos. Além disso, ela passa por incerteza quanto ao futuro.

"Eu acho que a OTAN está vivendo uma crise muito grande, eu não sei se a OTAN chega no final do mandato do presidente [Donald] Trump, ele é abertamente contra a entidade e os países europeus estão bastante preocupados com o futuro."

João Gabriel Burmann, professor da UniRitter e pesquisador do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (Isape), avalia que a eficiência da engenharia iraniana é fruto da necessidade e destaca que o país persa produz muitos engenheiros, inclusive muitas mulheres engenheiras, além de ser muito avançado na capacidade de manutenção, ou seja, de fazer com que os materiais deles consigam ficar operacionais bastante além do que seria seu ciclo de vida no Ocidente.

“E aí eu acho que é uma outra questão a interpretação de uma guerra assimétrica, entendo essa fraqueza ou essa desvantagem da cooperação tecnológica, esse relativo isolamento, como uma força que te permite fazer mais com menos e desenvolver aeronaves com uma estrutura relativamente simples, com um custo muito baixo, e que te permite fazer em escala”, afirma Burmann.

Ele acrescenta que esse movimento tende a ser mais forte no Sul Global para mostrar que é possível um desenvolvimento nativo, a partir de uma perspectiva assimétrica, uma perspectiva do simples como mais forte, da fraqueza tecnológica como uma força.

Ele afirma que há possibilidade dessa tendência se refletir em outros países do Sul Global, como o Paquistão e mesmo a Turquia, que embora seja membro da OTAN vem tentando desenvolver suas próprias alternativas através de engenharia reversa, ou aproveitando sua participação em programas de desenvolvimento da aliança, como foi o caso do F-35, para também desenvolver suas próprias aeronaves.

"Então há uma possibilidade, sim, e as pessoas têm conseguido ver esse tipo de mercado do Sul Global, dos países em desenvolvimento, que não são grandes potências, mas que são lideranças regionais tendo seus próprios projetos."

Burmann enfatiza que a guerra, hoje, especialmente envolvendo mísseis e drones, se dá por escala, por saturação e nem sempre o mais caro, o mais tecnológico se sai o melhor no front. Ele aponta que a palavra-chave na guerra de mísseis e na guerra aérea voltou a ser "massa", que é a ideia da concentração, da quantidade de dispositivos e de meios, e que muitas vezes é mais eficiente fazer isso com sistemas militares mais simples.

Segundo o especialista, o desenvolvimento do LUCAS é um indicativo de que os EUA já consideraram essa tendência, mas enfrentam obstáculos para se adaptar a essa nova modalidade de debate no frente por questão de escala temporal.

"Os EUA, ainda que tenham capacidade de pagamento, tenham orçamento, consigam mobilizar recursos para isso, [...] o problema é justamente a questão do tempo, é não conseguir produzir munições e mísseis e drones a uma escala temporal, num ritmo tão rápido, para reportar seus estoques e os estoques de Israel e os estoques dos países do Golfo, os seus aliados, para fazer frente, para conseguir concretizar o ataque ao Irã e também para fazer a defesa aérea desses países."

Ele avalia que, de imediato, a questão do Shahed representa uma derrota econômica para a OTAN, pois faz com que os países da aliança tenham que compensar sua indústria de defesa, o que traz a necessidade de reestruturar a composição dos gastos frente ao PIB.

Já no caso dos EUA, ele aponta que o país corre um risco de um novo desligamento por conta de gastos extraordinários do orçamento causados ​​pela guerra que está provocando. Logo, destinar mais verba para operações militares só será viável no próximo ano. Além disso, pode haver a necessidade de conversão de fábricas, como ocorreu na Alemanha, onde uma fábrica da Volkswagen foi convertida para produzir mísseis.

“É realmente uma operação de economia de guerra, mobilização das suas economias para a guerra”, conclui o especialista.