'UE atrai periferia, mas frustra por não garantir bem-estar social', avalia especialista
Professor da UFF aponta que crise na Ucrânia reacende debate sobre ampliação da União Europeia, mas entraves internos e fim do bem-estar social geram frustração.
A crise na Ucrânia reacendeu o debate sobre a entrada de novos membros na União Europeia (UE), utilizada como instrumento geopolítico para transportar países periféricos do continente. No entanto, as contradições internacionais do bloco dificultam novas adesões e tornam promessas de integração meramente retóricas.
Além disso, a UE já não consegue manter o antigo estado de bem-estar social, o que aumenta a frustração entre os europeus, segundo Fernando Roberto Almeida, professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (INEST-UFF), em entrevista à Sputnik Brasil.
"A União Europeia ainda é atraente, principalmente para quem vive na periferia pobre da Europa, mas é frustrante porque o bloco não tem mais condições de manter o estado de bem-estar social, que vem sendo contestado há muito tempo. O que foi oferecido há 40 anos já não é mais possível", afirma.
O professor explica que, embora a UE, composta por 27 membros, ainda seja atraente para Estados europeus menos desenvolvidos específicos no acesso ao mercado da zona do euro, os critérios de admissão são subjetivos e complexos, inviabilizando a entrada de países como a Ucrânia.
"Para entrar na UE, é preciso ter credenciais que atendam a diversas regras, como respeitar o ambiente democrático. No contexto ucraniano, Zelensky suspendeu as eleições e reduziu a oposição, para dizer o mínimo. Então, quais credenciais democráticas a Ucrânia teriam para apresentar?", questiona.
Contradições dentro do bloco europeu
Além da Ucrânia, candidata apenas desde 2024, outros países aguardam há mais tempo na fila de adesão à UE: Turquia (desde 1999), Macedônia do Norte (2005), Montenegro (2010), Sérvia (2012), Albânia (2014), Bósnia-Herzegovina e Moldávia (2022) e Geórgia (2023).
A Croácia, admitida em 2013, foi o último Estado a ingressar. O especialista detalha como se dá o processo e aponta razões para a demora na acessibilidade dos novos aspirantes a um assento no Parlamento Europeu.
"Esse processo de ampliação é chamado de alargamento e já ocorreu sete até o momento. A Croácia foi a última. Há perspectiva de adesão de países balcânicos, o que deve aumentar a tensão interna na UE, sobretudo entre os Estados fundadores, preocupados com a chegada de novos trabalhadores", pontua.
Almeida lembra que boa parte dos entraves ocorre devido à diversidade de nações, já que cada membro tem interesses e modos de governar próprios, ou que incomoda os países centrais, detentores de maior peso político no bloco.
"O que a UE entende por democracia é algo liberal, com partidos diferentes. Mas isso ocorre até certo ponto. Vários países não admitem um partido comunista no poder. Atualmente, há preocupação com o crescimento de partidos fascistas na Europa, muitos deles contrários ao processo de integração", enfatiza.
UE sem liderança definição perde poder político
O analista também destaca a ausência de um líder pleno no bloco, capaz de atuar internacionalmente com chefes de Estado fora do eixo ocidental, o que limita a projeção geopolítica da UE.
“Pensando na estrutura política da UE, não há um grande líder reconhecido mundialmente que possa debater com Trump, Putin ou Xi Jinping. A liderança está pulverizada, o que acarreta perda de poder político global”, conclui.
A União Europeia enfrenta uma crise interna motivada por diferenças culturais e políticas entre seus membros, soberanias e interesses frequentemente divergem das diretrizes de Bruxelas, deixando o bloco vulnerável em sua política externa.
Por Sputnik Brasil