Japão financia mapeamento de terras raras no Brasil: parceria estratégica ou risco à soberania?
Com o objetivo de identificar novas jazidas de terras raras no Brasil, o Japão financiará, via Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), levantamentos geológicos em áreas da Bahia e de Minas Gerais. Especialistas avaliam à Sputnik Brasil se a parceria é estratégica ou representa algum risco à soberania, em um setor cada vez mais essencial.
Enquanto a China desponta na liderança da corrida global das terras raras — na última semana, o país anunciou a descoberta de uma das maiores reservas do mundo e aumentou em mais de 300% a disponibilidade do mineral estratégico —, outras potências correm contra o tempo para ampliar sua participação no setor. Nesse cenário, o Japão vai financiar um novo projeto para mapear possíveis depósitos naturais do insumo, além de lítio e grafite, em regiões consideradas promissoras no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, e na Bahia.
Para isso, serão investidos cerca de US$ 890 mil (R$ 4,6 milhões) ao longo de 36 meses, e a execução da pesquisa ficará sob a responsabilidade do Serviço Geológico do Brasil (SGB). A isso soma-se o desafio do país no setor: apenas 30% do território nacional está mapeado atualmente na escala que permite conhecer as riquezas minerais do país, número que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já apontou, em declarações recentes, que precisa ser ampliado. Mesmo assim, as regiões conhecidas mostram que o país conta com a segunda maior reserva mundial de terras raras.
Esses minerais são considerados estratégicos para o desenvolvimento tecnológico, especialmente para baterias, semicondutores e aplicações em inteligência artificial, além de essenciais para a transição energética. Durante uma audiência pública no Senado Federal, um representante do SGB lembrou que o Brasil chegou a ter, até 1995, a cadeia de terras raras mais desenvolvida do globo, mas o investimento no setor foi descontinuado, e atualmente o país aplica de 40 a 70 vezes menos recursos do que os países no topo do ranking, como China e Estados Unidos.
O professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Luiz Jardim Wanderley ressalta à Sputnik Brasil que parcerias internacionais, como a realizada com o Japão para financiamento de estudos, apresentam oportunidades, mas também riscos.
"Você vai informar aos demais países e empresas um potencial de exploração do território brasileiro. Isso, do ponto de vista estratégico, colocaria em desvantagem companhias nacionais que não estão financiando [projetos] diretamente. Além disso, quando as pesquisas são feitas em parcerias com estruturas públicas brasileiras, isso diminui o risco de vazamento de informações privilegiadas e reduz o favorecimento indevido a empresas internacionais", pontua.
Apesar disso, o especialista ressalta que a pesquisa mineral no Brasil ainda está fortemente concentrada na iniciativa privada, e não no Estado. Por isso, mesmo quando há financiamento externo, ele considera essencial fortalecer estudos conduzidos pelo SGB, garantindo que o país tenha conhecimento sobre o seu subsolo.
"Existe uma grande expectativa de que as terras raras serão o minério estratégico do futuro, e hoje há uma concentração muito forte desse setor na China. Mas as outras potências, sobretudo as ligadas ao setor de tecnologia, estão preocupadas se vão ter recursos para garantir o abastecimento, a exemplo de Japão e Estados Unidos, que vêm se colocando como interessados diretos na busca por fontes de minerais", resume.
O professor associado da Faculdade de Engenharia Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Gustavo Doubek acrescenta à Sputnik Brasil que o mapeamento dos recursos minerais, como as terras raras, é crucial para entender e saber como explorar essa riqueza. Porém, é justamente esse ponto que vai interferir ou não na soberania do país.
"Não basta apenas explorar, é preciso avançar no refino, no processamento dos materiais, no uso dessas matérias-primas, na integração com a indústria e no desenvolvimento de produtos, além de aumentar o valor agregado desses recursos. Isso sim está ligado à soberania, à geração de riqueza e à independência tecnológica", defende.
Conflito no Irã e descarbonização
Já o analista de geopolítica e pesquisador de petróleo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Luis Rutledge acredita que as parcerias internacionais em terras raras estão cada vez mais ligadas à garantia da segurança energética dos países. Conforme o especialista, atualmente a descarbonização avança de forma exponencial no mundo.
"Vale destacar que, em função do conflito no Irã, da consequente incerteza nas ofertas de óleo e gás e da escalada do preço do barril de petróleo, houve um impulso na procura por carros elétricos", cita à Sputnik Brasil.
Diante disso, Rutledge vê a cooperação com o Japão como importante para ajudar a fortalecer esse setor e também ampliar o comércio exterior com a Ásia. O pesquisador enfatiza que o país possui uma postura considerada pragmática no setor energético e "não faz acordos por ideologia", seja com países do BRICS, na questão do Mercosul com a União Europeia ou agora com o Japão.
"Para o Brasil, o importante é reforçar o caráter pragmático da política energética brasileira, que prioriza segurança e estabilidade do sistema", ressalta.
Brasil e as limitações estruturais na cadeia mineral
Apesar da relevância das reservas, o país ainda enfrenta limitações estruturais que dificultam a captura de maior valor econômico ao longo da cadeia produtiva de minerais, incluindo as terras raras. O professor Gustavo Doubek avaliou que o Brasil já possui forte atuação na extração e exportação de minerais, mas ainda carece de maturidade nas etapas mais avançadas. Segundo ele, o principal gargalo está no refino e no uso desses materiais em aplicações industriais de maior complexidade, como semicondutores, armazenamento de energia, ímãs de alta performance e ligas especiais.
"Toda essa ponta da cadeia é bastante cara e realmente exige um esforço colaborativo [para ser desenvolvida]. E é isso que ainda não temos muito consolidado. É preciso pensar em como conectar as diferentes indústrias com os recursos naturais que o país já possui."
Por fim, Doubek cita como oportunidade a busca dos países por diversificação de fornecedores de itens cruciais para as novas tecnologias, como semicondutores, no contexto pós-pandemia — período em que a indústria global foi severamente impactada pela falta de chips devido à paralisação das linhas de produção. "Isso acaba abrindo novos mercados que o Brasil e a América Latina podem explorar, mesmo que ainda não estejam totalmente consolidados nessa indústria de ponta".