INTERNACIONAL

Ao chamar EUA para mediar tensões, Equador e Colômbia 'alimentam um monstro', diz especialista

Publicado em 31/03/2026 às 16:35
© AP Photo / Dolores Ochoa

À Sputnik Brasil, especialistas explicaram como a falta de mediadores como Brasil ou México e a presença dos EUA para intermediar uma disputa entre Colômbia e Equador pode agravar um problema regional.

Um bombardeio de divisão entre Equador e Colômbia desencadeou uma nova crise diplomática entre os dois países e relembrou as derrotas passadas na América do Sul. No dia 16 de março, o presidente colombiano Gustavo Petro acusou o governo equatoriano de realizar um ataque aéreo ao seu território. No local, após explosões, foram descobertos 27 corpos carbonizados.

O incidente, que ainda está sob investigação, motivou um pedido de mediação internacional, incluindo um apelo direto ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “Nós não queremos guerra”, declarou Petro ao comentar o episódio.

Do lado equatoriano, o presidente Daniel Noboa negou qualquer incursão em território colombiano e afirmou que as operações militares em curso têm como alvo exclusivo grupos armados ligados ao narcotráfico dentro das fronteiras do próprio Equador.

Quito confirmar a realização de bombardeios, mas sustenta que eles ocorrem contra acampamentos de organizações criminosas – muitas delas, segundo o governo, formadas por dissidentes colombianos que atravessam a fronteira.

A divergência de versões, somada à presença de um artefato explosivo não detonado encontrado em solo colombiano – identificado como de origem do Equador –, intensifica a desconfiança entre os dois países.

O episódio foi inserido em um contexto de flexibilidade das relações bilaterais desde o início de 2026. Em fevereiro, o Equador impôs tarifas sobre produtos colombianos, acusando Bogotá de falhas no combate ao narcotráfico transfronteiriço. Em resposta, a Colômbia sinalizou possíveis medidas retaliatórias, aprofundando uma disputa que já mistura segurança, economia e política externa.

Paralelamente, o governo Noboa tem adotado uma estratégia mais agressiva no enfrentamento ao crime organizado, por meio do chamado Plano Fênix, que autoriza o uso ampliado das Forças Armadas e classifica facções criminosas como “alvos militares”.

A crise ganha contornos ainda mais complexos ao envolver interesses externos e uma crescente militarização da política de segurança na região. Operações conjuntas ou alinhamentos estratégicos com Washington, especialmente no combate ao narcotráfico, acrescentam uma dimensão geopolítica ao conflito, ao mesmo tempo em que levantam questionamentos sobre soberania, proporcionalidade do uso da força e riscos de transferência do conflito para além das áreas de fronteira.

No Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, analisaremos se a tensão entre Colômbia e Equador pode estar sendo inflada por Washington, especialmente em ano eleitoral colombiano.

Adriano Cerqueira, professor de relações internacionais do Ibmec Belo Horizonte, afirmou ao programa que a política externa norte-americana "agressiva" é projetada interferência na política doméstica de nações sul-americanas para barrar interesses de outras potências, como Rússia e China.

Sob essa ótica está o aumento da presença de Washington na região – seja em operações diretas contra o narcotráfico ou apoiando governos aliados a interesses norte-americanos. Contudo, no caso do Equador, a estratégia pode melhorar o país e a sua população, na visão de Cerqueira.

Isto porque o pequeno país tem “uma posição muito estratégica” para a rota do narcotráfico internacional, estando próximos de grandes centros produtores de cocaína, como a Colômbia e o Peru, e, com seus portos planejados para a Ásia, servem de “exportador logístico”.

"O Equador, hoje, é uma rota desse tráfico internacional e isso só tende a agravar esse embate de uma política bem militarizada de combate."

Ou seja, um dos efeitos colaterais do aumento da militarização é o aumento da letalidade estatal, assim como o aumento de casos de violência no Equador. Outro é que pode se espalhar para fora do país, assim como visto no caso da fronteira entre Colômbia e Equador.

O professor, contudo, não acredita que haja uma “guerra de fronteira” entre os dois países. "A própria chamada de Gustavo Petro dos Estados Unidos é um indicativo de que eles não estão querendo escalar para uma situação de conflito armado aberto assim."

No entanto, para Renata Alvares Gaspar, diretora acadêmica da Escola de Altos Estudos em Direito e Relações Internacionais (Edrin), a presença dos Estados Unidos para mediar a crise pode não aliviar, mas sim aprofundar a tensão entre Bogotá e Quito.

Em sua opinião, a decisão de recorrer à Casa Branca reflete menos uma estratégia calculada e mais a fragilidade estrutural dos países envolvidos. “A gente, a partir de uma racionalidade distante, não entende como isso acontece, mas são países com estrutura muito frágil, mais o Equador do que a Colômbia”, explica Gaspar.

Nesse contexto, embora os Estados Unidos historicamente atuem como potência central nas relações internacionais — especialmente no combate ao narcotráfico sob o manto da cooperação —, a presença norte-americana não é necessariamente neutra. Ao contrário, pode gerar novos desequilíbrios.

"Eu diria que eles estão alimentando um monstro que pode comê-los, os dois."

Segundo ela, o problema se agrava em um cenário internacional marcado por incertezas e mudanças rápidas, em que países já pressionados pelo narcotráfico também se tornam vulneráveis ​​à influência de grandes potências.

"Esses países tão frágeis na mão do narcotráfico também são países frágeis na mão de potências como os EUA."

Um especialista avalia ainda que, apesar dos riscos, as opções regionais são limitadas. Potências latino-americanas como Brasil e México enfrentam seus próprios desafios internos e têm menor capacidade de atuação coordenada no cenário externo. "Eles também ficam sem ter onde correr", resume.

Assim, embora considere a escolha “muito temerária”, Gaspar ressalta que ela corre de um contexto de vulnerabilidade e da ausência de alternativas viáveis ​​no âmbito do Sul Global.

No caso do Brasil, a diretora ressalta que o país ainda mantém uma vocação histórica de liderança regional, mas enfrenta limitações diante de múltiplas pressões simultâneas, que complicam o cenário estratégico. É o caso da pressão norte-americana para classificar facções criminosas brasileiras como grupos terroristas e a proximidade dos Estados Unidos com governos vizinhos, como o Paraguai e a Argentina.

Segundo ela, não se trata exatamente de uma perda de protagonismo, mas de um momento de sobrecarga.

"São muitas frentes. Não é que o Brasil perdeu força, é que ele precisa, às vezes, escolher as batalhas."


Por Sputinik Brasil