MERCADO FINANCEIRO

Bancos centrais vendem títulos do Tesouro dos EUA e depósitos no Fed caem ao menor nível desde 2012

Reservas internacionais encolhem US$ 82 bilhões em meio à crise no Oriente Médio e alta do petróleo, pressionando moedas e mercados globais.

Publicado em 31/03/2026 às 10:46
Bancos centrais vendem títulos do Tesouro dos EUA e reservas no Fed atingem menor nível em 12 anos. © AP Photo / Yuki Iwamura

Os depósitos internacionais mantidos por bancos centrais no Federal Reserve (Fed) de Nova York atingiram o menor patamar desde 2012, após uma onda de vendas de títulos do Tesouro dos EUA para defender moedas nacionais e enfrentar o impacto do aumento dos preços do petróleo provocado pela guerra com o Irã. Desde fevereiro, essas reservas diminuíram em US$ 82 bilhões, totalizando agora US$ 2,7 trilhões (cerca de R$ 14,18 trilhões).

A queda dos depósitos está diretamente relacionada à alta dos preços da energia, após o fechamento do estreito de Ormuz pelo Irã. Esse movimento elevou os custos para países que dependem da importação de petróleo e fortaleceu o dólar. Para conter a desvalorização de suas moedas, diversos bancos centrais recorreram à venda de dólares — muitas vezes na forma de títulos do Tesouro norte-americano — para intervir nos mercados cambiais.

Segundo especialistas ouvidos pelo Financial Times, países importadores de petróleo como Turquia, Índia e Tailândia estão entre os principais vendedores desses ativos. A Turquia, por exemplo, impediu em US$ 22 bilhões (mais de R$ 115 bilhões) suas reservas de títulos estrangeiros desde o início do conflito, sendo boa parte desses montantes compostos por títulos do Tesouro dos EUA. Índia e Tailândia também registraram queda nas reservas cambiais, embora não haja clareza total sobre a composição dessas vendas.

A motivação principal é evitar que a desvalorização cambial encareça ainda mais o petróleo em moeda local, instruções sobre orçamentos públicos e familiares. Os analistas também apontam que os países exportadores de petróleo do Oriente Médio podem estar vendendo títulos do Tesouro para compensar perdas de receita, embora representem uma fatia menor dos detentores desses ativos.

Essas vendas ocorrem em um momento delicado para o mercado de títulos do Tesouro dos EUA, já pressionadas pelo temor de que o conflito no Oriente Médio impulsione a inflação. Os rendimentos dos títulos de dois e dez anos subiram significativamente, elevando os custos de financiamento para o governo, empresas e consumidores.

Alguns investidores veem a redução das reservas como um movimento típico em períodos de dólar forte, quando os bancos centrais reequilibram carteiras e defendem suas moedas. Outros interpretaram como uma estratégia para "abastecer o cofre de guerra", liquidando ativos seguros diante da volatilidade global. Também existe a possibilidade de parte das reservas ter sido limitada apenas para outros custodiantes, sem necessariamente ter sido vendida.

Apesar dessas nuances, os analistas destacam que a tendência de longo prazo é de diversificação: os bancos centrais diminuem gradualmente sua exposição ao dólar, enquanto os investidores privados estrangeiros ganham maior participação no mercado de títulos do Tesouro dos EUA.

Por Sputnik Brasil