Com uma em cada quatro pessoas acima de 60 anos ocupadas, mercado volta os olhos para profissionais mais experientes
O Brasil entrou numa fase em que trabalhar depois dos 60 deixou de ser exceção. Em 2024, o nível de ocupação das pessoas com 60 anos ou mais chegou a 24,4%, o equivalente a uma em cada quatro no mercado de trabalho, segundo dados divulgados pelo IBGE em dezembro de 2025.
Com uma em cada quatro pessoas acima de 60 anos ocupadas, mercado volta os olhos para profissionais mais experientes
O Brasil entrou numa fase em que trabalhar depois dos 60 deixou de ser exceção. Em 2024, o nível de ocupação das pessoas com 60 anos ou mais chegou a 24,4%, o equivalente a uma em cada quatro no mercado de trabalho, segundo dados divulgados pelo IBGE em dezembro de 2025.
A mudança tem base demográfica e efeito direto na composição do emprego. Entre 2012 e 2024, a população com 60 anos ou mais passou de 22 milhões para 34,1 milhões no país. No mesmo período, o IBGE mostra que os grupos de 50 a 59 anos e 60+ aumentaram a participação no total de ocupados, de 19,1% para 24,3%.
O movimento abre oportunidades, mas não elimina obstáculos. A inserção de profissionais 60+ ocorre sobretudo fora do ambiente formal: o IBGE aponta que a principal posição na ocupação é o trabalho por conta própria (43,3%), acima da média geral. Um recorte do FGV IBRE reforça esse quadro ao estimar que 53,8% das pessoas com 60 anos ou mais estavam na informalidade em 2024, índice maior que a média nacional.
Ainda assim, sinais recentes indicam que a contratação de profissionais mais experientes começa a ganhar tração em setores com alta rotatividade. Um levantamento baseado no Novo Caged e divulgado pela Agência Brasil mostra aumento gradual da participação de pessoas com mais de 50 anos nas admissões de comércio e serviços em São Paulo ao longo de 2025.
Esse é o ponto em que a discussão deixa de ser “se” e passa a ser “como”. Para empresas, profissionais 50+ e 60+ combinam experiência, repertório de atendimento e previsibilidade de rotina, em um momento em que o custo do giro de equipes pesa no caixa e no desempenho. Para quem está do outro lado, o desafio é transformar longevidade em renda com alguma estabilidade, e não apenas em ocupações intermitentes.
Também entra na pauta um tema menos visível: o primeiro emprego formal nessa fase da vida. Ele aparece, com frequência, em trajetórias de pessoas que passaram anos na informalidade ou ficaram longos períodos fora do mercado por razões familiares ou de saúde. Em setores com alta demanda por mão de obra, como comércio e serviços, essa porta de entrada tende a ser mais acessível, como sugerem os recortes recentes do Caged.
É nesse espaço que iniciativas de qualificação tentam encurtar a distância entre trajetórias e exigências atuais do mercado, incluindo competências digitais e preparação para processos seletivos. Em Belo Horizonte, a Rede Cidadã desenvolveu a Trilha de Desenvolvimento 60+, com 18 meses de execução e meta de formar 210 participantes com 60 anos ou mais, com acolhida (16 horas) e formação socioemocional (40 horas) presenciais, além de oficinas temáticas sobre competências digitais, competências empreendedoras e mundo do trabalho para pessoa 60+, conforme o Plano de Trabalho do projeto, datado de 14 de novembro de 2024. Ao fim do percurso, o plano encaminhou 80 participantes com pelo menos 65% de frequência para oportunidades, com acompanhamento do processo de adaptação junto ao RH das empresas.
Um dos participantes dessa trilha de desenvolvimento profissional é o Carlos Antonio, 65. Para ele, o projeto preenche uma lacuna de atualização: "O que me levou a procurar o projeto são fatores que o mundo contemporâneo exige, como a socialização, o domínio da informática e o uso correto das redes sociais", explica. Com histórico de crescimento de empregos formais para pessoas mais experientes, Carlos acredita que a idade traz um diferencial competitivo para as empresas. "Quem chega aos 60 anos tem muito a ensinar aos mais jovens, não só conhecimento profissional, mas boas maneiras e educação. Quero conhecer novos ramos e aprender o que o mercado atual exige em inovação e tecnologia".
Para Fernando Alves, Diretor Executivo da Rede Cidadã, “a recolocação depois dos 50+ não é só técnica. Envolve confiança, comunicação, lidar com mudanças e reconstruir o projeto de vida. A formação socioemocional entra quando ajuda a traduzir a trajetória em competência atual, sustenta a permanência no trabalho e fortalece a pessoa para se posicionar. E, quando falamos de emprego nessa etapa, esse preparo faz diferença para reduzir a insegurança, dar autonomia e aumentar a chance de recomeçar e permanecer no emprego”.
Para a fotógrafa Rosauria Lobato, 64, a formação foi o divisor de águas para encarar as mudanças do mercado, hoje impactado pela inteligência artificial. "A formação me fez pensar que posso trabalhar em outras áreas. Eu já tinha confiança, mas hoje ela está bem maior. É uma oportunidade para mostrar que ainda sou capaz e isso é muito bom para a autoestima", relata. Rosauria destaca a riqueza da convivência com diferentes faixas etárias: "Tivemos contato com jovens e houve uma troca muito grande; tanto pude ensinar quanto aprender".
Outro projeto, também em Belo Horizonte, é o Rede Sênior +Família, com seis meses de capacitações presenciais voltadas a 30 participantes com 60 anos ou mais e 30 familiares, com acolhida, construção de Plano de Desenvolvimento Individual e 40 horas de formação socioemocional, de acordo com o Plano de Trabalho do projeto. A meta é encaminhar 30 participantes formados para inclusão no mundo do trabalho.
O avanço do emprego acima dos 60, não conta uma história única. Ele mistura permanência por escolha, necessidade de complementar renda, reinvenção profissional e entrada tardia no emprego formal. Há mais gente acima de 60 trabalhando. O próximo capítulo depende de como empresas, políticas públicas e redes de qualificação podem reduzir filtros de idade, simplificar a atualização prática e ampliar oportunidades.
Quer saber como participar? Visite o Instagram da Rede Cidadã e inscreva-se na Trilha de Desenvolvimento 60+.