DIPLOMACIA INTERNACIONAL

Paquistão atua como mediador entre EUA e Irã, mas tem interesses próprios na paz

Especialista analisa tradição diplomática do Paquistão, contradições internas e interesses econômicos e políticos do país ao intermediar conversas entre Teerã e Washington.

Por Sputinik Brasil Publicado em 30/03/2026 às 17:00
Paquistão busca mediar negociações entre Estados Unidos e Irã, visando interesses diplomáticos e econômicos próprios. © AP Photo / Amr Nabil

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, um especialista analisa a tradição diplomática de Islamabad, as contradições do governo paquistanês e o real papel do país na intermediação entre Irã e Estados Unidos.

No último domingo (29), o ministro das Relações Exteriores do Paquistão, Ishaq Dar, afirmou que negociações entre EUA e Irã podem ocorrer em Islamabad nos próximos dias, iniciativa que teria apoio da China.

Embora possa causar surpresa que o Paquistão seja o palco dessas conversas — e não países tradicionalmente neutros como Turquia, Suíça ou Omã, que têm sediado diálogos de alto nível — Islamabad possui histórico diplomático relevante e interesses próprios na estabilidade do Oriente Médio.

João Nicolini, professor do King's Brazil Institute, explica ao podcast Mundioka que o Paquistão conquistou "legitimidade diplomática" durante a Guerra Fria, quando sediou negociações envolvendo China, Estados Unidos e União Soviética. Esse histórico de diálogo também se estendeu a tratativas entre norte-americanos e o Talibã, visando a retirada das tropas do Afeganistão.

Apesar desse passado, Nicolini ressalta que o país enfrenta tensões com vizinhos como Afeganistão e Índia, além de lidar com elevados índices de violência interna.

"Em termos de legitimidade e capacidade, o Paquistão não é visto pela comunidade internacional como uma Suíça ou Noruega, países reconhecidos pela neutralidade e pela oferta de soluções diplomáticas."

O analista destaca ainda que Islamabad possui interesses financeiros na promoção da paz regional. Uma expressiva migração de paquistaneses para países como Catar e Emirados Árabes Unidos resulta no envio de remessas em dólares para suas famílias no Paquistão, o que é fundamental para a economia local.

"Não é uma população que vive nas melhores condições do mundo, mas desempenha papel importante ao enviar recursos para o país."

Outro fator sensível para Islamabad é a dependência do petróleo importado do Oriente Médio, que abastece cerca de 30% das usinas termoelétricas do país. Elevações no preço da commodity impactam a inflação e podem desencadear protestos civis.

Por que o Paquistão?

Islamabad reúne razões políticas, diplomáticas e econômicas para receber as negociações e tem interesse direto no sucesso das conversas entre Teerã e Washington. Já Estados Unidos e Irã, por sua vez, aceitam dialogar onde é possível.

Segundo Nicolini, países como Catar e Omã, tradicionalmente anfitriões de negociações, estão envolvidos no conflito após ataques iranianos a pontos estratégicos em seus territórios, que abrigam bases dos EUA. Teerã, por outro lado, evita negociar em território europeu, considerado inclinado aos interesses norte-americanos.

Para o especialista, o Paquistão não terá influência decisiva no resultado das conversas.

"O Paquistão não tem capacidade de ser o provedor de paz. Atuará mais como canal de comunicação, a exemplo do papel exercido pelo Catar nas negociações entre Talibã e americanos, reunindo diplomatas e facilitando o diálogo para buscar um consenso e resolver a crise diplomática."

Ainda que o papel de Islamabad seja limitado, Nicolini observa que a promoção do diálogo já traz resultados concretos.

"Israel, por exemplo, supostamente tinha uma lista de alvos com autoridades iranianas e, por meio do Paquistão, os americanos pediram para Israel retirar essas pessoas da lista. Assim, o Paquistão já contribui para reduzir a animosidade entre países envolvidos no conflito."