Escalada de preços por guerra no Oriente Médio chega ao Brasil no 2º semestre, diz economista
Os efeitos do conflito no Irã podem impactar os preços de alimentos, seja no custo do frete e do transporte de commodities, seja nos insumos para a agricultura, e influenciar a disputa presidencial nas eleições de 2026 no Brasil.
Após um mês de conflito envolvendo o Irã, os efeitos da instabilidade no Oriente Médio já começam a se espalhar pela economia global — e começam a chegar ao bolso do consumidor brasileiro. A escalada das tensões elevou as cotações internacionais do petróleo, pressionando o preço do diesel no Brasil e encarecendo o transporte de mercadorias.
Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o frete rodoviário do setor já registra alta de até 20%, um impacto relevante em um país onde cerca de 65% das cargas são escoadas por rodovias. Em nota, a entidade não descarta o repasse desses custos ao consumidor final nos próximos dias.
O encarecimento logístico atinge diretamente a cadeia de produção de proteínas animais, altamente dependente do transporte contínuo de insumos, como milho e farelo de soja — que podem representar até 70% do custo de produção de aves e suínos. Com isso, produtos que vinham apresentando alívio no início de 2026, como os ovos, já começam a reverter a trajetória de queda.
Dados do último IPCA mostram que, apesar de os ovos ainda acumularem recuo de 10,79% em 12 meses, houve uma inflação de 4,55% em fevereiro. Parte desse avanço é explicada pelo aumento da demanda durante a Quaresma, período em que há substituição da carne vermelha por outras proteínas, especialmente às vésperas da Sexta-Feira Santa.
O Brasil, maior exportador mundial de carne de frango e um dos principais produtores globais de proteína animal, sente os impactos ao longo de toda a cadeia, do campo ao varejo. Em fevereiro, a carne suína registrou queda de 1,21% no mês e de 1,62% no acumulado de 12 meses, enquanto a carne de frango recuou 0,29% — movimentos que podem ser revertidos caso a pressão de custos persista.
Além do impacto direto dos combustíveis, o conflito pressiona outros elos estratégicos da economia. Fertilizantes, plásticos e insumos industriais — muitos dependentes do petróleo ou de rotas logísticas sensíveis — já apresentam sinais de encarecimento. Esse movimento amplia o risco de um efeito inflacionário mais disseminado, atingindo não apenas alimentos, mas também medicamentos, eletrônicos e bens de consumo diversos.
Para mitigar os efeitos da guerra — somados às tarifas comerciais ainda vigentes impostas pelos Estados Unidos —, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou uma medida provisória que cria linhas de crédito de R$ 15 bilhões no âmbito do Plano Brasil Soberano. A iniciativa busca apoiar exportadoras e empresas estratégicas para o balanço comercial afetadas pelo cenário externo.
Na avaliação de Vinícius Vieira, professor de economia e relações internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), as medidas são insuficientes para conter a pressão inflacionária. "O Brasil precisa mobilizar a Petrobras para segurar o preço do petróleo", afirma.
Ele defende ainda, no médio prazo, a reestatização da BR Distribuidora, hoje Vibra Energia, privatizada em 2021 após processo iniciado no governo Jair Bolsonaro.
Vieira lembra que a Petrobras estuda retornar ao mercado de distribuição, mas uma cláusula contratual impede essa movimentação até 2029. O professor ainda alerta sobre o risco de novas privatizações, como a da Transpetro, classificando a possibilidade como "um erro estratégico". A Transpetro é outra subsidiária da Petrobras, maior empresa de transporte e logística de combustíveis na América Latina.
Apesar das medidas voltadas ao agronegócio, Vieira destaca a necessidade de maior apoio a pequenos produtores, especialmente no acesso a fertilizantes. "O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome", afirma. Desse total, aproximadamente 70% vêm da Rússia e de Belarus. No caso do Irã, a participação varia entre 17% e 30%, principalmente no fornecimento de ureia.
Embora menos central que outros fornecedores, o Oriente Médio tem peso relevante: em 2025, Irã e Omã responderam por 18,4% das importações brasileiras de fertilizantes. Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a região concentra cerca de 30% do comércio global desses insumos, o que influencia tanto os preços quanto a disponibilidade no mercado internacional.
Para atenuar os efeitos causados pelo conflito, o Ministério da Agricultura e Pecuária negociou com a Turquia a passagem de cargas brasileiras pelo país, a fim de manter o fluxo de exportações agropecuárias sem precisar usar o estreito de Ormuz, travado pelo Irã em decorrência da guerra. Embora entraves na legislação turca compliquem esse trajeto, Brasília e Ancara acertaram um modelo de certificação que permite o trânsito e até o armazenamento temporário dessas mercadorias em território turco antes do embarque final.
Diante desse cenário, os impactos tendem a ser indiretos, mas significativos, sobretudo em um país altamente dependente de importações de fertilizantes. Vieira alerta que a inflação de alimentos deve ganhar força caso o conflito se prolongue, com possíveis reflexos políticos.
A mediana do relatório Focus, do Banco Central, divulgado nesta segunda-feira (30), elevou a projeção do IPCA para 2026 pela terceira semana consecutiva, de 4,17% para 4,31% — há um mês, estava em 3,91%.
"O problema para o governo é grave, pois os aumentos devem ser sentidos sobretudo no segundo semestre. Alimentos tendem a ficar mais escassos, gerando descontentamento entre os eleitores."