ECONOMIA

Escalada de preços por guerra no Oriente Médio chega ao Brasil no 2º semestre, diz economista

Por Sputinik Brasil Publicado em 30/03/2026 às 19:00
© Folhapress / Ricardo Benichio

Os efeitos do conflito no Irã podem impactar os preços de alimentos, seja no custo do frete e do transporte de commodities, seja nos insumos para a agricultura, e influenciar a disputa presidencial nas eleições de 2026 no Brasil.

Após um mês de conflito envolvendo o Irã, os efeitos da instabilidade no Oriente Médio já começam a se espalhar pela economia global — e começam a chegar ao bolso do consumidor brasileiro. A escalada das tensões elevou as cotações internacionais do petróleo, pressionando o preço do diesel no Brasil e encarecendo o transporte de mercadorias.

Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o frete rodoviário do setor já registra alta de até 20%, um impacto relevante em um país onde cerca de 65% das cargas são escoadas por rodovias. Em nota, a entidade não descarta o repasse desses custos ao consumidor final nos próximos dias.

O encarecimento logístico atinge diretamente a cadeia de produção de proteínas animais, altamente dependente do transporte contínuo de insumos, como milho e farelo de soja — que podem representar até 70% do custo de produção de aves e suínos. Com isso, produtos que vinham apresentando alívio no início de 2026, como os ovos, já começam a reverter a trajetória de queda.

Dados do último IPCA mostram que, apesar de os ovos ainda acumularem recuo de 10,79% em 12 meses, houve uma inflação de 4,55% em fevereiro. Parte desse avanço é explicada pelo aumento da demanda durante a Quaresma, período em que há substituição da carne vermelha por outras proteínas, especialmente às vésperas da Sexta-Feira Santa.

O Brasil, maior exportador mundial de carne de frango e um dos principais produtores globais de proteína animal, sente os impactos ao longo de toda a cadeia, do campo ao varejo. Em fevereiro, a carne suína registrou queda de 1,21% no mês e de 1,62% no acumulado de 12 meses, enquanto a carne de frango recuou 0,29% — movimentos que podem ser revertidos caso a pressão de custos persista.

Além do impacto direto dos combustíveis, o conflito pressiona outros elos estratégicos da economia. Fertilizantes, plásticos e insumos industriais — muitos dependentes do petróleo ou de rotas logísticas sensíveis — já apresentam sinais de encarecimento. Esse movimento amplia o risco de um efeito inflacionário mais disseminado, atingindo não apenas alimentos, mas também medicamentos, eletrônicos e bens de consumo diversos.

Para mitigar os efeitos da guerra — somados às tarifas comerciais ainda vigentes impostas pelos Estados Unidos —, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou uma medida provisória que cria linhas de crédito de R$ 15 bilhões no âmbito do Plano Brasil Soberano. A iniciativa busca apoiar exportadoras e empresas estratégicas para o balanço comercial afetadas pelo cenário externo.

Na avaliação de Vinícius Vieira, professor de economia e relações internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), as medidas são insuficientes para conter a pressão inflacionária. "O Brasil precisa mobilizar a Petrobras para segurar o preço do petróleo", afirma.

Ele defende ainda, no médio prazo, a reestatização da BR Distribuidora, hoje Vibra Energia, privatizada em 2021 após processo iniciado no governo Jair Bolsonaro.

Vieira lembra que a Petrobras estuda retornar ao mercado de distribuição, mas uma cláusula contratual impede essa movimentação até 2029. O professor ainda alerta sobre o risco de novas privatizações, como a da Transpetro, classificando a possibilidade como "um erro estratégico". A Transpetro é outra subsidiária da Petrobras, maior empresa de transporte e logística de combustíveis na América Latina.

Apesar das medidas voltadas ao agronegócio, Vieira destaca a necessidade de maior apoio a pequenos produtores, especialmente no acesso a fertilizantes. "O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome", afirma. Desse total, aproximadamente 70% vêm da Rússia e de Belarus. No caso do Irã, a participação varia entre 17% e 30%, principalmente no fornecimento de ureia.

Embora menos central que outros fornecedores, o Oriente Médio tem peso relevante: em 2025, Irã e Omã responderam por 18,4% das importações brasileiras de fertilizantes. Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a região concentra cerca de 30% do comércio global desses insumos, o que influencia tanto os preços quanto a disponibilidade no mercado internacional.

Para atenuar os efeitos causados pelo conflito, o Ministério da Agricultura e Pecuária negociou com a Turquia a passagem de cargas brasileiras pelo país, a fim de manter o fluxo de exportações agropecuárias sem precisar usar o estreito de Ormuz, travado pelo Irã em decorrência da guerra. Embora entraves na legislação turca compliquem esse trajeto, Brasília e Ancara acertaram um modelo de certificação que permite o trânsito e até o armazenamento temporário dessas mercadorias em território turco antes do embarque final.

Diante desse cenário, os impactos tendem a ser indiretos, mas significativos, sobretudo em um país altamente dependente de importações de fertilizantes. Vieira alerta que a inflação de alimentos deve ganhar força caso o conflito se prolongue, com possíveis reflexos políticos.

A mediana do relatório Focus, do Banco Central, divulgado nesta segunda-feira (30), elevou a projeção do IPCA para 2026 pela terceira semana consecutiva, de 4,17% para 4,31% — há um mês, estava em 3,91%.

"O problema para o governo é grave, pois os aumentos devem ser sentidos sobretudo no segundo semestre. Alimentos tendem a ficar mais escassos, gerando descontentamento entre os eleitores."