ENERGIA

Tecnologia pode reduzir impacto de apagões no Brasil, aponta especialista

Falta de integração entre sistemas e baixa visibilidade da rede estão entre os principais desafios das concessionárias, segundo executivo da MagikDev

Por Assessoria Publicado em 30/03/2026 às 16:12

A crescente ocorrência de interrupções no fornecimento de energia no Brasil, muitas vezes associadas a eventos climáticos extremos, tem exposto um problema estrutural no setor elétrico: a falta de visibilidade e integração de dados nas redes de distribuição. A avaliação é de Walter Cherfem, CIO da MagikDev, consultoria especializada em soluções geoespaciais para concessionárias de serviços essenciais.

Segundo o especialista, embora fatores como tempestades e ventos intensos impactem diretamente a infraestrutura, a dificuldade das concessionárias em acessar e integrar informações críticas da rede contribui para o aumento do tempo de resposta às falhas. “Quando a concessionária não tem uma visão completa da rede, como onde estão os ativos, qual o estado de cada componente e como tudo se comporta, ela acaba operando de forma reativa”, afirma. “Isso significa responder à crise depois que ela acontece, e não atuar de forma preventiva.”

De acordo com Cherfem, um dos principais entraves está na fragmentação dos sistemas utilizados pelas empresas do setor. Plataformas como GIS (sistemas de informação geográfica), ADMS (gestão da distribuição), ERP e ferramentas de monitoramento frequentemente operam de forma isolada, criando silos de informação. “Esses sistemas não conversam bem entre si, e isso atrasa a tomada de decisão. No fim, o impacto aparece no tempo de interrupção para o consumidor”, diz.

Nesse contexto, tecnologias como sistemas geoespaciais e análise de dados têm papel central. O GIS, por exemplo, permite mapear com precisão todos os ativos da rede, como postes, transformadores e cabos, e entender como eles se conectam. “Quando você combina esse tipo de sistema com monitoramento em tempo real e análise de dados, a concessionária consegue identificar anomalias antes que virem falhas, priorizar melhor o atendimento e reduzir o tempo de resposta”, explica Cherfem.

O avanço da inteligência artificial também amplia essas possibilidades, desde que apoiado por uma base de dados estruturada. Segundo o especialista, a IA permite identificar padrões, prever falhas e otimizar a alocação de recursos durante eventos críticos. “Ela não substitui o profissional. Ela amplia a capacidade de tomar decisões mais rápidas e informadas, especialmente em momentos de crise”, afirma.

Experiências internacionais reforçam esse cenário. Em mercados como Canadá e Estados Unidos, onde a MagikDev atua em projetos com grandes concessionárias, a gestão da rede é fortemente baseada em dados integrados. Cherfem explica que nesses mercados o GIS é o coração da operação, os sistemas são conectados e as decisões são tomadas com base em informações altamente confiáveis e totalmente integradas.

Para ele, o Brasil possui profissionais qualificados e potencial técnico, mas ainda enfrenta desafios relacionados à cultura organizacional, integração de sistemas e investimento. “O custo de não investir em tecnologia muitas vezes é maior do que o investimento em si. Cada hora de interrupção gera perdas financeiras, multas e impacto na experiência do consumidor”, afirma.

Na avaliação do executivo, a tecnologia necessária para melhorar a gestão das redes já está disponível. O avanço depende apenas da capacidade das concessionárias de integrar sistemas, estruturar dados e adotar uma abordagem mais estratégica baseada em informação.