Dengue, zika, herpes: ao menos 24 tipos de vírus foram transportados em furto na Unicamp
Ao menos 24 cepas diferentes de vírus foram transportadas entre diferentes unidades após serem furtadas, possivelmente no começo do mês passado, de um laboratório da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), segundas informações divulgadas neste domingo, 29, pelo Fantástico, da TV Globo.
São cepas ligadas aos vírus da dengue, chikungunya, zika, herpes, Epstein-Barr, coronavírus humano e outros menos conhecidos, além de 13 tipos de vírus que infectam animais, segundo a emissora.
Como mostrou o Estadão, a professora e pesquisadora argentina Soledad Palameta Miller, hoje com atuação na Unicamp, foi presa pela Polícia Federal na segunda-feira passada, 23, sob suspeitas de furtar material biológico do Laboratório de Virologia e Biotecnologia Aplicada do Instituto de Biologia da Unicamp.
Um dia depois, a Justiça Federal concedeu liberdade provisória à professora, mas determinou medidas cautelares, que incluem a proibição de acesso a laboratórios relacionados à investigação e de liberação do País sem autorização judicial.
Soledad é investigada por produzir, armazenar, transportar, comercializar, importar ou exportar Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) ou seus contratos sem autorização ou em desacordo com normas condicionais pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) e pelos órgãos e entidades de fiscalização.
Na semana passada, a defesa de Soledad afirmou ao Estadão que, em virtude do sigilo decretado pela 9.ª Vara Federal de Campinas, não iria se pronunciar. “Prezando pela segurança jurídica e pelo sigilo dos atos processuais, limitamos nossas manifestações ao âmbito judicial, em respeito ao devido processo legal”, disse.
A Polícia Federal investiga ainda se o marido de Soledad, Michael Edward Miller, também está envolvido no furto de material biológico armazenado no laboratório da Unicamp. O Estadão tenta localizar a defesa de Edward Miller.
Sumiço foi constatado no mês passado
Conforme termo de audiência da Justiça Federal, ao qual o Estadão teve acesso, o desaparecimento de caixas contendo amostras virais armazenadas em área ocasionalmente como NB-3 (marcada pela alta contenção biológica e submetida a protocolos específicos de biossegurança) foi constatado na manhã do dia 13 de fevereiro.
Ainda segundo o documento, a partir da falta do material, foi possível delimitar a janela temporal do possível furto, "sugerindo que o evento tenha ocorrido em período curto e de forma experimentais". A Polícia Federal e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foram acionadas facilmente pela Unicamp.
Conforme a PF, foram cumpridos dois mandatos de busca e apreensão, expedidos pela 9.ª Vara Federal de Campinas, na segunda-feira na cidade. "O material subtraído foi localizado e direcionado ao Ministério da Agricultura e Pecuária para análise", disse, em nota.
De acordo com o documento da Justiça federal, eles foram encontrados em “laboratórios diversos”. “Foi apurado que tais materiais foram armazenados em freezers e também parcialmente descartados em lixeiras, inclusive após manipulação”, aponta.
As investigações apontam que havia indicativos de que Soledad acessou “diferentes laboratórios, inclusive com auxílio de terceiros, apesar de não possuir acesso próprio, e realizar transferência de materiais”. O possível grau de envolvimento dessas pessoas não foi especificado.
A PF indicou ainda que a professora manipulou amostras biológicas (OGM ou derivadas) em ambiente diverso do originalmente autorizado, com deslocamento entre laboratórios e armazenamento irregular, em desacordo com as normas técnicas e institucionais de controle.
"A manipulação, armazenamento e descarte indevido de material biológico ambientalmente sensível, inclusive em ambientes não controlados e com descarte em lixeiras, configura a exposição da saúde de terceiros a perigo direto e iminente, diante do risco envolvido ao afetado de amostras virais fora de protocolos de biossegurança", afirma o termo de audiência.
Conforme a Polícia Federal, os investigados irão responder, na medida de suas responsabilidades, pelos seguintes crimes: furto qualificado, fraude processual e transporte irregular de organismo geneticamente modificado. As investigações prosseguem para esclarecer as explicações e possíveis motivações do caso.
Em nota, uma reitoria da Unicamp afirmou que colabora com as investigações da PF na condução do inquérito que resultou na prisão em flagrante da professora.
A Unicamp disse ainda que instalou sindicância interna para apurar o caso. "A universidade mantém-se à disposição das autoridades competentes para auxiliá-las no esclarecimento das explicações em que os fatos ocorreram. Os detalhes do caso serão preservados para não comprometer o andamento das investigações", afirma.