ECONOMIA

Guerra expõe risco energético do Brasil, diz ex-chefe da Petrobras

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Publicado em 28/03/2026 às 10:00

A guerra no Irã e o novo choque do petróleo em meio ao fechamento do Estreito de Ormuz expõe a insegurança energética do Brasil, que interrompeu o projeto de ampliação do refino no país em meio à operação Lava Jato e à pressão das multinacionais do petróleo.

Essa é a avaliação do ex-presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli , que lançou, nesta semana, o livro Economia do Hidrogênio: paradigma energético do futuro , sobre as perspectivas do uso do hidrogênio na transição energética. A obra foi editada pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).

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Em entrevista à Agência Brasil , Gabrielli destacou que os Estados Unidos (EUA) tentam interferir no mercado mundial do petróleo por meio das intervenções na Venezuela e no Irã; que a guerra vai alterar a geografia desse comércio com provável maior participação do Brasil, Canadá e Guiana na oferta de petróleo bruto para China e Índia.

Porém, sem capacidade de refino para atender a demanda interna, em especial o diesel, o Brasil estaria exposto às turbulências do período atual. O ex-presidente da Petrobras ainda comentou sobre o papel das importadoras de combustíveis no Brasil e o impacto da guerra para a transição energética. Confira a entrevista abaixo:

Agência Brasil: Quais são os efeitos da guerra no Irã para o comércio global de petróleo e gás?

Sergio Gabrielli: Tio dois grandes choques em 1973 e 1979 [momentos de turbulências políticas no Oriente Médio que levaram a altas do preço do barril e sacudiram a economia mundial ]. E agora estamos tendo um terceiro grande choque do petróleo que vai deixar efeitos estruturais, mudanças nas transações do petróleo, mas, mais ainda, no mercado de gás. Isso porque estamos tendo ataques às principais fontes produtoras de gás do mundo.

No mercado de petróleo, o efeito será um pouco mais suave no início, mas terá um impacto mais longo também. Isso porque, no Oriente Médio, estão sendo construídas como as principais novas refinarias do mundo, na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes Unidos e no Irã. E o destino principal do petróleo do Golfo Pérsico é a China e a Índia.

A política americana agressiva de Trump tem claramente um objetivo de controle do mercado de petróleo. Não é à toa que o primeiro país em que ele foi atuoso foi o sequestro absurdo do presidente da Venezuela, com a imposição de uma série de posições desenvolvidas aos EUA.

Isso se justifica porque há uma complementaridade entre o tipo de petróleo que a Venezuela tem e as refinarias norte-americanas, que são muito adaptadas a esse petróleo.

Por outro lado, o Irã é o segundo maior produtor do Oriente Médio, depois da Arábia Saudita. Mas o Irã tem um mercado próprio por causa das avaliações americanas. O petróleo do Irã alimenta muito a China e outras partes do mundo através de um mercado paralelo criado por causa das avaliações .

Com a guerra, evidentemente que essa exportação do Irã será alterada. Ao controlar o Estreito de Ormuz, o Irã muito sabiamente passou a permitir que apenas alguns passassem por lá, desde que paguem em yuans [moeda chinesa].

Isso revela a outra dimensão da crise relativa à utilização do dólar como unidade de negociação nesse mercado. Em suma, o mercado de petróleo vai mudar, tanto em relação ao dólar, quanto à redução do peso do Oriente Médio.

Agência Brasil: Esse era um objetivo de Trump?

Gabrielli: É, além, um dano colateral da guerra do Trump.

Agência Brasil: Qual é o objetivo dos EUA entrevirem agora no Irã?

Gabrielli: É tomar esse mercado paralelo ao que o Irã criou por fora das avaliações. Agora, há os outros três maiores produtores do mundo: Canadá, Guiana e Brasil. Esses três países são determinantes para a oferta nova que vem de petróleo em 2027. A previsão é que esses três países vão colocar 1,2 milhão de barris novos no mercado por dia.

Agência Brasil: Consequência da guerra?

Gabrielli: Independentemente da guerra, pela produção deles mesmo. Com a guerra, isso evidentemente vai ajudar a alterar o fornecimento para a China e a Índia, que têm capacidade de refino, mas não tem petróleo.

O petróleo que hoje é melhor se adaptar às maiores refinarias chinesas e ao brasileiro. O petróleo que se adapta às pequenas refinarias chinesas é o canadense.

Isso vai mudar a relação entre Canadá, Brasil e China do ponto de vista do petróleo. Aumentar a presença do Brasil na China, que já é grande. O Brasil é o terceiro maior exportador de petróleo para a China.

 

Ipojuca (PE) 11/01/2024 – As unidades de hidrotratamento de nafta e de geração de hidrogênio da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), da Petrobras, trabalham para reduzir os teores de enxofre e componentes instáveis ​​no combustível. O Trem 1 da RNEST vai passar por
Refinaria Abreu e Lima (RNEST), da Petrobras. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil 

 

Agência Brasil: Como é que o Brasil deve se posicionar nessa nova conjuntura?  

Gabrielli: O Brasil tem um problema de segurança energética. Não temos capacidade de refino para atender o mercado brasileiro de diesel, gasolina e gás de cozinha. A maior dependência nossa é do diesel, entre 20% e 30% do mercado brasileiro.

Para aumentar a segurança energética, tem que aumentar a capacidade de refino. O Brasil, a partir da Operação Lava Jato, inibiu a possibilidade de criação de novas refinarias. A Petrobras tinha planos de construir cinco refinarias, construídas uma. De 1980 a 2014, o Brasil não fez nenhuma refinaria nova. Em 2014, inaugurava uma refinaria de Pernambuco.

Teve ainda outra campanha histórica contra a capacidade de refino no Brasil, que vem desde 1911, quando começou a discussão no Brasil sobre o petróleo. Quem estava aqui em 1911 era a Exxon e a Shell.

Eles sempre controlaram a distribuição no Brasil e sempre foram colocados à expansão do refino brasileiro. Quando vem uma crise, fica evidente o significado da insegurança energética.

Mas, na crise, não dá para refinaria porque leva cinco anos para ficar pronto. A única solução de curto prazo, e que foram adotadas pelo governo , envolvimento de preços. 

Agência Brasil: Qual é o papel das importadoras de combustíveis?

Gabrielli: A partir do governo Temer, foram autorizados, se não me engano, quase 300 importadores de derivados do Brasil. As refinarias da Petrobras, nos governos Temer e Bolsonaro, reduziram a carga de refino para operar a 50% da capacidade.

Ao fazer isso, abriu-se espaço para o mercado de importadores. Quando chegou o governo Lula, em 2023, as refinarias voltaram a operar com até 93% da capacidade, o que já está no limite da capacidade. Mesmo assim, não consegue atender a demanda.

Já os importadores, que seriam os equilibrados do mercado, são claramente especulativos. Eles só importam quando o preço internacional é mais barato do que o preço nacional. É preciso aumentar o preço doméstico para especificar a importação.

Agência Brasil: Como é esse novo choque do petróleo afetando a transição energética?

Gabrielli: Não podemos prescindir do combustível fóssil nesse momento. Prescindir do combustível fóssil é a morte, vide o exemplo de Cuba, que está definido por estar impedido de receber petróleo.

Pensar que é possível fechar as refinarias, fechar a produção de petróleo imediatamente é uma loucura. Como os preços sobem, o efeito imediato é uma contração da demanda e há uma ocorrência por mais petróleo. Mas, no prazo médio, há uma mudança de comportamento. Dessa vez, a transição energética vai aumentar no longo prazo por conta desse novo choque.

Agência Brasil: O hidrogênio verde já é uma saída para o combustível fóssil, ou ainda não está no campo da promessa?

Gabrielli : Para que ele se viabilize é absolutamente necessário que se crie um novo mercado. Hoje, o grande consumidor de hidrogênio são as refinarias e as empresas de fertilizantes.

O hidrogênio vai viabilizar a descarbonização da indústria e do setor produtivo. Só tem sentido o hidrogênio verde crescer se nós descarbonizarmos a produção siderúrgica, o cimento, o transporte pesado, a aviação.

Como o hidrogênio é uma molécula muito difícil de transportar, a produção precisa estar junto ao consumo e concorrer com o biocombustível porque, a partir do hidrogênio, você pode produzir metanol e, a partir do metanol, você faz gasolina, diesel e querosene de aviação sem petróleo.

Agência Brasil: Mas já é viável fazer essa substituição de petróleo por hidrogênio verde?

Gabrielli: Só se você tiver uma política na demanda que leve a essa substituição. Em alguns lugares, isso já é viável hoje. Mas, no geral, a previsão dos analistas é de que o hidrogênio verde vai dominar o mercado de combustível por volta de 2035.

Agência Brasil: Não está tão longe.

Gabrielli: Pois é. Mas, para que isso aconteça em 2035, as decisões têm que começar a ser tomadas agora.