Pressão dos EUA empurra Cuba à mesa de negociações; Havana terá o mesmo destino de Caracas?
Após apertar o cerco contra Cuba, os Estados Unidos, debaixo de críticas feitas por outras nações, flexibilizou as sanções sobre a ilha e, agora, Havana e Washington negociam; o que isso representa no futuro da ilha caribenha?
O presidente do norte-americano, Donald Trump, assinou ao final de janeiro um decreto que permitiu aos Estados Unidos impor tarifas de importação sobre países que vendem ou fornecem petróleo a Cuba, sob justificativa de uma suposta ameaça à segurança nacional proveniente de Havana.
As hostilidades, provenientes do mesmo mês que o sequestro do presidente da Venezuela Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram alvo de manifestações em diferentes nações. Especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) declararam que o bloqueio norte-americano a Cuba violava o direito internacional, ao passo que países como México, Rússia, China e Irã seguiram colaborando com Cuba, mesmo diante do cenário de pressão dos EUA.
Sem o petróleo venezuelano, sua principal fonte, Cuba viveu dificuldades no abastecimento energético. Foram "seis grandes apagões desde então, já que o fornecimento do petróleo venezuelano para Cuba foi suspenso", disse Rafael Pinheiro de Araújo, professor de história da América da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ao podcast da Sputnik Brasil, Mundioka.
Ao final de fevereiro, no entanto, houve uma autorização para que empresas norte-americanas pudessem revender petróleo venezuelano a Cuba, enquanto há poucas semanas o presidente Miguel Díaz‑Canel que Havana e Washington negociam em busca de soluções para as divergência entre os dois países.
Para Araújo, embora tenha sido anunciada uma flexibilização ao bloqueio, Cuba perde um aliado importante para a sua resistência, uma vez que a Venezuela atravessa um momento de submissão ao governo norte-americano.
"Perder esse apoio tornou a situação de Cuba muito difícil. Cuba não conseguiu buscar uma alternativa" afirma.
Segundo o analista, as negociações entre os países ainda é incipiente, com poucas informações disponíveis, mas o ponto de vista de Washington, replicar o modelo adotado em Caracas seria o ideal.
"O modelo venezuelano é um modelo que os norte-americanos desejam em Cuba. Não tem como você desmontar uma estrutura de poder em Cuba da noite para o dia, construída depois da revolução, então ter algum tipo de acordo com o regime cubano, em uma transição que não gere grandes instabilidades políticas ou até um cenário de enfrentamento civil ou de algum tipo de demanda de uma intervenção militar. Enfim, é um modelo que aos norte-americanos tornam mais palatáveis porque evita, inclusive, a possibilidade de um fluxo migratório intenso para os EUA", analisa.
O cenário, inclusive, empurra Havana para as negociações, ainda que Cuba venha sendo resistente há décadas. Na ilha, cirurgias estão sendo adiadas e, quando realizadas, precisam acontecer sobre a luz de celulares, dada a instabilidade da energia elétrica.
A questão energética mexe com o cotidiano mais sensível da população cubana, o que acaba gerando insatisfações e revoltas internas. "Essa revolta é muito natural. Imagina você ficar sem água, ficar sem energia, ficar sem alimento. Ela não é culpa do governo cubano, é justamente desse embargo que não tem nenhuma justificativa", explica Ana Prestes, analista internacional e doutora em ciência política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A especialista ressalta, ainda, que em anos de bloqueio econômico, são os Estados Unidos que nunca foram adeptos a negociações e colocar Cuba como ameaça é algo incongruente.
"Como que uma ilha com 10 milhões de pessoas passando fome sem energia pode ser uma ameaça à maior potência do planeta, militar, econômica, com mais de 300 milhões de pessoas, um território enorme?", questiona
'Diplomacia da solidariedade'
Prestes destaca que Cuba fez toda sua política e diplomacia moldada a partir dos bloqueios econômicos que sufocam a ilha. O impasse levou o país a costurar variadas relações ao redor do mundo, sempre baseada em cordialidade e solidariedade.
"É um país que hoje goza de solidariedade, de apoio em todo o mundo, tanto é que ano após ano tem uma resolução que é votada na Assembleia Geral da ONU sobre o fim do bloqueio. Somente dois países, com pequeníssimas variações, mantém a votação contra a resolução pelo fim do bloqueio, Estados Unidos e Israel", aponta.
Perguntada se é possível imaginar como seria Cuba sem as limitações impostas, a analista descreve que o país seria uma potência em solidariedade.
"É um país de um povo muito educado, com alto nível de educação [...]; seria um país que daria uma enorme contribuição para muitos países do mundo, principalmente aqui para a nossa América Latina e Caribe, na área da saúde e na área da educação", afirma.
Cuba tem programas de formação consolidados, com programas de médicos e até de professores cubanos que são enviados a outros países. Além disso, o país, durante o contexto da pandemia da Covid 19, desenvolveu a própria vacina contra a doença.
Por Sputinik Brasil