INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Mesmo os jogos mais inocentes geram dados

Debate sobre Pokémon GO reacende discussão sobre como apps transformam interação em inteligência artificial

Por Assessoria Publicado em 24/03/2026 às 14:04
Mesmo os jogos mais inocentes geram dados

Recentemente está sendo propagado um tema que levantou uma provocação incômoda. E se, ao jogar, milhões de pessoas estivessem contribuindo, sem perceber, para a construção de sistemas de inteligência artificial em escala global? A narrativa, centrada no Pokémon GO, pode exagerar em alguns pontos, mas toca em uma discussão real e cada vez mais presente na economia digital.

Lançado em 2016 pela Niantic, o jogo se tornou um fenômeno global ao combinar geolocalização, realidade aumentada e interação com o espaço urbano. O que passou quase despercebido naquele momento foi o valor dos dados gerados pelos próprios usuários durante essa experiência. Fotos, localização, deslocamento e, mais recentemente, escaneamentos em 3D de ambientes passaram a alimentar um ecossistema que vai muito além do entretenimento.

Esse tipo de lógica não se limita ao jogo. Plataformas digitais funcionam, em grande parte, a partir de conteúdo gerado pelo usuário, o chamado UGC. Nos termos de uso, empresas costumam estabelecer licenças amplas para utilizar esses dados. Trata-se de uma prática comum e juridicamente respaldada. No caso da Niantic, documentos públicos mostram que conteúdos capturados dentro do aplicativo podem ser usados para aprimorar serviços e tecnologias de realidade aumentada.

Nos últimos meses, essa estratégia ficou ainda mais evidente. A Niantic anunciou a venda de sua divisão de jogos por cerca de US$ 3,5 bilhões e passou a direcionar esforços para inteligência artificial geoespacial, com foco no desenvolvimento de sistemas capazes de interpretar o mundo físico a partir de dados acumulados ao longo dos anos. Esse volume inclui mais de 48 bilhões de quilômetros percorridos por usuários em seus aplicativos, uma base que ajuda a alimentar tecnologias cada vez mais sofisticadas de leitura espacial.

O avanço acompanha uma transformação mais ampla da indústria. De acordo com a consultoria McKinsey & Company, mais de 55% das empresas já utilizam inteligência artificial em alguma etapa de suas operações, impulsionadas principalmente pela disponibilidade de dados e pela evolução dos modelos.

Para Nathan Ximenes, diretor criativo e estrategista de comunicação digital, fundador da NTX Group, o ponto central não está em um aplicativo específico, mas no modelo que ganhou força na última década. “Hoje, praticamente toda experiência digital também gera dados. Isso não significa, por si só, exploração, mas pede mais consciência. O usuário deixou de ser apenas consumidor e passou a participar ativamente da construção dessas tecnologias”, afirma.

A lógica por trás disso passa pela gamificação, que transforma tarefas em experiências envolventes. Aplicativos de mobilidade, redes sociais e plataformas baseadas em localização utilizam esse recurso para incentivar participação contínua. Em troca, oferecem conveniência, entretenimento ou sensação de pertencimento.

No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais trouxe limites importantes para esse tipo de prática, ao exigir transparência sobre coleta e uso de dados. Ainda assim, o desafio continua sendo tornar essa informação compreensível. Em muitos casos, o consentimento existe no papel, mas não necessariamente na percepção do usuário.

Para Lucas Paglia, a discussão não é apenas jurídica, mas também de comunicação. “A LGPD estabelece princípios importantes, como transparência e finalidade, mas ainda existe um distanciamento entre o que está escrito e o que o usuário de fato entende. Termos longos e técnicos acabam criando uma sensação de consentimento que nem sempre é plenamente informado”, explica.

Para Marco Giroto, fundador da SuperGeeks, rede de escolas de tecnologia especializada em competências para o futuro para crianças e adolescentes, o tema ganha ainda mais peso quando envolve as novas gerações. “Crianças e adolescentes já crescem interagindo com sistemas que coletam e processam dados o tempo todo. Mais do que usar tecnologia, é importante entender como ela funciona, quais dados estão sendo gerados e o que isso representa no futuro”, diz.

A inteligência artificial avança apoiada nesse tipo de informação. Ambientes físicos, padrões de comportamento e interações humanas se tornaram insumos valiosos para o desenvolvimento de novas soluções, especialmente em áreas como realidade aumentada, mobilidade e automação.

O caso do Pokémon GO ajuda a ilustrar essa transformação. Um jogo que começou como entretenimento acabou contribuindo para a construção de uma nova camada tecnológica, baseada na relação direta entre comportamento humano e dados.

No fim, a discussão não passa por abandonar essas plataformas, mas por compreender melhor o que está por trás delas. Em um ambiente em que dados se tornaram ativos estratégicos, usar tecnologia também significa, cada vez mais, participar da construção dela.