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O que a derrota eleitoral de Roosevelt em 1942 tem a ensinar aos republicanos?

Publicado em 23/03/2026 às 03:41
© AP Photo / anonymlous

Em 1942, o Partido Democrata sofreu uma derrota surpreendente nas eleições de meio de mandato devido à crise econômica que a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial causou em todo o país.

Após mais de três semanas desde o início de sua ofensiva militar conjunta com Israel contra Teerã, os sinais que começam a surgir em Washington — como aumento do tom das ameaças do presidente Donald Trump sobre o fechamento do estreito de Ormuz ou o silêncio chamativo do vice-presidente J. D. Vance — sugerem um clima de preocupação nos corredores da Casa Branca.

Apesar de a administração republicana — especialmente o secretário de Defesa, Pete Hegseth — manter uma retórica triunfalista, as posturas discretas do antes eloquente Vance, assim como o do secretário de Estado, Marco Rubio, indicam que a cúpula republicana está consciente dos potenciais custos eleitorais de uma guerra impopular no exterior.

"Se a guerra contra o Irã continuar, os republicanos não têm chance nas eleições de novembro", disse o especialista Juan Daniel Garay Saldaña, à Sputnik.

Um alerta para os republicanos?

Embora não seja incomum que partidos no poder sofram derrotas nas eleições de meio de mandato nos EUA, continuar a guerra contra o Irã faria com que os republicanos não tivessem chances de vencer nas eleições de novembro, afirmou Saldaña, que é mestre em estudos sobre México e Estados Unidos pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Os americanos "votam com o bolso", salientou ele.

"Uma situação como a que estamos vendo — e que pode piorar rapidamente nos próximos meses —, com o aumento do preço dos combustíveis nos EUA devido ao encarecimento do petróleo e seu impacto inflacionário, seria letal para os republicanos, que já se encontram em uma situação delicada por questões como o ICE", afirma.

Garay observou que o fato de o Pentágono ter apresentado a ofensiva militar contra o Irã como uma "incursão relâmpago" — à semelhança do ocorrido na Venezuela em 3 de janeiro, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores — e que, após três semanas, o conflito apenas continue a se intensificar, torna muito improvável que a guerra termine no curto prazo.

"Trump sempre foi muito habilidoso para vender temas ao eleitorado, mas defender uma economia mais cara e um gasto bilionário em uma guerra contra um país do outro lado do mundo é um desafio impossível até mesmo para um político tão habilidoso quanto ele", conclui.

Segundo ele, as eleições de meio de mandato de 1942, tem muitas semelhanças com o momento atal. Apesar do patriotismo desencadeado pelo ataque japonês a Pearl Harbor, o Partido Democrata de Franklin D. Roosevelt — presidente extremamente popular que estava em seu terceiro mandato — sofreu uma grande derrota nas urnas.

Isso ocorreu devido às dificuldades logísticas, ao racionamento e à inflação causados pela entrada dos EUA no conflito internacional, demonstrando que os eleitores punem a instabilidade interna, mesmo em meio a uma guerra que a maioria dos americanos apoiava.

O Partido Democrata manteve o controle de ambas as casas graças à ampla maioria obtida nas eleições anteriores, impulsionada pelo programa de assistência social conhecido como "New Deal", criado por Roosevelt para tirar o país da Grande Depressão. Ainda assim, o partido perdeu 45 cadeiras na Câmara dos Representantes e nove assentos no Senado.

A derrota surpreendeu Casa Branca e representou o maior revés de um partido governante na história dos EUA devido ao descontentamento da população com os "sacrifícios" que a guerra estava provocando.

Em 1942, o aumento do preço do petróleo fez a inflação nos EUA disparar para um recorde de 10,9%, situação que o governo tentou conter com um rígido controle de preços e o racionamento de bens básicos como carne e gasolina, provocando queda na economia e aumento do desemprego, afastando uma parcela significativa da base operária dos democratas.

Há ainda o passado recente da "Guerra ao Terror", iniciada por George W. Bush, e Israel — país que impulsiona o conflito contra o Irã — que a maioria do eleitorado condena após ofensiva militar em Gaza.

A história eleitoral dos EUA, para além da desconfiança em relação ao establishment gerada pela Guerra do Vietnã ou de como o intervencionismo no Oriente Médio no início dos anos 2000 acelerou o forte endividamento que ainda afeta as contas públicas do país.

O medo de crises econômicas vêm com a desestabilização de uma região que é o coração da indústria petrolífera global (48% das reservas e 31% da produção mundial).

Pesquisas de empresas como YouGov e de veículos tão diversos quanto CNN, Fox News e Reuters mostram que o apoio à nova ofensiva é baixo. Os números indicam que o respaldo popular não chega a 40%.

Da mesma forma, Claudia Veiroj, internacionalista formada pela Universidade da República Oriental do Uruguai (UDELAR), disse a este meio que, mesmo tendo conquistas para apresentar ao eleitorado — como a redução da migração ilegal e a queda da criminalidade —, os republicanos correm o risco, nas eleições legislativas de novembro, de repetir um cenário eleitoral como o de 1942 caso continuem as hostilidades contra o Irã.

Para a especialista, assim como Roosevelt confiou que suas políticas do New Deal e o nacionalismo em tempos de guerra lhe garantiriam a vitória nas eleições de 1942, apesar do mau cenário econômico, os republicanos podem sofrer um duro revés nas urnas por acreditarem na própria propaganda de que a operação contra o Irã é um sucesso.

"Se a atual administração não conseguir reduzir o preço dos combustíveis — que é um lembrete diário para os americanos de que a Casa Branca decidiu se envolver novamente no Oriente Médio —, a narrativa de 'America First' não terá sustentação nas eleições legislativas", acrescentou.

Por Sputinik Brasil