MUDANÇA NA LEGISLAÇÃO TRABALHISTA

Fim da jornada 6x1 pode impactar preços e salários no curto prazo, apontam especialistas

Especialistas avaliam que alteração na jornada de trabalho deve pressionar custos e influenciar inflação e salários inicialmente

Publicado em 22/03/2026 às 08:30
Fim da jornada 6x1 pode impactar preços e salários no curto prazo, apontam especialistas Reprodução

O fim da jornada de 6 dias de trabalho por 1 de folga, caso aprovado, deve provocar impacto nos preços relativos da economia, ao menos em um primeiro momento, avaliam especialistas consultados pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado. De imediato, os custos das empresas tendem a subir, uma vez que as horas trabalhadas serão reduzidas sem possibilidade de diminuição dos salários.

No médio prazo, segundo os especialistas, o mercado tende a se ajustar, com as empresas se adaptando à nova realidade, assim como ocorreu em 1988, quando a Constituição reduziu a jornada semanal de 48 para 44 horas.

A inflação, inicialmente, também pode subir, pois, segundo o sociólogo, professor e coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, Clemente Ganz Lúcio, com um dia extra de folga, o trabalhador tende a consumir mais.

Por outro lado, para atender ao aumento da demanda, o setor produtivo precisará elevar a produção, o que pode exigir a contratação de mais funcionários e impulsionar a economia. "O resultado será de um saldo positivo para a economia", defende Ganz Lúcio.

Daniel Teles Barbosa, sócio da Valor Investimentos, também prevê que o fim da jornada 6x1 alterará os preços relativos por meio de uma melhora inevitável na massa salarial. Setores que não podem interromper suas atividades aos fins de semana precisarão buscar reposição nos dias de folga dos funcionários ou pagar horas extras.

Segundo Barbosa, em um cenário de mercado de trabalho aquecido, com escassez de mão de obra e plataformas digitais oferecendo rendas mais atrativas, o setor formal deverá melhorar salários e benefícios para atrair trabalhadores informais para empregos com horários definidos e regras mais rígidas. "Um motorista de aplicativo hoje consegue movimentar entre R$ 6 mil e R$ 9 mil por mês", afirma Teles.

De acordo com Ganz Lúcio, haverá pressão sobre os custos das empresas, principalmente nas micro e pequenas, que dependem mais de mão de obra e têm menor capacidade de automatização e inovação.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) quantifica o impacto do fim da jornada 6x1 nos custos empresariais.

O efeito varia conforme o setor e o porte da empresa, indo de 0,5% a 6,5%. Empresas maiores e mais automatizadas sentirão menos pressão do que micro e pequenas.

Tendência mundial inevitável

Para Joseph Couri, presidente do Sindicato das Micro e Pequenas Indústrias do Estado de São Paulo (Simpi), a redução da jornada é uma tendência mundial, inevitável e positiva. Ele defende a melhoria da qualidade de vida do trabalhador, mas sugere que haja incentivos para que micro e pequenas empresas possam se automatizar.

Enquanto grandes associações consideram que o debate sobre o fim da jornada 6x1 não é adequado para um país com baixa produtividade e escassez de mão de obra, Couri argumenta que basta remunerar adequadamente para atrair trabalhadores.

Segundo ele, o impacto não será generalizado, pois muitas empresas já adotam jornadas de 40 horas semanais.

"Quanto menos mecanizado for o segmento, maior será o impacto do fim da jornada 6x1 sobre os custos. Quanto mais mecanizado, menor o impacto", avalia Couri, que defende contrapartidas para micro e pequenas empresas junto com a mudança.