Explosão de entradas da Venezuela altera recorde do turismo brasileiro, diz mídia
O fluxo de entradas vindas da Venezuela explodiu na fronteira com Roraima no último ano, inflando as estatísticas do turismo brasileiro em meio ao agravamento da crise humanitária no país vizinho e a tensões políticas após a captura de Nicolás Maduro por tropas dos EUA.
De acordo com apuração do UOL, o fluxo de pessoas na fronteira entre Santa Elena de Uairén, na Venezuela, e Pacaraima (RR) cresceu de forma explosiva em 2025 e acabou registrado oficialmente como turismo. A movimentação intensa antecedeu o fechamento temporário da fronteira em 3 de janeiro, após a invasão de tropas dos EUA para capturar Nicolás Maduro. Com a reabertura, o fluxo diminuiu, mas parte dos residentes venezuelanos que cruzavam diariamente inflou as estatísticas brasileiras.
Esse aumento ocorreu em meio ao agravamento da crise venezuelana, marcada por hiperinflação e desvalorização da moeda. O Brasil registrou, em 2025, o maior número de turistas da série histórica, impulsionado principalmente por visitantes de países latino-americanos. A Venezuela acompanhou essa tendência, enquanto o governo brasileiro celebrava o marco de 9 milhões de visitas e atribuía o recorde à recuperação da imagem do país no exterior.
A Argentina liderou as chegadas, representando 37% do total, com mais de 3,1 milhões de visitas entre janeiro e novembro. Houve também um pico de turistas dos EUA no início do governo Trump, reflexo de sua política anti-imigração, embora os números tenham se estabilizado depois. O Ministério do Turismo, porém, não separa estrangeiros de brasileiros residentes no exterior, o que dificulta a análise detalhada.
A fronteira com a Venezuela, principal porta de entrada desses visitantes, é monitorada pela Polícia Federal (PF), cujos dados abastecem as estatísticas oficiais. Entre janeiro e novembro de 2025, o Ministério do Turismo registrou 156 mil entradas vindas da Venezuela — salto expressivo em relação ao ano anterior. Roraima concentrou 60% dessas chegadas, todas por via terrestre. A série histórica mostra que o turismo venezuelano já havia sido alto entre 2013 e 2015, mas estava em queda até a recente explosão.
Apesar do aumento de entradas, o Banco Central não registra operações com o bolívar desde 2018, reflexo da crise econômica e humanitária que levou mais de 5,4 milhões de venezuelanos a deixarem o país, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). A prisão de Maduro após a invasão norte-americana agravou a instabilidade e levou ao fechamento temporário da fronteira, gerando preocupação em Roraima sobre possível colapso dos serviços públicos.
A análise de dados da PF mostra que o fluxo é desproporcional: há mais que o dobro de entradas do que saídas de venezuelanos. Enquanto o Ministério do Turismo aponta explosão de visitas, a PF registrou 97 mil entradas em 2024, sem salto equivalente. Especialistas explicam que muitos entram como turistas — modalidade com menos exigências — e depois solicitam residência ou refúgio.
Pesquisadores destacam que o Brasil funciona tanto como destino quanto como rota migratória. Muitos venezuelanos seguem para outros países após cruzar a fronteira, enquanto outros permanecem em busca de segurança e estabilidade. O Censo 2022 confirma que a Venezuela se tornou a principal origem de imigrantes no Brasil, e Roraima abriga hoje o maior centro humanitário da América Latina para refugiados e migrantes.