Analista: petróleo será o ponto de 'acordo em meio a tensões significativas' entre Venezuela e EUA
Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela, afirmou que "não há forasteiros" no comando do país, em mensagem à nação na qual reiterou que "governa junto com o povo" e enfatizou que, apesar da agressão dos EUA que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, o povo está ativo nas ruas.
A postura da presidente contrasta com o plano de três fases apresentado recentemente pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, para a Venezuela. "O primeiro passo é a estabilização do país", declarou ele, afirmando que, para alcançar esse objetivo, seu país "extrairá entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo" para vender a preço de mercado.
A segunda fase será a "recuperação", garantindo o acesso de Washington, do Ocidente e de outros países ao mercado venezuelano. Por fim, Rubio concluiu que "a terceira fase será de transição", assegurando que esse plano já havia sido explicado às autoridades venezuelanas.
Petróleo: o único ponto de diálogo possível
Em conversa com a Sputnik sobre o assunto, a antropóloga venezuelana Rosa Di Falco disse que as agendas de Washington e Caracas "são absolutamente antagônicas". Ela explicou que a estratégia atual dos EUA se baseia no conflito e em uma visão em que os países são tratados como empresas.
No entanto, Di Falco identifica um ponto de contato possível, ainda que complexo, imposto pela realidade material. "Acredito que a possibilidade, não de equilíbrio, mas de acordo em meio a tensões significativas, certamente girará em torno do petróleo, que é o único interesse real que une os dois governos", afirma.
A especialista ressalta que, além da retórica inicial de expropriação dos EUA após o bombardeio, a dinâmica atual aponta para negociações comerciais. Ela destaca que o governo venezuelano "sempre respeitou os acordos comerciais com os países compradores de petróleo, incluindo os Estados Unidos", e sublinha que o presidente Maduro tem reiterado consistentemente sua disposição para negociar.
Ainda assim, a antropóloga alerta que a equação não é simples. O mercado de petróleo venezuelano envolve uma variedade de atores globais com os quais já existem acordos. "Washington não pode decidir unilateralmente sobre o mercado venezuelano sem se sentar com as empresas", afirma ela.
Doutrina Monroe 'sem qualquer disfarce'
Por sua vez, a advogada internacional Adriana Castaño disse à Sputnik que as exigências de Washington demonstram a implementação de "uma nova versão da Doutrina Monroe, sem qualquer disfarce".
Castaño enfatizou que os EUA estão agindo sem respeito ao direito internacional, recorrendo puramente à força e à "intimidação internacional", amparados por seu poderio militar. "Estamos diante de uma agenda de apropriação forçada de petróleo", afirma ela.
Diante dessa ofensiva, ambas as especialistas concordam que as alianças multipolares da Venezuela, legado do ex-presidente Hugo Chávez, não vão se enfraquecer, mas sim se fortalecer.
Além do comércio, Di Falco destaca a importância de outras dimensões cultivadas pela diplomacia bolivariana: "diplomacia da paz, diplomacia popular, diplomacia cultural".
Ela observa que essas alianças também se alimentam do conhecimento e do desenvolvimento tecnológico, áreas que ganham relevância no atual "desafio anticolonial". Além disso, nota que a própria lógica de Washington está desmontando dicotomias tradicionais do Ocidente, inclusive o sistema bipartidário norte-americano, o que exige compreender a multipolaridade venezuelana dentro de um sistema global em transformação.
No entanto, Castaño se mostra pessimista quanto a uma resposta coordenada de defesa por parte da América Latina, apesar de "todos os esforços do Comandante Chávez para fortalecer as alianças regionais".
Oposição em redefinição
Quando questionadas sobre a situação interna e as forças que apoiam o governo, as analistas descrevem um cenário de mobilização e realinhamento no espectro político. Rosa Di Falco expressa surpresa com as posições assumidas por porta-vozes da direita venezuelana que não se alinham com a facção liderada por María Corina Machado e Leopoldo López.
Sobre a situação do país, Di Falco a descreve como de "calma ativa". "É um povo mobilizado. É um povo que tem saído às ruas desde 3 de janeiro, com ou sem transporte, caminhando dezenas de quilômetros. É um governo mobilizado que, por meio dessa mobilização, tem exigido consistentemente a libertação do presidente Maduro e da primeira-dama."
Adriana Castaño, por sua vez, enfatiza o elemento de resistência diante da agressão flagrante. Sua análise reforça a ideia de que, apesar da assimetria de poder militar, a disputa sobre a Venezuela está longe de terminar. Nesse sentido, ela aponta que fatores como a complexa rede de interesses petrolíferos globais e a solidez das alianças estratégicas não ocidentais introduzem variáveis cruciais que podem limitar os planos dos EUA.
Por Sputinik Brasil