ANÁLISE INTERNACIONAL

Ataque à Venezuela revela declínio da hegemonia dos EUA, avalia analista cubano

Especialista aponta que crise do petróleo e interesses estratégicos motivam ações dos EUA na Venezuela, ampliando riscos para toda a América Latina.

Publicado em 08/01/2026 às 04:25
Analista aponta que crise do petróleo intensifica ações dos EUA e ameaça estabilidade na Venezuela. © AP Photo / Mark Schiefelbein

Os Estados Unidos atravessam um processo de declínio de sua hegemonia global e enfrentam uma crise em suas reservas de petróleo, fatores que explicam os verdadeiros interesses de Washington em relação à Venezuela, segundo avaliação do analista político cubano Abel Enrique González Santamaría, em entrevista à Sputnik.

De acordo com Santamaría, o governo norte-americano já admite de forma aberta que seus objetivos na Venezuela envolvem o controle das reservas petrolíferas do país.

“Estamos em um ciclo de declínio da hegemonia norte-americana, e uma das opções deles, sempre que isso acontece, é a guerra, para desviar a atenção da crise interna”, destacou o analista.

Nesse contexto, Santamaría ressalta que, diante da crise nas reservas de petróleo, os Estados Unidos buscam garantir acesso imediato ao petróleo leve venezuelano.

O especialista considera preocupantes as recentes declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a intenção de controlar o petróleo venezuelano e intervir nos rumos políticos do país. Para ele, o risco não se restringe à Venezuela, mas se estende a toda a América Latina e ao Caribe.

Além disso, o cientista político alerta que a situação representa uma ameaça real para toda a região e até para o cenário internacional, já que os EUA não detêm mais a hegemonia unipolar das décadas passadas, e outras potências não estão dispostas a se submeter à sua influência.

Santamaría lembra ainda que a Venezuela já mantinha acordos com a empresa petrolífera norte-americana Chevron.

No entanto, segundo o analista, Trump busca agora “apropriar-se abertamente” de uma das maiores reservas mundiais de petróleo para “continuar construindo sua hegemonia global” e enfrentar outras potências que desafiam a liderança dos EUA.

O entrevistado destaca o papel estratégico do petróleo para a economia, transportes, tecnologia e armamentos. Após uma eventual intervenção armada, acrescenta, os EUA esperam obter “fácil acesso” não só ao petróleo venezuelano, mas também a outros recursos naturais do país.

Nessa linha, Santamaría avalia que a retórica sobre o combate ao tráfico de drogas e à atuação de cartéis serve apenas como justificativa para uma possível agressão militar. O objetivo real, afirma, seria redistribuir recursos diante do enfraquecimento da hegemonia norte-americana.

No dia 3 de janeiro, Donald Trump anunciou um ataque massivo à Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, por uma unidade de elite da Delta Force. O presidente norte-americano também divulgou uma foto que, segundo ele, mostraria Maduro a bordo de um navio dos EUA. A imprensa internacional noticiou explosões em Caracas e a morte de pelo menos 40 pessoas.

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia manifestou solidariedade à Venezuela, condenou a prisão de Maduro e de sua esposa, pediu a libertação imediata dos dois e alertou para o risco de uma escalada perigosa da crise.

Após o ataque, Trump declarou que Washington governará a Venezuela “até que seja possível realizar uma transição segura, adequada e razoável”.

Por Sputnik Brasil