VANTAGENS

Pragmatismo econômico sobre ideologia: o que a UEE pode oferecer ao Mercosul?

Publicado em 07/01/2026 às 17:41
© Sputnik / Dmitry Astakhov / Acessar o banco de imagens

Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas explicam quais vantagens a União Econômica Eurasiática pode proporcionar ao bloco sul-americano, que há duas décadas enfrenta dificuldades em assinar um acordo de livre comércio com a União Europeia e, neste momento, lida com instabilidades militares na região.

O termo multilateralismo foi um dos mais usados pelo presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, ao longo de 2025, em especial durante a Cúpula do BRICS e, em seguida, ao ver as exportações brasileiras serem tarifadas pelos Estados Unidos. Se a colaboração econômica e política plural é importante para Brasília, outros países e instituições também comungam dessa ideia.

Um desses grupos que partilham desse ideal do governo petista é a União Econômica Eurasiática (UEE), formada por Rússia, Armênia, Belarus, Cazaquistão e Quirguistão. O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou no último mês de dezembro que nações e mecanismos multilaterais querem trabalhar com a UEE, em uma rápida expansão de negócios do grupo, criado há pouco mais de dez anos.

Segundo Putin, um dos acordos encaminhados é com a Índia, parceira russa na fundação do BRICS e que conta com mais de 1,5 bilhão de pessoas. De acordo com o presidente russo, os países da UEE e Nova Deli trabalham em um tratado preferencial de comércio.

Também no fim de dezembro, o grupo eurasiático assinou um acordo de livre comércio com a Indonésia que abrange 95% da gama de produtos comercializados entre Moscou e Jacarta. Algumas tarifas serão eliminadas assim que o acordo entrar em vigor, e as demais serão eliminadas gradualmente ao longo dos próximos 15 anos.

O sucesso cada vez maior da UEE com países asiáticos pode se repetir na América do Sul, afirmam especialistas entrevistados pela Sputnik Brasil. Em um cenário de instabilidade militar na região e com entraves para um tratado de livre comércio com a União Europeia, o Mercosul pode estreitar laços com o grupo eurasiático.

Rodrigo Barros de Albuquerque, professor de relações internacionais da Universidade Federal do Sergipe (UFS), destaca que o capilarizado direito comunitário europeu é um impeditivo para que o bloco sul-americano alcance acordos com menor burocracia. Segundo o analista, a UEE apresenta como característica o pragmatismo econômico sobre a ideologia.

"Os acordos com a União Europeia quase sempre enfrentam muitos obstáculos burocráticos ou exigências políticas rígidas, devido ao muito capilarizado direito comunitário europeu. A União Econômica Eurasiática, por sua vez, tem se apresentado como uma plataforma mais focada em complementaridade econômica e soberania nacional, o que atrai nações que buscam desenvolvimento sem condicionalidades ideológicas. É a prevalência do pragmatismo econômico sobre a ideologia política."

O Dr. Johnny Silva Mendes, professor de economia e finanças na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e na Escola Superior de Engenharia e Gestão de São Paulo (ESEG), explica que uma menor burocracia da União Econômica Eurasiática em relação à União Europeia pode ser favorável para "movimentos estratégicos mais rápidos".

"A UEE opera com maior flexibilidade, abrindo espaço para acordos bilaterais ou setoriais mais ágeis, o que permite movimentos estratégicos mais rápidos. O desempenho recente do Brasil em 2025 — com crescimento das exportações mesmo em um contexto de forte pressão tarifária ao longo do ano — ilustra que essa lógica de diversificação já está em andamento, com redirecionamento de fluxos comerciais para mercados alternativos."

Silva Mendes explica que um dos grandes obstáculos para a conclusão do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, que já é discutido há duas décadas, é o lobby agrícola francês, que pressiona Paris contra a assinatura do tratado.

"Entre esses entraves, destaca-se a resistência de países como a França, onde o lobby do setor agrícola exerce forte influência sobre a política comercial, gerando oposição à abertura do mercado europeu a produtos agropecuários sul-americanos. Esse fator tem se mostrado recorrente e estrutural, independentemente de avanços técnicos nas negociações."

Países como o Brasil, que figuram entre os líderes agrícolas mundiais, podem ser um dos mais favorecidos em um eventual acordo UEE-Mercosul, explica o professor de economia, citando o mercado de fertilizantes eurasiático, comandado pela Rússia. O especialista destaca que "garantir acesso estável a esses insumos é um fator estratégico de competitividade e segurança alimentar" para países como Brasil, além de enfrentar menores barreiras regulamentares do que em negócios com a União Europeia.

"Acordos com a UEE costumam envolver menor condicionalidade ambiental, regulatória e institucional em comparação à União Europeia. Isso reduz custos de conformidade, acelera negociações e facilita a inserção de empresas médias e exportadores menos sofisticados, ampliando o acesso de micro, pequenas e médias empresas ao comércio internacional."

Além dos fertilizantes, Albuquerque cita como vantagens na parceria com a UEE "o acesso a rotas terrestres ligando a Ásia Central ao Sul Global, favorecendo sistemas logísticos; alternativas ao sistema SWIFT e redução da dependência da moeda americana; transferência de tecnologia em setores nos quais a Rússia é forte, como energia nuclear e aeroespacial".

Para o professor da UFS, a UEE oferece oportunidades estratégicas à Maioria Global para além das trocas comerciais, uma vez que os países do grupo estão em um importante ponto logístico, que une a Europa e a Ásia. O especialista destaca que apesar do agrupamento não reunir um grande número de nações, com a Rússia representando 80% da economia do bloco, o momento geopolítico mundial torna a parceria eurasiática-sul-americana vantajosa.

"Com o novo contexto do reavivamento da Doutrina Monroe pelos Estados Unidos na recente invasão da Venezuela e sequestro do seu presidente, Nicolás Maduro, [...] é mais importante ainda para o Mercosul firmar parcerias fortes e atrativas para outras potências terem interesse em garantir essas parcerias ao oferecer garantias de segurança para esses países."

Acordo com a EFTA pode virar exemplo para o Mercosul

No último mês de setembro, o Mercosul assinou um acordo de livre comércio com a Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA, na sigla em inglês), bloco integrado por Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça. O tratado entre os dois grupos cria um mercado de 290 milhões de consumidores, com um produto interno bruto de US$ 4,39 trilhões (R$ 23,6 trilhões).

Albuquerque conta que produtos industriais do Mercosul terão tarifas de exportação zeradas, com acesso preferencial para carnes, café, frutas, derivados de soja e milho por meio do mecanismo de cotas e redução tarifária. O especialista destaca que o acordo deve gerar ao Brasil um aumento de quase R$ 3 bilhões no PIB do país, além da atração de investimentos diretos de R$ 600 milhões em setores como tecnologia.

Apesar desses benefícios, o professor de relações internacionais lamenta o desinteresse de parte da mídia nacional pela parceria entre os blocos.

Já Silva Mendes entende que o acordo com a EFTA mostra, de fato, que o Mercosul está em busca de novos canais de comércio. No entanto, o bloco e o Brasil devem ter "cautela estratégica" e agir de maneira pragmática para evitar novos tarifaços, como o executado pelos Estados Unidos em meados de 2025.

"À medida que esses novos alinhamentos econômicos e políticos se consolidem, é plausível que haja uma reação mais assertiva por parte dos Estados Unidos, especialmente em relação a países considerados estratégicos na América Latina. Para o Mercosul — e em particular para o Brasil — isso pode significar maior pressão para limitar ou reavaliar relações com blocos como a UEE ou com países específicos desse arranjo."

A UEE, por sua vez, senta à mesa oferecendo importantes vantagens, como a participação na nova rota da seda, liderada pela China, e rotas de transporte de mercadorias que utilizam, por exemplo, o mar Cáspio e ajudam a fugir de gargalos tradicionais.

Outro ponto que Albuquerque destaca é o uso de moedas locais nas negociações dentro da UEE, que ultrapassam os 90%, mitigando variações provocadas por ações norte-americanas no âmbito econômico.

"O uso de moedas locais em transações intra-bloco, que na UEE já supera 90% no comércio interno, serve de modelo para outras nações, uma prática vista como uma estratégia crucial para proteger economias nacionais de sanções e da volatilidade do dólar americano, conferindo maior soberania econômica aos países participantes."

Para o especialista, uma convergência da UEE com o BRICS criaria "um bloco econômico com um peso inédito na economia mundial".

"Esses esforços colaborativos não apenas impulsionam a inovação dentro do bloco, mas também estabelecem as bases para um sistema financeiro e tecnológico global mais multipolar e resiliente, beneficiando, potencialmente, toda a Maioria Global."

Para o Mercosul em si, Silva Mendes destaca que a não exigência de "alinhamento institucional amplo nem compromissos de integração supranacional" é um ponto-chave de vantagem para aproximação com a UEE.

"O atual contexto multipolar, em princípio, favorece uma aproximação entre Brasília, Mercosul e a UEE, na medida em que reduz a lógica de alinhamentos exclusivos e estimula estratégias de diversificação econômica e diplomática. Em um ambiente marcado por disputas comerciais, tarifas e fragmentação das cadeias globais de valor, ampliar o leque de parcerias é uma forma racional de gestão de riscos e aumento de resiliência."


Por Sputinik Brasil