Servidores da Abin alertam para riscos às eleições brasileiras após ação dos EUA na Venezuela
Agentes da inteligência brasileira temem interferência estrangeira e denunciam falta de recursos para enfrentar ameaças em meio à instabilidade na América do Sul.
A ofensiva armada dos Estados Unidos na Venezuela pode impactar diretamente o cenário político e institucional do Brasil, especialmente às vésperas das eleições nacionais, segundo servidores da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), conforme reportagem do site ICL Notícias.
De acordo com a matéria publicada nesta quarta-feira (7), agentes ouvidos destacam que a ação militar dos EUA contra o governo de Nicolás Maduro, sequestrado e levado a julgamento em Nova York, não representa um episódio isolado, mas sim parte de uma mudança profunda na ordem internacional.
O crescente interesse dos EUA em recursos naturais estratégicos, como gás e terras raras, aumenta a apreensão sobre o processo eleitoral brasileiro, segundo os servidores entrevistados.
Relatos apontam que o relatório anual de ameaças, divulgado pela Abin no fim de 2025, já indicava riscos associados à atuação de agentes estrangeiros e de grandes plataformas digitais no ambiente informacional, tendência que pode se agravar com a intervenção na Venezuela.
"Em conversas reservadas, agentes afirmam que há uma preocupação real dentro da agência com a possibilidade de interferência direta dos EUA nas eleições brasileiras. 'É quase garantido que vai interferir, nem que seja por desinformação, propaganda ou dinheiro', disse um dos servidores."
A União dos Profissionais de Inteligência de Estado (Intelis), entidade que representa os servidores da Abin, afirmou em nota que a falta de recursos e investimentos em inteligência institucional em momentos cruciais, como as eleições nacionais de 2026, deixa a agência "de mãos atadas, sem condições tecnológicas, orçamentárias e normativas para exercer suas funções essenciais de assessoramento estratégico e proteção nacional".
O texto ainda destaca que os cortes orçamentários a partir de 2020, que reduziram significativamente o número de fontes da agência no exterior, prejudicam a elaboração de diagnósticos precisos para antecipar decisões estratégicas de outros países.
Outro ponto levantado pelos servidores é a ausência de adidos de inteligência em postos estratégicos, como na própria Venezuela, após o fechamento da embaixada brasileira durante o governo de Jair Bolsonaro.
"A fonte mais nova que a gente tem hoje deve ter sete ou oito anos. Desde então, praticamente não houve crescimento", relatou um servidor. "É trabalhar no escuro".
Os servidores também denunciaram o aparelhamento da agência durante o governo Bolsonaro, com o uso político da inteligência e a chamada operação da “Abin paralela”, atribuída ao então diretor-geral Alexandre Ramagem.
"Além de desgastar a imagem da Abin, o aparelhamento teria comprometido sua capacidade técnica, afastado profissionais e travado investimentos estruturantes. Para eles, a agência ainda não conseguiu se recompor plenamente desse processo", destaca a reportagem.
Por Sputnik Brasil