Análise: ano de 2026 inicia com rompante imperialista dos EUA e risco de diferentes testes nucleares
Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas afirmam que neste ano há potencial para agravamento dos conflitos vigentes em Gaza, na Ucrânia e no Sudão e ameaça de intervenção dos EUA em eleições de países latino-americanos, como Brasil e Colômbia.
O ano de 2026 iniciou com uma nova crise bélica, desta vez em território latino-americano. A incursão militar estadunidense na Venezuela, seguida do sequestro do presidente Nicolás Maduro, acirrou a tensão entre EUA e o Sul Global, liderado por China e Rússia, as duas principais aliadas de Caracas.
O episódio se somou a outras crises vigentes, como a ofensiva israelense em Gaza, o conflito ucraniano, a guerra civil no Sudão e a perseguição de grupos religiosos na Nigéria.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que o cenário volátil na geopolítica reflete a divisão do mundo entre três polos de poder, liderados por EUA, Rússia e China.
Lier Pires Ferreira, mestre em relações internacionais, professor e pesquisador associado do Núcleo de Estudos dos Países BRICS (NuBRICS), avalia que neste ano o conflito em Gaza vai continuar emoldurando a dinâmica regional no Oriente Médio. Ele considera que o sucessivo número de rompimentos de acordos de cessar-fogo por parte de Israel, principalmente, tende a elevar a pressão diplomática sobre Tel Aviv.
"Tende também a aprofundar ou agudizar as chamadas divisões internacionais, ou seja, aquele conjunto de países que mais sistematicamente apoiam Israel e muito particularmente o governo [do primeiro-ministro Benjamin] Netanyahu. E nós sabemos que os EUA estão na proa desse apoio, e aquele conjunto de países que mesmo no contexto ocidental ou mais particularmente na própria Europa já estão se afastando um pouco mais de Israel, como é o caso da Inglaterra, como é o caso da França."
Segundo Pires, o conflito entre Israel e a Palestina é de longa duração, "com um potencial ainda muito explosivo de novos episódios de violência".
Em contraponto, ele diz que o conflito ucraniano não desperta o interesse dos EUA, vide a rejeição cada vez maior do país em continuar apoiando os esforços de guerra ucranianos, que cada vez mais são sustentados, tanto do ponto de vista político quanto militar, por outros países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
"A gente vê também no contexto de uma Ucrânia que cada vez mais assiste ao exaurimento das suas tropas, ao esgarçamento das suas capacidades de resistência, um [presidente russo, Vladimir] Putin, me parece, cada vez mais fortalecido [...] tudo isso, de alguma forma, ajuda a redefinir a segurança europeia, exigindo com que os países europeus assumam uma parcela cada vez maior dos custos financeiros da própria segurança do continente", afirma, destacando que a Europa tem sido o grande elemento de resistência para se chegar a uma resolução pragmática do conflito entre russos e ucranianos.
Pires aponta que um dos elementos mais dramáticos do contexto geopolítico atual foi o anúncio do presidente dos EUA, Donald Trump, de que seu país voltaria a realizar testes nucleares. Segundo ele, isso torna "muito provável" que haja diferentes testes nucleares neste ano.
"Porque sempre que nós tivermos testes nucleares feitos pelos Estados Unidos, nós teremos também testes nucleares feitos pela Rússia."
O pesquisador observa que "o momento decisivo dessa nova realidade" se dará em fevereiro, quando expira o Tratado do Novo START de redução de armas nucleares.
"Sem que esse tratado esteja em vigor, a gente não sabe quais são os limites verificáveis em relação aos arsenais dessas duas grandes potências", ressalta.
Luiz Felipe Osório, professor de relações internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e autor do livro "Imperialismo, Estado e relações internacionais", avalia que a tendência para este ano é que os conflitos vigentes se acirrem ainda mais.
Ele considera que o que acontece na Venezuela hoje é um recado para o resto da América Latina, pois Caracas não apenas vinha resistindo à pressão norte-americana como conseguiu galgar algum desenvolvimento interno. Somado a isso, há pouco tempo, a Venezuela se notabilizou pelo questionamento das fronteiras artificiais traçadas pelo colonialismo, que resultaram na fundação da Guiana, tomando boa parte do território venezuelano onde hoje os EUA exploram petróleo.
"E a Venezuela, aos olhos dos Estados Unidos, é um péssimo exemplo para a América Latina. Então, ela precisa ser combatida de todas as formas. Essa retórica, utilizada muito recentemente contra o Maduro, dizendo que ele seria um narcoterrorista, foi utilizada logo ali na virada dos anos 1990 para os anos 2000 contra o [Hugo] Chávez, pela própria imprensa estadunidense", aponta.
Segundo ele, isso mostra que os EUA estão apenas "requentando acusações" para criar um clima que permita estourar um estopim que faça com que a pressão na região aumente ainda mais.
Já no recorte europeu, Osório afirma que o conflito ucraniano deixou o continente imprensado entre as disputas dos EUA contra China e Rússia.
"Então a Europa vai perdendo força e essa guerra na Ucrânia vai mostrando a debilidade europeia. As sanções impostas à força, contra a vontade dos próprios países europeus, por eles mesmos contra a Rússia, apenas geraram malefícios para os países europeus e não para a Rússia."
Ele afirma que a crise em que o mundo está mergulhado é decorrente do avanço do conservadorismo e diz que a crise do neoliberalismo iniciada em 2008 ainda reverbera.
"Ainda não saímos desse rescaldo da crise, e a tendência é que esse rescaldo de crise se prolongue por mais algum tempo, até porque o motor do desenvolvimento de outrora, que foi principalmente a industrialização, ela é colocada de lado em nome de uma financeirização da economia."
Para Osório, uma região do mundo onde a situação neste ano pode tensionar é o mar do Sul da China, onde a situação entre China e EUA "já está para lá de quente" e tende a escalar ainda mais. Ele lembra o aumento na venda de armas norte-americanas para Taiwan e diz que a região vive "um conflito congelado com alto potencial de explosão".
"Não apenas essa venda de armamentos, mas também todo o apoio econômico e político que os Estados Unidos dão a Taiwan. Lembremos nós as visitas recentes de importantes expoentes políticos nos Estados Unidos a Taiwan, o que é uma afronta à China como um todo", afirma.
Roberto Goulart, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), destaca que a ação militar dos EUA na Venezuela reflete a busca do país por manter a hegemonia sobre a América Latina e o Caribe.
"E para isso ele [Trump] evoca diretamente a doutrina Monroe, que é aquela de 1823, tristemente famosa, que é a ideia de América para os americanos [...]. Nesse momento, a América Latina volta a estar assombrada por essa violência imperialista dos EUA, que é, aí sim, tentando destruir, relativizar a soberania na América Latina, em especial, nesse momento, na Venezuela, tentando fazer da Venezuela um protetorado."
Ele enfatiza que neste ano há eleições em alguns países da América Latina, como Colômbia e Brasil, e que a intervenção dos EUA na Venezuela deve deixar esses países em alerta para algum tipo de ingerência norte-americana em seus respectivos pleitos.
"Os EUA podem não vir a reconhecer a eleição na Colômbia, a reconhecer a eleição no Brasil, podem trabalhar com a oposição ao atual governo no Brasil, do presidente Lula, enfim, porque os EUA deixaram claro em relação à Venezuela que eles não querem um governo que seja contrário aos interesses dos EUA", explica.
Ele observa que o próprio tarifaço imposto ao Brasil em 2024 foi uma forma de intervenção no país, que o governo brasileiro conseguiu reverter parcialmente.
"Em 2026 ainda teremos muito o que fazer no Brasil para que as eleições brasileiras transcorram normalmente", acrescenta Goulart.
Goulart afirma ainda que uma das lições deixadas pela ação dos EUA na Venezuela é de que apenas o pragmatismo diplomático não é suficiente para lidar com uma gestão como a de Trump.
"Esse uso da força por parte dos EUA, claro, sabemos, não é uma novidade. O que choca é a forma como foi feito, e o governo Trump, com isso, não só coloca em movimento a sua estratégia de segurança nacional, como também rasga [...] a fantasia de que os EUA invadem países para levar a democracia, a lei e a ordem e o bem-estar para o povo invadido."
Por Sputinik Brasil