Por trás da foto: Como uma mulher fugindo de bombas americanas na Venezuela capturou o medo e o caos daquela noite
CARACAS, Venezuela (AP) — Quando explosões irromperam durante a noite na ensolarada capital da Venezuela , Mariana Camargo, de 21 anos, correu pelas ruas da zona leste de Caracas.
Eram 2h05 da manhã e, enquanto explosões ecoavam ao fundo, o fotógrafo da Associated Press, Matías Delacroix, estava na rua registrando o que se tornaria uma das primeiras imagens da operação militar americana na Venezuela .
Dias depois — após o presidente venezuelano Nicolás Maduro ter sido substituído por seu vice-presidente na sequência de sua captura pelo governo Trump — Camargo e Delacroix encontraram um momento de tranquilidade no mesmo local onde a foto emblemática foi tirada.
“Uma mulher chegou num caminhão grande, parou bruscamente e disse: 'Crianças, o que vocês estão fazendo aqui? Vão para casa, eles estão bombardeando!'”, lembrou Camargo. “Éramos uns nove e pensamos: 'Vamos correr'. Começamos a correr e passamos por aqui.”
As imagens mostram Camargo vestindo uma camisa branca e calça jeans, correndo pela rua, com medo e urgência estampados no rosto, seguida por um grupo de amigos. Ela disse ter visto Delacroix parado ao lado no momento em que tirou a foto.
Foi essa emoção que chamou a atenção de Delacroix, que minutos antes acordara com o estrondo dos ataques americanos, pegara sua câmera e correra para a rua em direção às explosões. Foi ali, com o som de aeronaves militares sobrevoando, que os dois se cruzaram: uma pessoa correndo para longe das explosões e a outra correndo em direção a elas.

Mariana Camargo posa para uma foto no bairro de Altamira, em Caracas, Venezuela, na terça-feira, 6 de janeiro de 2026. (Foto AP/Matias Delacroix)
“O que me chamou a atenção foi a forma como você estava correndo, com o celular na mão e visivelmente assustada. Tenho fotos da sua amiga que estava atrás de você, mas entre as duas fotos, a sua foi a que melhor expressou o que estava acontecendo”, disse Delacroix para Camargo enquanto folheavam as fotos.
À medida que a fotografia estampava as primeiras páginas e os sites dos maiores veículos de comunicação do mundo, capturando um momento que transformaria o hemisfério, os amigos de Camargo começaram a vê-la e a escrever para ela no grupo de mensagens do WhatsApp.
"Estou delirando ou é a Nana Mariana???" perguntou uma de suas amigas, postando uma foto da imagem. (Na Venezuela, Nana é um apelido para Mariana.)
“É A NANA!” escreveu outra amiga logo em seguida.
A foto aos poucos se tornou uma piada entre seus amigos e até virou um meme com a frase "os gringos chegaram!" escrita sobre ela. Camargo riu enquanto lia as mensagens.
“Eu ri, e ri muito quando vi a foto. Minha mãe riu, meus amigos também. Eles fizeram adesivos, memes e tudo mais”, disse Camargo. “Mas eu ainda vejo os vídeos do que aconteceu naquele dia, das explosões, ouço os sons e ainda sinto essa sensação de pânico.”
No domingo, um dia após as greves e em meio ao caos, Camargo escreveu para Delacroix através de sua conta no Instagram, perguntando se ele tinha mais fotografias daquele momento.
Quando se encontraram na terça-feira, conversando na rua, os dois se despediram com um abraço.
"Coisas malucas sempre acontecem comigo", disse ela, rindo. "É claro que acabo na rua durante um atentado e viro viral. É uma loucura."
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A repórter da Associated Press, Megan Janetsky, contribuiu para esta reportagem da Cidade do México.