EXECUÇÃO

Munição que matou delator do PCC é de lote usado em mega-assalto no interior, diz instituto

Publicado em 15/02/2025 às 21:52
Reproduçâo

Parte da munição usada na execução do delator do PCC Vinícius Gritzbach foi do mesmo lote de projetos disparados em um mega-assalto a três agências bancárias ocorridas em 2020, em Botucatu, no interior de São Paulo. Os laudos, aos quais o Estadão teve acesso, fazem parte dos inquéritos que apuraram as ligações da polícia paulista com a facção criminosa e foram confirmados pelo Instituto Sou da Paz.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) diz que as polícias paulistas mantêm regras e sistemas de controle e distribuição de munições e que todas as suspeitas de extravio são rigorosamente investigadas.

Se for comprovada irregularidade, medidas disciplinares e judiciais são adotadas. A pasta informou que, no caso de Botucatu, as violações obtiveram munições desviadas de diferentes instituições de segurança.

Antônio Vinícius Lopes Gritzbach se disse ameaçado de morte pelo PCC em decorrência de supostos desvios de dinheiro da facção.

Ele denunciou também o conluio de policiais com membros do PCC e estava sob escolta privada, feita por Pms.

Gritzbach foi atingido por quatro tiros ao desembarcar no Aeroporto de Guarulhos, em 8 de novembro passado.

Segundo o Sou da Paz, os três lotes de balas de fuzis encontrados nas duas ocorrências - o assassinato de Gritzbach e o assalto aos bancos - foram comprados pela Polícia Militar do Estado de São Paulo entre 2013 e 2018.

"Vimos os laudos e as requisições feitas a diferentes instituições sobre a origem dessas munições. Fizemos a análise e vimos que há sequência numérica, tanto de munição encontrada em Botucatu, como no Aeroporto de Guarulhos. São munições do mesmo lote que foi adquirido pela PM do estado de São Paulo", diz Carolina Ricardo, diretora-executiva do Sou da Paz.

O instituto é uma organização social que atua nacionalmente na prevenção da violência e na promoção da segurança pública.

Para a diretora, vários pontos são relevantes nessa questão. "No caso de Vinícius (Gritzbach), a gente tem identificados policiais da ativa, civis e militares, o que mostra um envolvimento bastante preocupante de policiais com o crime. Além dos próprios policiais sendo suspeitos de participação no assassinato do delator, ainda tem essa munição comprada pelo Estado sendo usada pelo crime organizado no assalto."

Carolina acha que não são casos isolados. "São quase cinco anos de diferença, em lugares muito diferentes do Estado de São Paulo, o que gera uma suspeita de que esse lote pode ter sido enviado para outros lugares. Até porque no caso de Botucatu foram encontradas também munições desviadas da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal e do Exército."

Os oficiais das corporações incluídos nos inquéritos mostram que foram usados ​​quase 50 lotes de munições diferentes no ataque em Botucatu, que incluíram disparos contra batalhões da PM e viaturas da Guarda Municipal. Foram empregadas munições de 13 lotes da PM, e outros do Exército, Aeronáutica, Polícia Rodoviária Federal e Polícia Federal, incluindo pistolas 9 mm e ponto 40, e fuzis 556 e 762.

O lote que teve munição usada em Botucatu foi comprado no mesmo mês em que foi adquirido o lote de munição empregada em Guarulhos.

O especialista considera uma demonstração “muito grave” da falta de segurança do acervo de armas das polícias. "A marcação de munições é muito importante para a investigação. No Brasil, o Estatuto do Desarmamento exige apenas que as munições institucionais das forças de segurança sejam marcadas em lotes de até 10 mil peças. Quanto maior o lote, mais difícil de rastrear. Então, a gente precisa ampliar a marcação inclusive para uma munição civil."

Cenas de guerra

O ataque a três agências bancárias de Botucatu, em julho de 2020, por uma quadrilha com 40 integrantes, provocou cenas de guerra e levou terror à cidade do interior. Houve explosões, pessoas feitas reféns nas ruas e intensos tiroteios. Os criminosos incendiaram cinco veículos, dispararam contra uma viatura e contra uma unidade da PM. Uma agência foi destruída pelas explosões.

Em dois carros abandonados pelos suspeitos, a polícia encontrou fuzis, munição e dinheiro. Dois policiais ficaram feridos e um suspeito morreu baleado durante uma fuga.

Na época, as investigações apontaram que os criminosos estavam envolvidos com o PCC. A investigação relatou elos entre a ação em Botucatu e assaltos semelhantes ocorridos em maio daquele ano em Ourinhos, em setembro de 2018, em Bauru, cidades da mesma região.

Conforme a SSP, em relação ao homicídio ocorrido no Aeroporto de Guarulhos, no qual o delator do PCC foi assassinado, as investigações seguem em andamento sob sigilo. “Até o momento, 28 suspeitos já foram presos e mais detalhes serão preservados para não prejudicar o andamento dos trabalhos”, diz.