CIÊNCIA

Uso de quebra-gelo russo foi 'experiência única', diz cientista brasileiro na Antártica [VÍDEOS]

O glaciólogo brasileiro e líder da expedição Jefferson Cardia Simões conta detalhes da sua viagem a bordo do navio-laboratório russo Akademik Tryoshnikov, o primeiro do tipo a ser utilizado por uma equipe de cientistas brasileiros.

Publicado em 30/01/2025 às 20:15
© Foto / Anderson Astor/Marcelo Curia/ICCE

Nesta sexta-feira (30), estará de volta ao Brasil a Expedição de Circum-navegação Costeira da Antártica. Foram mais de 70 dias no mar navegando em torno e desembarcando no continente gelado em busca de amostras.

Ao todo, 57 pesquisadores de sete países — Brasil, Rússia, China, Índia, Chile, Argentina e Peru — chegam à cidade de Rio Grande (RS) pela manhã ansiosos para começarem a trabalhar.

"A pesquisa científica, na verdade, começa agora após desembarcarmos no porto", diz Jefferson Cardia Simões à Sputnik Brasil diretamente da passagem de Drake, um dos estreitos mais revoltos do mundo.

Primeiro glaciólogo brasileiro e líder da expedição, o professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul conta que nesses dias eles navegaram em torno da Antártica parando em diferentes pontos do mar e da costa para coletar dados, tanto da atmosfera quanto das águas e do gelo.

"Quando deu nós descemos nas geleiras para fazer amostragens de neve e gelo, no que nós chamamos de testemunho de gelo."

O cientista relata ainda o clima de colaboração entre os integrantes da expedição, seja nos momentos de trabalho, seja nas horas de lazer, como nas refeições ou ao assistir a um filme.

"É um privilégio, é uma maneira muito bonita de você fazer a pesquisa científica e junto com esse aspecto que eu falei da cooperação com países de diferentes culturas e línguas."

Membros russos e chineses da expedição de circum-navegação trabalhando no continente antártico, em 12 de dezembro de 2024
Membros russos e chineses da expedição de circum-navegação trabalhando no continente antártico, em 12 de dezembro de 2024

É posto no Sistema do Tratado da Antártica (STA) que o continente só pode ser explorado para fins científicos, jamais comerciais. Dessa forma, não só as reivindicações territoriais no continente austral foram congeladas, como criou-se um mecanismo para compartilhamento dos trabalhos científicos.

"Ao longo desse período [da viagem], nós, é claro, sempre estávamos apoiando outras partes da expedição, inclusive um levantamento geofísico, aerotransportado, das massas de gelo e neve da costa antártica."

A importância do Akademik Tryoshnikov

A missão científica contou com uma novidade crucial para o sucesso das pesquisas. Pela primeira vez, cientistas brasileiros contaram com o apoio de um quebra-gelo para realizar pesquisas mais aprofundadas no continente: o Akademik Tryoshnikov, da Rússia.

Cedida pelo Instituto de Pesquisa Ártica e Antártica de São Petersburgo, a embarcação permitiu "quebrar mar congelado com espessura de até 1,5 metro" e se aproximar dos paredões de gelo que atingem até 50 metros de altura.

"Isso é o que diferencia um quebra-gelo que nem o Akademik Tryoshnikov", diz Cardia. "Poder navegar sobre a banquisa, essa capa de mar congelado que está consolidada sem aberturas e sem canais."

Mas a embarcação não é "só" um quebra-gelo, explicita o líder da expedição. É um navio-laboratório, isto é, construído com o propósito de apoiar a pesquisa científica nas regiões polares.

Com 135 metros de comprimento, o Akademik Tryoshnikov conta com sete laboratórios científicos e diversas estruturas de apoio, como redes que permitem a coleta de diferentes espécies marinhas "desde plantkon até animais maiores", detalha.

"Este navio é maravilhoso para nós que não temos um equipamento desse para utilizar [...]. Certamente foi uma experiência única para nós."
Navio laboratório quebra-gelo Akademik Tryoshnikov em meio as banquisas, em 8 de janeiro de 2025
Navio laboratório quebra-gelo Akademik Tryoshnikov em meio às banquisas, em 8 de janeiro de 2025

Um projeto 'informal' do BRICS

Ainda que sete países tenham participado da missão, Cardia conta que em sua maioria os pesquisadores pertenciam a quatro: Brasil, Rússia, Índia e China. "Não foi o propósito no início, mas acabou sendo praticamente BRICS", disse, destacando que a experiência serviu para "aumentar a cooperação Brasil-Rússia em termos científicos".

Durante a viagem, foi possível fazer paradas na estações de pesquisas de cada um dos países, que têm "diferentes conceitos arquitetônicos" uma das outras. A brasileira, Estação Antártica Comandante Ferraz, por exemplo, foi recém renovada e está em ótima condição.

Já as russas estão em processo também de renovação e adição de novas instalações, como na estação Vostok, "que é instalada no lugar mais frio onde há pessoas habitando, onde chega a fazer -89 °C no auge do inverno".

Por sua vez, diz Cardia, os chineses também estão impressionando pela grandiosidade e rapidez na construção de suas estações. "A China já está indo para a quinta estação na Antártica."

Quebra-gelo russo Akademik Tryoshnikov leva equipe internacional em expedição de circum-navegação da Antártica, ao fundo a Estação Antártica Comandante Ferraz, em 23 de janeiro de 2025
Quebra-gelo russo Akademik Tryoshnikov leva equipe internacional em expedição de circum-navegação da Antártica, ao fundo a Estação Antártica Comandante Ferraz, em 23 de janeiro de 2025

O cientista destaca que é importante que o Brasil mantenha suas pesquisas no continente austral, tanto para manter seu direito a voto nas reuniões do Sistema do Tratado da Antártica e decidir o futuro da região, quando pela importância do conhecimento científico produzido.

"O sistema ambiental é indivisível, não existe parte menor e mais importante", afirma Cardia. "As regiões polares são tão importantes quanto a Amazônia para a circulação da atmosfera e do oceano para o nosso clima."

Navio laboratório quebra-gelo Akademik Tryoshnikov navega no oceano Polar
Navio laboratório quebra-gelo Akademik Tryoshnikov navega no oceano Polar

Um exemplo clássico, detalha, é que muitas vezes as frentes frias que atingem o país são formadas no oceano Austral, "essa enorme massa de água fria ao redor da Antártica".

Prestes a retornar ao Brasil, Cardia despede-se da Antártica, talvez para sempre. "Eu, pessoalmente, creio que é minha última viagem."

"Já estou há mais de 30 anos envolvido com pesquisas aqui na Antártica. Foi a minha 29ª viagem. Então é hora de passar o bastão para os meus, nessa altura nem tão jovens, colegas."

Por Sputinik Brasil