Gravidade marciana desafia saúde muscular em futuras missões tripuladas a Marte, aponta estudo
Astronautas dos EUA e da China podem chegar a Marte já na próxima década, mas novas pesquisas mostram que a gravidade reduzida do planeta e a longa viagem representam riscos significativos para o músculo esquelético, exigindo estratégias eficazes para preservar força, mobilidade e segurança das tripulações.
A NASA e a agência espacial chinesa planejam enviar astronautas a Marte já na próxima década, um objetivo que exige preparação científica rigorosa e atenção especial à saúde e à segurança das equipes. Além dos riscos clássicos das viagens espaciais — como radiação e longos períodos em microgravidade — surge a preocupação com o próprio ambiente marciano, cuja gravidade corresponde a apenas cerca de 38% da terrestre.
A gravidade reduzida pode provocar efeitos duradouros no organismo humano, sobretudo no músculo esquelético, que representa mais de 40% da massa corporal e é essencial para movimento, força e metabolismo. Como esse tecido é altamente sensível à falta de carga mecânica, compreender como ele reage à gravidade marciana tornou‑se uma prioridade científica.

Para investigar essa questão, uma equipe internacional envolvendo instituições japonesas, norte‑americanas e europeias conduziu um estudo com 24 camundongos enviados ao módulo Kibo da JAXA. Os animais foram expostos a diferentes níveis de gravidade — microgravidade, 0,33 g, 0,67 g e 1 g — durante 28 dias, utilizando o sistema de centrífuga MARS, desenvolvido pela agência japonesa.
Após o retorno ao Centro Espacial Kennedy, os camundongos passaram por análises conduzidas pelo Laboratório de Metabolismo e Biologia Muscular da Universidade de Rhode Island. Segundo a pesquisadora Marie Mortreux, o uso de níveis equidistantes de gravidade permitiu observar com precisão a resposta fisiológica de cada organismo, sendo que 0,33 g corresponde quase exatamente à gravidade marciana.
Os resultados mostraram que 0,33 g já atenuava a atrofia muscular induzida pelo voo espacial, enquanto 0,67 g prevenia completamente a perda de massa e força. Testes de preensão com miografia de impedância elétrica confirmaram que 0,67 g era suficiente para manter o desempenho muscular dos animais.
A análise do plasma sanguíneo revelou ainda 11 metabólitos sensíveis à variação gravitacional, que podem vir a servir como biomarcadores para monitorar adaptações fisiológicas em astronautas durante missões prolongadas. O estudo também se apoia em modelos anteriores de gravidade parcial desenvolvidos por Mortreux e Mary Bouxsein em Harvard.
A equipe destaca que trabalhar com gravidade como um contínuo — e não apenas como ausência ou presença de peso — permitiu validar em órbita resultados obtidos em solo. A colaboração internacional, embora desafiadora, reforçou a robustez do estudo e a relevância dos dados para futuras missões tripuladas.
Uma das conclusões centrais é que missões a Marte precisarão de estratégias eficazes para mitigar a perda de músculo esquelético durante a longa viagem interplanetária. Manter força, mobilidade e saúde metabólica será essencial tanto para a realização de tarefas científicas no espaço quanto para a readaptação física dos astronautas ao retornarem à Terra.