Aluguel milionário vira escândalo após academias públicas ficarem sem assentos em Maceió
Denúncia de Wadson Correia revela retirada de assentos de aparelhos no Graciliano Ramos; caso reacende questionamentos sobre aluguel de equipamentos, custo milionário e falta de fiscalização
Uma denúncia feita pelas rede sociais e repercutida pelo jornalista Wadson Correia, repórter investigativo em Alagoas, colocou novamente sob suspeita a política das Academias do Povo em Maceió. Em vídeo abaixo, o jornalista mostra a situação de equipamentos instalados em espaço público e relata a retirada de assentos dos aparelhos de ginástica no bairro Graciliano Ramos, fato que deixou a população indignada e impossibilitada de utilizar parte da estrutura.
O episódio expôs um detalhe que muitos moradores afirmam desconhecer: os equipamentos das academias públicas não teriam sido comprados definitivamente pelo Município, mas alugados por meio de contrato com a empresa Mude Imobiliários Urbanos Desportivos S.A. A informação provocou questionamentos sobre a escolha administrativa feita pela Prefeitura de Maceió, especialmente porque os aparelhos ficam fixados em praças e áreas públicas, servindo diariamente à população.
Segundo a denúncia repercutida por Wadson Correia, a retirada dos assentos teria ocorrido em razão de falta de pagamento do aluguel dos equipamentos. A situação causou revolta entre moradores do Graciliano Ramos, que cobraram explicações da Prefeitura e questionaram por que uma política pública de saúde e lazer ficou vulnerável a esse tipo de interrupção.
O caso se tornou ainda mais grave diante dos valores envolvidos. As informações disponíveis apontam que o contrato teve início em 2023, com valor próximo de R$ 2,5 milhões, e recebeu aditivos e renovações ao longo do tempo. Somando os períodos de execução, o custo da locação pode se aproximar de R$ 10 milhões, montante considerado elevado por moradores, opositores e setores que cobram maior transparência no uso do dinheiro público.
A principal pergunta feita pela população é simples: por que alugar, e não comprar? Para os críticos do modelo, equipamentos de ginástica instalados em praças públicas poderiam ser adquiridos de forma definitiva e incorporados ao patrimônio do Município, em vez de dependerem de pagamentos contínuos a uma empresa privada. A ausência de explicações técnicas claras sobre essa escolha alimenta suspeitas, críticas e cobranças por fiscalização.
As Academias do Povo são apresentadas pela Prefeitura como espaços gratuitos de promoção à saúde, com atendimento por profissionais, agendamento por aplicativo e funcionamento em diferentes bairros da capital. Há unidades em regiões como Jatiúca, Serraria, Vergel do Lago, Poço, Fernão Velho, Ouro Preto, Feitosa, Jacintinho, Sobral e Pontal da Barra. Também há relatos envolvendo equipamentos no Graciliano Ramos, onde ocorreu a polêmica, e no São Jorge, onde moradores afirmam que a estrutura não teria funcionado de forma regular.
Embora a proposta seja positiva no papel, o problema está na execução. Uma política pública criada para incentivar a atividade física acabou se transformando em alvo de questionamentos sobre planejamento, economicidade e controle. Quando uma academia instalada em área pública tem peças retiradas por suposta inadimplência contratual, o prejuízo imediato recai sobre a população, que deixa de ter acesso ao serviço.
Outro ponto que reforça a necessidade de apuração é o histórico da empresa contratada. A Mude já foi alvo de investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro em contratos firmados com a Prefeitura de Campos dos Goytacazes. O procedimento, conforme as informações disponíveis, foi arquivado sem condenação. Ainda assim, o histórico é suficiente para exigir atenção redobrada dos órgãos de fiscalização, sobretudo diante de contratos milionários custeados com recursos públicos.
A denúncia de Wadson Correia também joga luz sobre o papel da Câmara Municipal de Maceió e dos órgãos de controle. Até o momento, não há notícia de uma fiscalização ampla, pública e efetiva sobre o custo-benefício do contrato, os aditivos, as renovações e a escolha pelo modelo de locação. O silêncio institucional, diante de uma despesa milionária e de equipamentos que chegaram a ficar inutilizados, aumenta a sensação de abandono da população.
O caso das Academias do Povo revela uma contradição incômoda: a Prefeitura vende a imagem de uma cidade moderna, ativa e voltada ao bem-estar, mas moradores denunciam equipamentos desmontados, falta de explicação e um contrato que exige análise detalhada. Mais do que uma falha pontual, o episódio levanta dúvidas sobre a forma como a gestão municipal define prioridades e administra recursos públicos.
A Prefeitura de Maceió precisa explicar quanto já foi pago, qual o saldo contratual, por que os equipamentos foram alugados em vez de comprados, se houve estudo técnico demonstrando vantagem econômica para o Município e quais providências serão adotadas para garantir o funcionamento pleno das academias.
Também é necessário esclarecer se houve atraso de pagamento, se a retirada dos assentos foi autorizada ou comunicada previamente ao Município e quais medidas administrativas serão tomadas contra eventual interrupção indevida do serviço à população.
Enquanto as respostas não vêm, a denúncia feita por Wadson Correia transforma as Academias do Povo em símbolo de um problema maior: contratos caros, fiscalização frágil e serviços públicos que, quando falham, deixam o cidadão pagando a conta duas vezes — primeiro com o dinheiro dos impostos, depois com a perda do direito de usar aquilo que deveria estar funcionando.