Palmeira perde força na Assembleia e vê corrida de nomes para Brasília
Município que já teve governador, vices, deputados federais e chegou a reunir cinco deputados estaduais em uma só legislatura chega ao novo pleito sem candidato local para ALE e 4 a federal
Palmeira dos Índios, um dos municípios historicamente mais influentes da política alagoana, chega ao período pré-eleitoral de 2026 diante de um paradoxo. A cidade que já teve governador, vice-governadores, deputados federais e uma expressiva bancada estadual, hoje não apresenta um nome local, com atuação política cotidiana no município, para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa de Alagoas.
O contraste chama atenção porque Palmeira já ocupou lugar de destaque no tabuleiro político do Estado. Álvaro Paes, nascido no município, governou Alagoas entre 1928 e 1930. A cidade também projetou nomes que chegaram ao posto de vice-governador, como Juca Sampaio e Geraldo Sampaio, além de parlamentares federais que marcaram época, entre eles Zé Sampaio, Geraldo Sampaio, Medeiros Neto e Helenildo Ribeiro.
Ainda que alguns desses personagens não fossem, originalmente, filhos naturais da terra, fizeram de Palmeira dos Índios seu centro de atuação política, viveram a cidade, construíram vínculos locais e passaram a ser reconhecidos como lideranças palmeirenses. Era uma época em que fazer política em Palmeira significava estar presente, circular nos bairros, ouvir lideranças, frequentar a vida pública local e manter laços permanentes com o eleitorado do município.
Na Assembleia Legislativa, a força de Palmeira foi ainda mais evidente. O município teve uma extensa lista de deputados estaduais ao longo de sua história. Em uma das legislaturas da década de 1980, chegou ao ápice de sua representação política, com cinco deputados estaduais ao mesmo tempo: Emílio Silva, Jota Duarte, Edval Gaia Pai, Isaac Nascimento e Gervásio Raimundo. Era uma bancada robusta, capaz de dar visibilidade ao município, disputar recursos, defender interesses regionais e manter Palmeira dos Índios como referência política no Agreste e no Sertão alagoano.
Esse passado, no entanto, contrasta com o presente.
Nos últimos anos, a política palmeirense vem perdendo densidade na Assembleia Legislativa e vem definhando com a atuação pífia e vergonhosa de seus últimos parlamentares, inclusive envolvidos em escândalos como a Operação Taturana.
Embora dois filhos naturais do município exerçam atualmente mandato na Casa de Tavares Bastos — o presidente da Assembleia, Marcelo Victor, e o deputado estadual Ronaldo Medeiros, presidente estadual do PT — ambos têm bases eleitorais consolidadas fora de Palmeira dos Índios e não fazem política ativa no cotidiano da cidade.
Marcelo Victor construiu sua força eleitoral em outras regiões de Alagoas. Ronaldo Medeiros, da mesma forma, tem trajetória política vinculada a redutos fora do município. Em Palmeira, contam com apoios pontuais, amigos e eleitores, mas não representam, na prática, uma atuação enraizada na vida política local. São naturais da cidade, mas não dependem dela eleitoralmente para garantir seus mandatos.
É justamente essa distinção que expõe o vazio atual: Palmeira dos Índios tem filhos na Assembleia, mas não tem hoje um candidato a deputado estadual que faça política na terra, que viva o dia a dia do município e que se apresente como representante direto dos interesses locais.
Com a eleição de outubro se aproximando, o município chega ao pleito sem um nome sequer colocado como candidatura estadual genuinamente palmeirense. Nenhum candidato com base política central em Palmeira dos Índios aparece, até agora, como alternativa para disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa.
A cidade, portanto, caminha para o ocaso na disputa pela Casa de Tavares Bastos. O município que já chegou a ter cinco deputados estaduais simultaneamente pode assistir à próxima eleição sem candidatura própria para o Parlamento estadual.

Mas, se falta nome para a Assembleia, sobra movimentação para Câmara em Brasília
No patamar superior da disputa proporcional, Palmeira dos Índios deverá ter quatro nomes concorrendo a deputado federal. E o dado chama ainda mais atenção porque, dos quatro possíveis candidatos, três são mulheres: Mosabele Ribeiro, Sheila Duarte e Helô Bezerra.
A enfermeira Mosabele Ribeiro ressurge após disputar três eleições e derrotas consecutivas como um dos nomes colocados no tabuleiro da disputa federal. Sheila Duarte, atual vice-prefeita de Palmeira dos Índios, também deve entrar na corrida por uma vaga na Câmara dos Deputados. Já Helô Bezerra, jovem advogada e filha do presidente estadual do Solidariedade, Adeilson Bezerra, aparece como uma aposta de renovação dentro do campo partidário.
Além delas, o ex-prefeito Júlio Cezar também se prepara para disputar mandato de deputado federal, ampliando o número de candidaturas ligadas ao município na disputa por Brasília.
O cenário revela uma inversão curiosa. Palmeira dos Índios, que historicamente construiu força a partir da Assembleia Legislativa, hoje não apresenta candidato local para deputado estadual, mas vê proliferar nomes para a Câmara Federal. A cidade parece saltar uma etapa: perde musculatura no Parlamento estadual, mas multiplica pretensões no Congresso Nacional.
A movimentação pode ser lida de duas formas. De um lado, mostra que Palmeira ainda possui lideranças com ambição eleitoral e capacidade de se colocar no debate estadual. De outro, expõe a fragilidade da representação mais imediata do município, aquela que tradicionalmente nasce da relação direta entre deputado estadual, bases locais, lideranças comunitárias e demandas cotidianas da população.
A ausência até aqui de um candidato estadual com atuação efetiva em Palmeira dos Índios abre uma pergunta incômoda: quem defenderá, de forma direta e cotidiana, os interesses da cidade na Assembleia Legislativa?
Enquanto isso, a disputa federal ganha contornos de superlotação. Quatro nomes ligados à política palmeirense devem buscar votos para a Câmara dos Deputados, em uma eleição proporcional de alto custo, grande complexidade e forte dependência de alianças partidárias, estrutura estadual e votação pulverizada em vários municípios.
Para uma cidade com tradição política tão forte, o contraste é evidente. Palmeira dos Índios já foi celeiro de lideranças estaduais. Já teve governador, vice-governadores, deputados federais e uma bancada expressiva na Assembleia. Agora, chega a 2026 com muitos nomes olhando para Brasília e nenhum, até o momento, assumindo a missão de disputar uma cadeira estadual em nome da terra.
O resultado é um retrato do esvaziamento político local. Palmeira continua importante, continua estratégica e continua lembrada nas eleições. Mas sua representação direta na Assembleia Legislativa, que um dia foi símbolo de força, hoje parece reduzida a uma memória de tempos mais robustos.
Na política, ausência também fala. E a ausência de uma candidatura estadual enraizada em Palmeira dos Índios talvez diga muito sobre o momento vivido pela cidade: um município que ainda produz nomes, mas que já não consegue organizar, como antes, uma força própria para ocupar espaço no centro das decisões de Alagoas.