MACEIÓ É MASSA PRA QUEM?

Reportagem expõe drama de moradores da Vila Brejal em meio a lixão, ratos, moscas e alagamentos

Em visita in loco, equipe da Tribuna do Sertão ouviu apelos de moradores que denunciam abandono, negligência do poder público e uma crise sanitária e ambiental que castiga famílias há anos

Por Redação Publicado em 05/04/2026 às 18:28

A realidade encontrada pela Tribuna do Sertão na Vila Brejal, em Maceió, escancara mais uma face da cidade que não aparece na propaganda oficial. Em reportagem in loco, a equipe ouviu moradores cercados por lixo acumulado, infestação de moscas, mosquitos e ratos, além de conviverem com alagamentos que invadem casas, destroem móveis e aprofundam o sentimento de abandono.


A comunidade denuncia que a coleta de lixo ocorre apenas duas vezes por semana, o que contribui para a formação de um verdadeiro lixão a céu aberto em área habitada. O acúmulo de resíduos provoca transtornos diários, compromete a saúde dos moradores e agrava ainda mais a situação em períodos de chuva.


Ao ser questionada sobre o que o prefeito poderia fazer para acabar com o problema, uma moradora foi direta ao apontar o mínimo que a comunidade espera da gestão municipal. “Ele aparecer pra tirar o lixo, fazer alguma coisa pra não ficar muito lixo, tá tumultuado, né? Só é duas vezes na semana. E fazer um paredão, pra água não invadir a casa do pessoal”, disse Márcia.


Além da retirada mais frequente dos resíduos, os moradores defendem soluções estruturais. Entre elas, a construção de um paredão de contenção para evitar que a água chegue às residências durante as chuvas e a instalação de um contêiner grande para o descarte correto do lixo. Segundo os relatos, até a vegetação da área já estaria ameaçada pela situação de degradação.


Mas o problema não se resume ao mau cheiro ou à paisagem degradada. O lixão se converteu em uma ameaça permanente à saúde e à dignidade de quem vive na localidade. “É muita mosca, muitos mosquitos. A mosca fica até atrás do fogão, dentro de casa, nas comidas. Não pode deixar a panela aberta nem nada”, relatou uma moradora, descrevendo o cotidiano de quem já não consegue manter os alimentos expostos nem por poucos minutos.


Os ratos também se tornaram parte da rotina forçada das famílias. Outra moradora relatou o tamanho do desespero vivido dentro de casa. “Rato dentro de casa, rato em cima da mesa. Eu não posso deixar nada em cima da mesa. Já teve comida mordida de rato”, contou.


A situação piora drasticamente quando chove. A água invade as residências, carrega sujeira, entope o esgoto e deixa prejuízos materiais e emocionais. Pauliana, outra moradora ouvida pela reportagem, resumiu o drama enfrentado pela comunidade. “Quando a chuva cai, fica cheia. A gente fica se prejudicando, porque entra na nossa casa, rato e tudo, inseto, tudo entra. É um absurdo”, afirmou.


Ela relatou ainda que o problema não é pontual, mas recorrente, atingindo moradores antigos e também aqueles que chegaram há menos tempo à comunidade. “Nós somos moradores aqui há muitos anos e agora as pessoas que estão chegando estão vendo isso. A situação da gente fica complicada”, disse.


Questionada se a água já invadiu casas a ponto de causar perdas materiais, a resposta foi imediata: “Já. Já de perder móvel. Porque é uma tristeza, né? A casa da gente enche tudo, fica tudo entupido, principalmente o esgoto”.


O sentimento predominante é de negligência. Moradores afirmam que vivem esquecidos pelas autoridades e cobram a presença do prefeito no local para ver, de perto, o sofrimento diário da população. “Eu queria que o prefeito viesse até aqui pra olhar a nossa dificuldade dia a dia. É lixo, é abandono e descaso, desaguando na nossa lagoa”, desabafou uma moradora.


A reportagem da Tribuna do Sertão mostra que, longe dos cartões-postais e do discurso de cidade moderna, há comunidades inteiras sobrevivendo em meio a uma crise sanitária e ambiental inaceitável. Na Vila Brejal, o que se pede não é favor, nem promessa de campanha: é ação concreta, respeito e o mínimo de dignidade para famílias que há anos convivem com o lixo, a água invadindo suas casas e a sensação de que foram deixadas para trás.