José Dirceu defende mobilização da esquerda e propõe reformas estruturais para o Brasil
Declarações foram feitas no seminário Desafios do Brasil e da Esquerda na atual crise mundial, promovido pelo ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha
SÃO PAULO, 28 de março de 2026 – O ex-ministro e ex-deputado José Dirceu afirmou que o Brasil vive um momento de intensa disputa política, social e internacional, exigindo maior mobilização e organização da esquerda diante dos desafios atuais.
Segundo Dirceu, o cenário global é marcado por uma escalada de conflitos e intervenções, com impacto direto sobre as democracias e os processos eleitorais, especialmente na América Latina.
“Nós estamos disputando eleições em um ambiente internacional cada vez mais instável, onde a interferência externa já ocorreu em diversos países e pode voltar a ocorrer”, afirmou.
No plano interno, o ex-ministro destacou que o país enfrenta uma disputa de projetos que vai além do processo eleitoral e envolve a reconstrução de direitos e da participação social conquistados ao longo das últimas décadas.
Para ele, a Constituição de 1988 garantiu à população acesso à riqueza do país por meio da saúde pública, da educação, da previdência e de direitos sociais, hoje novamente em disputa.
Dirceu também ressaltou a importância das políticas públicas recentes voltadas à redistribuição de renda, como programas sociais e medidas de alívio no custo de vida, que ampliam a participação da população na riqueza nacional.
Segundo ele, esse processo vem acompanhado de uma mudança política e cultural, com maior apoio da sociedade à tributação sobre os mais ricos.
“Hoje há uma percepção crescente de que os mais ricos precisam pagar mais impostos. Isso representa uma mudança política importante no país”, afirmou.
O ex-ministro destacou ainda novas demandas da sociedade, especialmente da juventude, que questiona jornadas exaustivas de trabalho e busca melhores condições de vida.
“A juventude quer mudar as regras do trabalho. Não aceita mais jornadas extensas sem qualidade de vida”, disse.
Dirceu também criticou a concentração de renda no sistema financeiro, apontando que o Brasil mantém taxas de juros elevadas, o que transfere recursos significativos para uma parcela reduzida da população.
“Hoje, uma parte relevante da riqueza do país é transferida para poucos por meio dos juros. Isso aprofunda a desigualdade”, afirmou.
Para ele, enfrentar esse cenário exige a adoção de reformas estruturais, como a reforma tributária com foco na renda e no patrimônio, a reforma do Judiciário, avanços na educação, fortalecimento da agricultura familiar e políticas ambientais consistentes.
“O Brasil precisa decidir se quer ser apenas um exportador de commodities ou um país com desenvolvimento econômico e social sustentável”, disse.
Dirceu também defendeu a reconstrução de partidos políticos, sindicatos e organizações sociais como condição para fortalecer a democracia e ampliar a participação popular.
“Nossa capacidade de disputar o futuro depende da reconstrução das nossas organizações e da mobilização da sociedade”, afirmou.
Ao final, reforçou a necessidade de engajamento direto na disputa política.
“Essa eleição exige que a gente vá para as ruas, enfrente o debate político e apresente um projeto claro para o país”, concluiu.