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Entre o 6 e o 9: quando a política atravessa relações

Por Beatriz Breves Publicado em 28/05/2026 às 12:45
Beatriz Breves Laisa de Souza

A polarização política no Brasil é inegável. O país se vê dividido entre esquerda e direita, e essa cisão tem atravessado relações de forma profunda. Amizades antigas acabaram, famílias se desentenderam, casais se separaram. A divergência de ideias, quando acompanhada de emoções intensas, cria ruídos que se acumulam e provocam um verdadeiro “curto-circuito” nas relações. 

Do ponto de vista psicológico, a polarização surge, muitas vezes, da insegurança diante do diferente: o medo de que, ao escutar o outro, se perca o próprio rumo. Soma-se a dificuldade de lidar com sentimentos intensos, o que torna o diálogo mais árduo. Logo, em vez de se aproximar, a pessoa se afasta; em vez de escutar, reage; em vez de perguntar, julga. 

Ainda assim, quando falamos de pessoas de boa índole, temos algo em comum: embora as ideias divirjam, muitos dos ideais se aproximam. Há um desejo compartilhado por justiça, dignidade, liberdade e acesso a direitos básicos como saúde, segurança e educação. 

É nesse ponto que a metáfora do número 6 ganha força. Duas pessoas, frente a frente, podem olhar para o mesmo símbolo e enxergar coisas diferentes: uma vê um 6, a outra um 9. Ambas estão certas dentro de seus pontos de vista. Assim também ocorre com as ideias: diferentes interpretações podem emergir a partir de um mesmo ideal. 

Quando aproximamos essas visões, surge o número 69. Nesse encontro, não há disputa sobre quem está certo, porque aquilo que antes era oposição se transforma em complementar. Ou seja, duas perspectivas coexistindo e compondo algo maior quando colocadas, lado a lado, harmoniosamente.  

Talvez seja justamente essa a habilidade que falte ao Brasil, e a todos nós: a capacidade de transformar o embate em encontro. De lembrar que discordar não significa desarmonia. De aceitar que ninguém enxerga tudo sozinho. De trocar certezas rígidas por curiosidade genuína.  

Entretanto, é preciso lembrar que somos seres humanos complexos, com uma diversidade de sentimentos que, se não bem administrados, podem gerar disputas e desavenças. Por isso, não será surpresa se, mesmo quando os que veem 6 e os que veem 9 se integrarem, surgir alguém que diga que, de fato, o número é 96. Longe de ser um problema, é justamente entre integração e divergência que aparecem novos caminhos. 

O importante é reconhecer que, assim como os números 6, 9, 69 ou 96, as ideias podem assumir formas distintas, desde que o ideal permaneça ético, digno e coerente. Afinal, é isso que ainda nos mantém em diálogo.  

Beatriz Breves é psicóloga, psicanalista e escritora, autora do livro Eu Fractal – conheça-te a ti mesmo