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Novas regras do consignado reforçam a proteção ao consumidor mas exigem segurança jurídica e responsabilidade

Por Roberto Mac Lennan Publicado em 21/05/2026 às 08:17
Roberto Mac Lennan, CEO e sócio fundador da SOS Bolso Divulgação

As recentes discussões envolvendo o crédito consignado federal representam um momento importante de amadurecimento do sistema financeiro brasileiro. O avanço de mecanismos de proteção ao consumidor, validação biométrica, confirmação positiva das operações e fortalecimento dos controles operacionais são medidas legítimas, necessárias e positivas para o mercado.

Nos últimos anos, o Brasil conviveu com um crescimento relevante de denúncias relacionadas a fraudes, contratações indevidas e utilização inadequada da margem consignável, especialmente envolvendo aposentados e pensionistas. Parte desses problemas decorreu de falhas operacionais, ausência de controles mais rígidos e atuação inadequada de determinados agentes do mercado.

Por isso, iniciativas que aumentem a rastreabilidade das operações, exijam biometria, reforcem o consentimento do cliente e ampliem a transparência devem ser vistas como um avanço institucional importante. O consignado precisa evoluir continuamente em direção a um ambiente mais seguro, moderno e centrado no consumidor.

Ao mesmo tempo, é fundamental que esse processo seja conduzido com equilíbrio, rigor técnico e segurança jurídica.

O crédito consignado não é apenas um produto financeiro. Ele representa uma das modalidades de crédito mais acessíveis do país, com impacto direto na capacidade de milhões de brasileiros reorganizarem sua vida financeira, substituírem dívidas mais caras, enfrentarem emergências, investirem em saúde, educação e melhorarem sua qualidade de vida.

Quando mudanças regulatórias são feitas de maneira acelerada, em ambiente político sensível e sem o devido tempo de implementação operacional e jurídica, cria-se um risco relevante de insegurança para todo o sistema.

O ponto central da discussão não é a existência da margem consignável ou do crédito consignado em si. Pelo contrário: trata-se de um produto consolidado, eficiente e que historicamente apresentou inadimplência reduzida justamente por possuir regras claras e previsibilidade operacional.

O desafio está em como essas mudanças são implementadas.

Alterações abruptas em regras de margem, consignação ou elegibilidade, especialmente quando atingem contratos já performados e celebrados de forma legal e juridicamente válida, podem abrir precedentes perigosos para o ambiente de crédito brasileiro. Segurança jurídica é um elemento essencial para manutenção da confiança no sistema financeiro e para preservação do acesso ao crédito com taxas acessíveis.

É importante que o debate público diferencie problemas de execução e fiscalização da essência do produto. O consignado continua sendo uma ferramenta importante de inclusão financeira quando utilizado de forma responsável, transparente e supervisionada adequadamente.

Outro ponto relevante nas discussões atuais é a possibilidade de maior flexibilidade na utilização da margem consignável entre diferentes produtos. Em tese, permitir que o consumidor tenha maior liberdade para utilizar sua margem total conforme sua necessidade pode trazer ganhos de eficiência, simplificação e racionalidade para o sistema, desde que acompanhado de critérios robustos de proteção ao consumidor, educação financeira e controles operacionais adequados.

Da mesma forma, medidas como ampliação de prazo, biometria obrigatória e validação positiva das operações podem fortalecer significativamente o mercado quando implementadas com planejamento, testes adequados e diálogo técnico entre reguladores, instituições financeiras e entidades representativas.

O Brasil precisa avançar no aperfeiçoamento do consignado — mas de maneira responsável, previsível e sustentável.

O fortalecimento do setor depende justamente da combinação entre proteção ao consumidor, rigor operacional, estabilidade regulatória e segurança jurídica. Sem isso, corre-se o risco de gerar mais insegurança, reduzir oferta de crédito e aumentar o custo financeiro justamente para a população que mais depende de linhas acessíveis.

As discussões atuais são importantes e caminham na direção correta. O desafio agora é garantir que as mudanças ocorram no tempo certo, da forma certa e com o devido rigor técnico necessário para que os objetivos reais sejam efetivamente alcançados.