Além do Plano Safra: por que a gestão virou o novo critério de crédito no agro
Converso com produtores rurais toda semana. É uma situação que se repete mais do que deveria: operação robusta, faturamento expressivo, anos de experiência no campo — e Plano Safra como principal e, muitas vezes, única fonte de crédito. Não por falta de alternativas. Por falta de governança.
Ainda é comum encontrar produtores com operações robustas, faturamento expressivo e histórico consolidado, mas com lacunas básicas de gestão. Isso acaba limitando o acesso a outras fontes de financiamento, restando o Plano Safra como principal e, muitas vezes, única alternativa. Esse contraste evidencia um ponto central, o agro brasileiro já alcançou alta eficiência produtiva, mas ainda enfrenta desafios relevantes quando o assunto é gestão e estruturação financeira.
Demonstrações financeiras desestruturadas, ausência de projeção de fluxo de caixa, contratos informais e pouca separação entre pessoa física e jurídica seguem como entraves silenciosos. Na prática, o gargalo deixa de ser produtivo e passa a ser organizacional, restringindo o acesso a crédito mais sofisticado e competitivo. Esse cenário ganha ainda mais relevância em um momento de transformação no mercado de crédito. O modelo tradicional, historicamente concentrado em linhas subsidiadas, começa a dar sinais de maior restrição, com aumento de custos e redução proporcional de incentivos.
Dentro desse contexto, o Plano Safra segue como um pilar importante, mas já não pode ser visto como única alternativa. No ciclo 2025/2026, o volume foi de R$ 605 bilhões de crédito rural total anunciado, incluindo agricultura empresarial e familiar, mas houve redução no subsídio efetivo e aumento das taxas de juros, refletindo um ambiente mais desafiador. Mais do que volume, o momento exige uma leitura mais ampla sobre diversificação das fontes de financiamento.
Ao mesmo tempo, cresce a presença de instrumentos privados como Cédula de Produto Rural (CPR) estruturada, Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e notas comerciais incentivadas, que ampliam as possibilidades de financiamento no setor. Diferentemente do crédito tradicional, mais padronizado, o capital privado opera com uma lógica mais analítica e criteriosa.
Essa transformação já é visível nos dados: em 2025, pela primeira vez na história, o estoque de títulos privados superou o volume de empréstimos bancários tradicionais no Brasil, R$ 2,21 trilhões contra R$ 2,19 trilhões, segundo levantamento da Rio Bravo Investimentos com dados do Banco Central. Há dez anos, o mercado de capitais representava menos de um terço do crédito bancário. No agro, esse movimento ainda está em estágio inicial, estimamos que 25% a 30% do estoque de crédito do setor venha do mercado de capitais. Enquanto o restante da economia já fez a travessia, o agro ainda está na ponte.
Há, porém, uma diferença fundamental. Enquanto o crédito tradicional tende a seguir critérios mais uniformes, o capital privado exige previsibilidade, transparência e organização. O investidor quer entender a operação, avaliar riscos e ter clareza sobre a capacidade de execução ao longo do tempo, o que eleva o nível de exigência para os produtores.
É nesse ponto que a governança se torna decisiva. Organizar a gestão financeira, estruturar informações e profissionalizar processos não é apenas uma evolução administrativa, mas um passo estratégico para ampliar o acesso a capital, diversificar fontes de financiamento e, inclusive, reduzir o custo financeiro das operações.
O agro brasileiro já é reconhecido pela eficiência produtiva. O avanço agora passa pela capacidade de gestão. Em um cenário mais exigente, quem se antecipar e estruturar melhor sua operação terá mais alternativas, maior autonomia para crescer e melhores condições de negociação. O crédito existe. As alternativas também. A diferença está em quem está preparado para acessá-las.
![]() | Henrique Galvani é sócio-fundador e CEO da Arara Seed, primeira plataforma de equity crowdfunding voltada exclusivamente para o agronegócio. Formado em Ciências Contábeis pela Universidade Paulista, Galvani atua há 14 anos no setor, com passagens pelo Grupo BLB e pela BLB Ventures. Em 2024, foi reconhecido pela Forbes como um dos talentos do agro na lista Under 30. |
