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O incômodo espelho da IA que expõe empresas que ainda não sabem organizar seus dados

Por Gabriel Azzone Publicado em 07/05/2026 às 11:55
Gabriel Azzone, co-fundador e CTO da Backlgrs Arquivo/Divulgação

Há uma certa ironia no fato de o 1º de Maio, historicamente associado à produtividade e às transformações do trabalho, coincidir cada vez mais com o debate sobre inteligência artificial dentro das empresas. Não se trata apenas de uma sobreposição simbólica. É uma coincidência que revela muito sobre o momento atual. Enquanto organizações correm para incorporar IA em suas operações, o que se vê, na prática, é que o maior obstáculo não está na tecnologia em si, mas no básico que ficou para trás.

A narrativa dominante sugere que a inteligência artificial é o próximo grande salto de eficiência. E, de fato, ela pode ser. Mas o que tem se mostrado com frequência é o oposto: ao invés de resolver problemas, a IA tem funcionado como um espelho incômodo, refletindo a desorganização estrutural de dados que muitas empresas ainda carregam. É como instalar um motor de alta performance em um carro cuja base nunca foi devidamente ajustada.

Existe uma expectativa quase automática de que basta adotar IA para destravar ganhos de produtividade. Essa expectativa ignora um ponto essencial. Inteligência artificial depende, fundamentalmente, de dados. E não de qualquer dado, mas de dados organizados, confiáveis, acessíveis e conectados. Sem isso, o que deveria ser ganho de escala vira retrabalho, inconsistência e frustração.

O que tenho observado é que muitas empresas aceleraram investimentos em IA antes de resolver o que deveria ser a etapa zero: governança de dados. Sistemas que não conversam entre si, bases duplicadas, informações desatualizadas e ausência de critérios claros de qualidade formam um cenário em que a tecnologia mais sofisticada do mundo pouco consegue fazer. Nesses casos, a IA não falha. Ela apenas evidencia o que já estava errado.

Essa exposição não é trivial, ela impacta diretamente a forma como o trabalho acontece dentro das organizações. Equipes passam a tomar decisões com base em informações conflitantes, projetos se tornam mais lentos e a promessa de eficiência se dilui em processos desalinhados. O resultado é um paradoxo: quanto mais tecnologia se adiciona, mais evidente fica a falta de estrutura.

Ao mesmo tempo, há um movimento interessante acontecendo. Empresas que começam a colher resultados mais consistentes com IA são justamente aquelas que entenderam que o diferencial não está na ferramenta, mas na arquitetura que sustenta seu uso. Isso passa por integração de dados, revisão de processos e, principalmente, clareza sobre quais problemas de negócio precisam ser resolvidos. A tecnologia, nesse contexto, deixa de ser protagonista e passa a ser meio.

Modelos mais flexíveis, como estratégias multicloud e ambientes integrados, ganham espaço não por tendência, mas por necessidade. Eles permitem que dados deixem de estar isolados e passem a circular com mais inteligência dentro da organização. Ainda assim, nenhuma arquitetura compensa a ausência de disciplina na gestão da informação. Não existe atalho para isso.

O avanço da inteligência artificial está, portanto, menos relacionado a uma ruptura tecnológica e mais a uma exigência de maturidade operacional. Ela eleva o nível de cobrança sobre como as empresas organizam seus dados, estruturam seus processos e definem suas prioridades. Nesse sentido, o debate sobre IA no Dia do Trabalho ganha uma nova camada: não é apenas sobre o futuro das funções, mas sobre a qualidade da execução no presente.

A discussão sobre substituição de tarefas, embora relevante, muitas vezes desvia o foco do problema real. Antes de pensar no que a IA pode fazer sozinha, talvez seja mais urgente entender por que tantas organizações ainda não conseguem fazer o básico bem feito com os recursos que já possuem. A tecnologia não corrige desordem, ela a amplifica, escancara.

No fim, o que o momento atual revela é uma divisão clara. De um lado, empresas que tratam dados como ativo estratégico e constroem bases sólidas para inovação. De outro, aquelas que seguem acumulando camadas de tecnologia sobre estruturas frágeis, esperando resultados que dificilmente virão. A inteligência artificial não cria essa diferença, mas a torna impossível de ignorar.

E talvez esse seja o principal recado deste 1º de Maio. Em um cenário onde a tecnologia avança rapidamente, o verdadeiro diferencial competitivo continua sendo a capacidade de fazer o essencial bem feito. Sem isso, não há hype que se sustente.

*Gabriel Azzone é co-fundador e CTO da Backlgrs, consultoria especializada na implementação, customização e sustentação de soluções sob medida da plataforma Salesforce. Azzone possui vasto conhecimento técnico em Salesforce, com experiência em projetos de tecnologia em diversas multinacionais. Já liderou projetos de grande escala, como implementações de ERP, estruturas de banco de dados e integração de sistemas.