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A música que vem da mãe

Por Welton Nadai Publicado em 07/05/2026 às 09:09
O músico Welton Nadai Dayball Bernardo

Existe uma educação musical que antecede qualquer escola, método ou teoria. Ela não começa no conservatório, nem diante de um instrumento. Começa muito antes disso: no colo.

Antes que uma criança aprenda palavras, ela aprende ritmos. O coração da mãe, a cadência da fala, a canção de ninar, os sons da casa. Tudo isso já constrói uma percepção musical profunda, ainda que invisível. A música, nesse primeiro momento da vida, não é técnica. É vínculo.

Como educador musical, percebo que muitas das referências afetivas que carregamos vêm justamente dessas experiências iniciais. Quase sempre existe uma lembrança sonora ligada à infância: uma música tocando no rádio da cozinha, um disco ouvido aos domingos, uma mãe cantando enquanto organizava a casa, mesmo sem imaginar que aquele gesto simples se transformaria em memória permanente.

Toda mãe ensina música de alguma forma.

Algumas apresentam os filhos à música clássica. Outras à música popular brasileira, ao sertanejo, ao rock, às canções religiosas ou às trilhas que marcaram suas próprias vidas. Algumas cantam afinado. Outras não. Mas isso pouco importa. O que permanece não é a perfeição estética. É o afeto contido naquele som.

A música possui uma capacidade única de guardar emoções. Diferente de outras lembranças, ela atravessa o tempo de maneira quase intacta. Basta ouvir determinados acordes para que uma pessoa volte instantaneamente a um lugar, a uma sensação ou a alguém que ama. A ciência já demonstrou como a música ativa regiões do cérebro ligadas à memória e à emoção. Mas, para além da explicação científica, existe algo profundamente humano nisso: certas músicas nos devolvem pessoas.

E talvez seja justamente por isso que a presença materna esteja tão ligada à construção da nossa escuta emocional. Educar musicalmente uma criança não significa necessariamente formar músicos profissionais. Significa desenvolver sensibilidade. Uma criança que cresce cercada por música aprende, ainda que inconscientemente, valores importantes: atenção, escuta, percepção, delicadeza, pausa e expressão emocional.

Em tempos marcados pelo excesso de estímulos e pela dificuldade de ouvir verdadeiramente o outro, a música continua sendo uma poderosa ferramenta de humanização. E as mães, muitas vezes sem perceber, ocupam um papel central nesse processo.

Porque mãe escuta antes de todo mundo. Percebe mudanças de tom na voz, silêncios incomuns, ritmos alterados no comportamento dos filhos. Existe uma musicalidade intuitiva no cuidado materno. Talvez por isso tantas pessoas descubram a música primeiro através do afeto e só depois através da técnica.

No fundo, quase todo músico carrega uma memória sonora ligada à mãe. Está na canção de ninar, na música do carro, na dança improvisada pela sala, no rádio ligado cedo demais ou na voz chamando pelo nome no fim da tarde.

A primeira grande intérprete da vida de qualquer pessoa costuma ser a mãe. E talvez seja exatamente por isso que a música emocione tanto: porque, de algum modo, ela sempre nos faz voltar para casa.

*Welton Nadai é violonista, educador musical e produtor cultural. Natural de Rio Claro (SP), é formado em música e atua há mais de uma década na difusão da música instrumental e na formação de público. Desenvolve o projeto Violão na Escola, por meio do qual já realizou apresentações e atividades pedagógicas em centenas de escolas públicas no interior paulista, aproximando estudantes da música erudita e ampliando repertórios culturais.