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Anotar para não desaparecer: escrita, luto e a tentativa humana de organizar o caos

Por Plácido Berci Publicado em 04/05/2026 às 11:08
Plácido Berci Divulgação

Era como se a escrita validasse a existência do meu pai. Pedrinho escrevia sobre absolutamente tudo: lembretes, observações banais, memórias, poesias, contos, palavras soltas, números e até mesmo fórmulas químicas. Um bloco de notas e uma caneta funcionavam como extensões de seu corpo já que a escrita era sempre à mão. Na falta do bloquinho, rascunhava qualquer pedaço de papel disponível e o hábito quase compulsivo ganhou ainda mais relevância em sua rotina após um AVC hemorrágico comprometer sua memória e linguagem. À época, uma neurologista recomendou que escrever poderia ajudá-lo a se lembrar das coisas.

Não havia preocupação estética, tampouco pretensões narcisistas de reconhecimento público por sua habilidade linguística, o objetivo ali era se reorganizar. Enquanto seus pensamentos borbulhavam confusos, a escrita aparentemente caótica se prestava a ser um reencontro possível com a própria história. Vê-lo curvado a anotar compulsivamente me inspirou a escrever um livro em busca de minhas próprias respostas. Assim, nasceu Louca Normalidade, ficção que utiliza do suspense psicológico e drama familiar para refletir sobre padrões e conflitos.

Ao criar um protagonista inspirado em minha figura paterna, me vi colocando em prática a afirmação da brilhante escritora espanhola Rosa Montero em sua obra O perigo de estar lúcida: “a ficção é uma viagem ao outro, e esse é o trajeto mais fascinante que uma pessoa pode fazer". Durante sete longos e terapêuticos anos, busquei pensar como Pedrinho pensaria. Jamais senti tanta empatia por alguém como neste processo e sentia a presença dele a cada tecla pressionada no notebook. Éramos um só, numa espécie de fusão entre pai e filho.

Descobri que revisitar lembranças, emoções e traumas pessoais por meio da escrita pode ser um exercício vital para uma vida mais serena e livre de remorsos. É como se pudéssemos tocar nossos pensamentos ao lê-los. Se tornam visíveis, mais próximos do almejado entendimento. Enquanto pescamos palavras e anotamos o que até então navegava distante por nossa mente, nos ancoramos no presente numa tentativa consciente de auto-organização.

Meu pai faleceu quando o livro estava uns 60% pronto e o luto travou a minha escrita. Nunca havia sentido tanta dor. “Ele não podia ter ido embora agora", pensava repetidamente ao me dar conta de que ainda havia muito a ser compartilhado. Ele era meu melhor amigo.

Até que, pouco a pouco, o incômodo passou a dividir espaço com uma crescente vontade de preencher a ausência com palavras. As memórias eram o impulso visceral para adaptar situações e contextos pessoais à trama ficcional. As letras aglomeradas me auxiliavam a não paralisar diante de um mundo que havia perdido cor e se tornado mais hostil.

Na minha escrita, porém, meu pai estava vivo. Tão presente como nos tempos de carne e osso. Repetir o hábito herdado de quem se foi possibilitou olhar com curiosidade para o vazio recém-chegado e, assim, o sofrimento se tornou passível de compreensão e aceitação. Surgiu espaço para uma doce saudade e um grande aprendizado: o de que escrever é uma linda forma de (re)viver.

*Plácido Berci é jornalista formado pela PUC-Campinas e atua como repórter e apresentador esportivo da TV Globo desde 2015. É autor dos livros “Paixão: uma viagem pelo futebol inglês” e “Nuvem de terra: relatos do primeiro correspondente esportivo brasileiro no Quênia”. “Louca normalidade”, estreia na ficção pela editora Mondru, acompanha um jornalista aposentado que, após um AVC, passa a registrar tudo para preservar a memória — até encontrar uma anotação sobre um possível crime, sem saber se é real ou fruto de sua mente. A obra mistura suspense e drama familiar, abordando luto, solidão, amor e as relações entre gerações.