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Quando o golpe encanta

Por Rostand Lanverly Publicado em 04/05/2026 às 08:00
Rostand Lanverly Arquivo/Facebook

Há pessoas que parecem caminhar pela vida trazendo consigo uma rara missão: a de encantar o mundo por meio da palavra escrita, transformando inteligência em beleza e reflexão. Entre essas figuras luminosas está Padre João Medeiros, filho de Jucurutu, com marcante atuação em Caicó e atualmente radicado em Natal, onde integra o quadro de sócios efetivos da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

Recentemente, detive-me diante de um texto seu intitulado Golpe, significado e abrangência. A leitura, dessas que nos prendem pela lucidez, revela que a palavra “golpe” possui sentido muito mais vasto do que aquele normalmente limitado às disputas ideológicas ou políticas.

Concluída a lição, permaneci em silêncio, remoendo mentalmente as incontáveis aplicações daquela palavra tão curta quanto expressiva. E, como costuma ocorrer quando a memória desperta, fui levado aos tempos em que o esporte ocupava lugar central em meus dias.

Na juventude, vivi intensamente o futebol. Defendi metas no Colégio Marista, no time do curso de Engenharia Civil, na seleção da Universidade Federal de Alagoas, disputando competições nacionais, entre elas, uma inesquecível jornada em Natal. Ser goleiro era conviver com a solidão heroica de quem carrega a última esperança de uma equipe.

E foi então que compreendi outra face da palavra “golpe”. Em muitas ocasiões, eu e meus companheiros fomos salvos por golpes perfeitos que executei. Não aqueles de força bruta, tampouco de acaso. Eram gestos construídos por treino, leitura do lance e serenidade. Refiro-me ao célebre golpe de vista.

Quantas vezes permaneci imóvel, sem a necessidade de voar dramaticamente em direção à bola, apenas acompanhando seu trajeto com os olhos e a convicção de que seguiria para fora, longe das redes! Enquanto a torcida prendia a respiração, eu confiava no cálculo silencioso entre experiência e instinto.

Desde então aprendi que a mesma palavra pode ferir ou salvar, destruir ou proteger, humilhar ou consagrar. Tudo depende das mãos, ou dos olhos, de quem a utiliza.