Miklós Rózsa: o “desconhecido” mais famoso da Quaresma nordestina
A cada Semana Santa, cidades do Nordeste brasileiro renovam uma tradição que mistura fé, teatro, música e memória coletiva. Nos grandes espetáculos da Paixão de Cristo, a emoção do público costuma ser atribuída ao texto bíblico, à atuação dos elencos e à força visual das montagens.
Há, porém, outro elemento muito importante nessa experiência: a trilha sonora. Em muitas encenações e concertos ligados ao ciclo pascal, a atmosfera musical que o público reconhece como “som de Paixão de Cristo” remete diretamente ao compositor húngaro-americano Miklós Rózsa (1907-1995), autor de trilhas como Ben-Hur – um dos melhores filmes de todos os tempos – e o clássico O Rei dos Reis (King of Kings).
Um nome célebre na história do cinema
Miklós Rózsa nasceu em Budapeste, em 1907, em uma família profundamente ligada à música: sua mãe era pianista e seu pai incentivava o contato com a tradição folclórica da Hungria. “A música estava por toda parte; eu a ouvia nos campos quando as pessoas estavam trabalhando, na aldeia enquanto eu ficava acordado à noite; e chegou o momento em que senti que precisava tentar transcrevê-la para o papel e perpetuá-la”, escreveu Rózsa. Ainda jovem, estudou em Leipzig, na Alemanha, onde teve formação sólida em composição erudita.
Em Hollywood, alcançou projeção internacional, trabalhando em mais de cem filmes entre 1937 e 1982. Foi indicado dezessete vezes ao Oscar e agraciado pela Academia com três premiações por Quando Fala o Coração (Spellbound), Fatalidade (A Double Life) e Ben-Hur, respectivamente nas cerimônias de 1946, 1948 e 1960.
Sua importância se consolidou no campo dos filmes noir e nos épicos históricos e bíblicos. Nessa segunda linhagem entram títulos como Quo Vadis (1951), e os já citados Ben-Hur (1959) e O Rei dos Reis (1961), obras que ajudaram a fixar, no cinema do século XX, uma sonoridade majestosa e solene para narrativas religiosas.
Rózsa desenvolveu ao longo da vida uma “dupla identidade musical”: de um lado, compositor erudito; de outro, autor de trilhas para cinema. Mesmo durante o auge em Hollywood, ele nunca abandonou a composição de concertos, sonatas e obras sinfônicas paralelamente à produção cinematográfica.
A música de O Rei dos Reis e a memória da Semana Santa
No Brasil, a associação entre Rózsa e a narrativa da Paixão aparece de forma particularmente nítida em torno de O Rei dos Reis, filme de 1961, dirigido por Nicholas Ray. Em texto publicado às vésperas da Semana Santa de 2015, o crítico Sílvio Osias escreveu no Jornal da Paraíba: “A música de O Rei dos Reis é a melhor escrita para uma Paixão de Cristo. Quem não a conhece?”. A força da formulação de Osias está no reconhecimento difuso que ela sugere: mesmo quando o público não sabe nomear o compositor, identifica imediatamente a sonoridade.
Essa presença não ficou restrita à lembrança cinéfila. Em 2017, a Prefeitura do Recife registrou a execução de Themes From King of Kings pela Banda Sinfônica do Recife. Na divulgação do concerto, a peça foi apresentada como uma música já conhecida do público por sua ligação com o imaginário da Paixão de Cristo. Isso nos mostra que, no Nordeste, a trilha de Rózsa segue circulando em espaços públicos e concertísticos ligados à escuta coletiva.

Do cinema para os palcos brasileiros
A passagem da trilha bíblica de Hollywood para os palcos brasileiros ocorreu tanto por uso direto quanto por influência estética. Há registros de encenações da Paixão que recorrem explicitamente a músicas de filmes bíblicos. Em reportagem de 2017, a Gazeta do Povo descreveu um auto pascal em “clima de ópera” que utilizava temas de O Rei dos Reis e Os Dez Mandamentos (1956). O caso não foi no Nordeste, mas ajuda a demonstrar como essas trilhas se incorporaram ao repertório sonoro das encenações cristãs país afora.
A documentação pública nem sempre detalha faixa por faixa o repertório musical de cada montagem. Mas sabemos que o ciclo da Paixão mobiliza um circuito vigoroso de espetáculos, como acontece há décadas nas cidades alagoanas de Palmeira dos Índios, Arapiraca (cujo espetáculo é registrado como Patrimônio Imaterial do Estado), Batalha, Junqueiro e São Miguel dos Campos, e que esse ambiente favoreceu a permanência da estética musical dos épicos bíblicos.
Em Pernambuco, o edital estadual Pernambuco de Todas as Paixões segue selecionando e apoiando montagens cênicas voltadas a histórias e tradições cristãs, e entre os projetos contemplados aparece, por exemplo, a Paixão de Cristo “Rei dos Reis”, de Custódia. Isso evidencia a sobrevivência do vocabulário simbólico criado pelo filme O Rei dos Reis no universo pascal nordestino.
Nova Jerusalém e a escala do espetáculo
Qualquer discussão sobre Paixão de Cristo no Brasil passa inevitavelmente por Nova Jerusalém, em Pernambuco, cuja cidade cenográfica é considerada o maior teatro ao ar livre do mundo, com 100 mil metros quadrados de área e apresentações realizadas dentro das muralhas desde 1968.
A escala da montagem ajuda a entender por que a linguagem musical dos grandes épicos cinematográficos encontrou ressonância tão forte na região: trata-se de um tipo de encenação que pede música de impacto imediato, amplidão orquestral e acento dramático reconhecível pelo grande público.
Não existe uma documentação sistemática que permita afirmar quais composições de Rózsa foram utilizadas em cada temporada de Nova Jerusalém ou em cada espetáculo nordestino. O lastro documental autoriza, porém, uma conclusão segura: a música de Miklós Rózsa, sobretudo a de O Rei dos Reis, tornou-se uma referência fundamental para a imaginação sonora da Paixão de Cristo no Brasil, e essa influência encontra no Nordeste um de seus espaços mais férteis de permanência e reapresentação.
O compositor invisível de uma tradição popular
Esse é o ponto mais fascinante da história. Rózsa é um autor consagrado na historiografia do cinema, premiado pela Academia e reconhecido por instituições de referência. Ao mesmo tempo, permanece quase anônimo para o público que, ano após ano, escuta sua obra nas celebrações da Quaresma e da Semana Santa. Sua música atravessou o Atlântico, saiu das salas de exibição, entrou em concertos, autos sacros e montagens populares, e passou a integrar uma tradição que nem sempre anuncia o nome do criador, mas preserva com vigor o efeito de sua criação.
No Nordeste, onde a Paixão de Cristo ocupa lugar de destaque na vida cultural e religiosa, essa herança sonora ganhou continuidade própria. A trilha composta para os épicos bíblicos de Hollywood não permaneceu somente como lembrança de cinemateca. Ela se converteu em atmosfera, referência e repertório de emoção coletiva. É nesse sentido que Miklós Rózsa pode ser definido, com rigor e sem exagero, como um dos artistas menos reconhecidos e mais ouvidos da cultura brasileiro-hollywoodiana e, particularmente, da Quaresma nordestina.
(*) Doutor em Letras e Linguística, Mestre em Sociologia, Especialista em História de Alagoas, Graduado em Filosofia, Professor do Instituto Federal de Alagoas – Ifal, ator e cineasta.