PROTESTO

“A imprensa de Alagoas não será calada”, diz Bleine Oliveira em ato contra assédio judicial e liberdade de imprensa

Jornalista afirma responder a oito processos e diz ter sido informada de condenações que somariam pelo menos R$ 50 mil

Por Redação Publicado em 29/09/2026 às 19:49
Bleine em discurso emocionado, relacionou mobilização à defesa da democracia e da liberdade de expressão

“A imprensa de Alagoas não será calada.”

A frase da jornalista Bleine Oliveira marcou o ato realizado na manhã desta terça-feira (29), no restaurante Casa de Mainha, em Maceió, que reuniu jornalistas, comunicadores e representantes de veículos de comunicação em protesto contra o que os participantes classificam como assédio judicial à imprensa.

No centro das manifestações esteve a multiplicação de ações propostas pelo candidato ao Governo de Alagoas João Henrique Caldas, o JHC (PSDB), pela Federação PSDB/Cidadania e pela coligação Alagoas Gigante contra jornalistas, veículos e outros produtores de conteúdo.

A mobilização ocorre depois de levantamentos apontarem dezenas de ações na Justiça comum e um número ainda maior de procedimentos na Justiça Eleitoral. JHC e seus aliados, por sua vez, sustentam nos processos que determinadas publicações ultrapassaram os limites da crítica e atingiram sua honra ou difundiram informações que consideram falsas.

Em um dos discursos mais contundentes do encontro, Bleine Oliveira transformou sua própria situação judicial em exemplo do que considera uma tentativa de intimidação dos profissionais da comunicação.

“Eu estou com oito processos, conforme informações que tenho. Já fui condenada em quatro. Dizem que estou devendo R$ 50 mil, pelo menos, ao JHC”, declarou.

A jornalista acrescentou que outros profissionais enfrentam quantidade ainda maior de ações.

“Há companheiros aqui com 18, 20, 30 processos”, afirmou.

“Posso ter 10, 20, 30, 50 processos”

Bleine deixou claro que a multiplicação das demandas judiciais não mudará sua atuação profissional.

“A imprensa de Alagoas não será calada. Eu quero deixar isso bem claro. Eu posso ter 10, 20, 30, 50 processos. Continuarei fazendo o que faço, sendo jornalista”, afirmou.

Em outro momento, recorreu à ironia para dimensionar o ambiente que, segundo ela, vem sendo enfrentado pelos comunicadores.

“Eu só quero pedir, por favor, que, se acontecer de eu ir presa, filmem. Levantem o celular de imediato e filmem, porque é o registro”, disse.

A fala foi feita num encontro que reuniu dezenas de profissionais e apoiadores da liberdade de imprensa. Levantamentos divulgados por jornalistas e advogados apontam grande quantidade de ações relacionadas a JHC, sua federação e sua coligação, embora nem todos os processos tenham sido ajuizados pessoalmente pelo candidato.

Bleine lembra repressão à imprensa durante a ditadura

Com décadas de atuação no jornalismo alagoano, Bleine também estabeleceu um paralelo histórico com os períodos de repressão à imprensa durante a ditadura militar.

Ela recordou relatos de jornalistas que trabalhavam sob fiscalização direta dos censores e afirmou que a liberdade conquistada posteriormente não pode ser tratada como algo definitivo.

“Quando a gente escrevia um texto, tinha um militar sentado numa mesa esperando para ler aquele texto que o jornalista escrevia na época da ditadura. Então, hoje, quando a gente tem a liberdade de estar em casa e escrever, eu penso nos companheiros que sofreram essa repressão”, afirmou.

Bleine citou os jornalistas Denis Agra e Freitas Neto como referências históricas da profissão e da defesa da liberdade de expressão em Alagoas.

“O Freitas e o Denis são referências do nosso jornalismo. Eles são referências da luta por liberdade. E é isso que estamos fazendo aqui: defendendo a liberdade”, declarou.

“Nós falamos e comentamos sobre fatos”

A jornalista sustentou ainda que os profissionais processados estão exercendo o direito de analisar acontecimentos de interesse público, especialmente durante o processo eleitoral.

“Nenhum de nós, em nenhum momento, eu tenho certeza disso, ofendeu, desmoralizou, agrediu a pessoa. Nós falamos e comentamos sobre fatos, fatos políticos, no momento eleitoral, que é o momento em que a sociedade expressa a sua vontade”, afirmou.

A declaração representa a posição de Bleine. A legalidade ou eventual excesso de cada publicação é objeto dos respectivos processos e deve ser analisada individualmente pelo Judiciário.

“A luta é de cada um de nós”

Um dos momentos mais pessoais do pronunciamento ocorreu quando Bleine afirmou que a discussão não diz respeito somente aos jornalistas hoje submetidos a processos.

“A luta é minha, a luta é da minha neta, que tem sete meses, a luta é de cada um de nós. Todos nós temos que estar nessa luta”, declarou.

Para ela, o debate ultrapassa as divergências eleitorais e alcança um princípio fundamental da sociedade democrática: o direito de jornalistas, humoristas, influenciadores, blogueiros e cidadãos manifestarem opiniões e divulgarem informações sem intimidação.

Ao encerrar, Bleine voltou a colocar a mobilização num plano mais amplo.

“Em nome daqueles que estão sendo censurados, daqueles que estão sendo processados, eu acho que é importante demais a nossa luta. É a luta da democracia, é a luta pela liberdade, é a luta da sociedade alagoana.”

O ato desta terça-feira ocorre a poucos dias do primeiro turno e colocou definitivamente no debate eleitoral de Alagoas uma questão que extrapola candidaturas e partidos: até onde pode ir a utilização do Judiciário contra jornalistas e veículos que fiscalizam, investigam e criticam aqueles que exercem ou pretendem exercer o poder?