Motorista embriagado que matou dois trabalhadores na contramão da Fernandes Lima é condenado a mais de 22 anos de prisão
A defesa tentou convencer de que a tragédia foi em consequência de uma imprudência, que o réu não teve a intenção de matar. Mas, o Ministério Público de Alagoas (MPAL), com a brava atuação do promotor de Justiça Thiago Riff, mostrou, por meio de vídeos, o risco assumido quando o bancário Sandro Praxedes dos Santos Filho invadiu a Avenida Fernandes Lima, uma das mais movimentadas de Maceió, na contramão, matando Pedro Alves de Souza Júnior e José Cícero da Silva, além de lesionar e sequelar, permanentemente, Quitéria Gonçalves Amorim. O conselho de sentença acatou a tese defendida pelo MPAL de dois homicídios dolosos consumados e uma lesão corporal de natureza grave e autor foi condenado a 22 anos e três meses de reclusão, em regime inicialmente fechado, e ao pagamento de indenização por danos morais, no valor de R$ 50 mil, para a família de cada vítima. O MPAL teve como assistente de acusação o advogado Napoleão Ferreira Júnior.
Imagens nítidas do acidente, de Sandro Praxedes consumindo bebidas alcoólicas durante festa na casa de um influencer antes de invadir a avenida, laudos técnicos da Polícia Científica e depoimentos de quem presenciou a crueldade.
“O resultado do júri minimizou o sofrimento das famílias que esperaram cinco anos por justiça. Atuamos com todo empenho para impedir que a tese da defesa fosse acolhida, isso ocorreu e veio a condenação como almejávamos. O que aconteceu naquele dia 21 de julho de 2021, numa avenida altamente movimentada, poderia ter sido muito pior e o réu precisava pagar pelos crimes cometidos. Para nós, a dosimetria aplicada pelo juiz Eduardo Nobre foi satisfatória”, afirma o promotor.
Durante o debate, o membro ministerial foi incisivo: “Ele matou pessoas que saíram de casa cedo, dois trabalhadores. As vítimas foram pegas de surpresa, quem imaginaria que uma pessoa invadiria a Fernandes Lima na contramão?
De acordo com o laudo pericial, após invadir a Avenida Fernandes Lima, o veículo modelo Renagade, dirigido por Sérgio Praxedes, percorreu 227 metros. Uma policial militar que levava a mãe para fazer exames, afirma que só não foram atingidos porque o esposo ao avistar que o carro ia na direção deles, conseguiu desviar.
“Era cedinho, minha mãe precisava chegar cedo ao local do exame, quando estávamos na Fernandes Lima, de repente, o meu esposo gritou: meu Deus, vem um carro na contramão, e conseguiu fazer manobra rápida e evitar a colisão, mas, em seguida, infelizmente, ouvimos um barulho forte e uma correria. Eu vi quando o condutor do carro desceu e saiu cambaleando e vi que uma das vítimas morreu no local”, depôs a sargento.
No debate, Thiago Riff foi incisivo ressaltando sempre que o caso não poderia ser visto como acidente, mas como uma colisão e o condutor assumindo o risco de matar. No carro havia vasilhames de cerveja, o réu tentou justificar afirmando “eu costumo recolher e levar para o descarte, acho que estava no carro por isso”. Mas foi questionado pelo promotor: “se o senhor estava em uma festa privada, numa casa, não seria mais lógico deixar o vasilhame la”? E, em seguida, mostrou fotos da festa com Sérgio Praxedes segurando garrafas de cerveja com vasilhames similares, além de dezenas do produto em cima de uma mesa.
O advogado Napoleão Júnior, demonstrou satisfação com o resultado e ressaltou a atuação do promotor Thiago Riff.
“Foram cinco anos em que a família vinha sentido a perda dos seus entes queridos, foram homicídios absurdos, além da outra vitima que, para sempre, ficará impedida de exercer o seu ofício. Estou muito feliz porque, na assistência de acusação, posso afirmar que o Dr Thiago, um promotor extremamente preparado e competente, conseguimos fazer a justiça e garantir a condenação do acusado. Que isso sirva de lição para que outras pessoas não mais assumam a direção, embriagadas e com excesso de velocidade”, afirmao assistente de acusação.
Devido ao alto teor alcoólico, o réu, antes de sair dirigindo pela contramão, teria estacionado o carro nas proximidades de um posto de combustíveis de dado um cochilo das 5h30 às 6h01. Os laudos comprovaram que ele estava, também, acima da velocidade máxima permitida quando os condutores trafegam no sentido correto.
A família
Tanto os familiares de Pedro Júnior quanto os de José Cícero, estavam ansiosos pela punição. A mãe do vigilante vive, diariamente, sob efeito de remédios. Segundo o pai da vítima, de quem herdou o nome “a vida da minha esposa acabou, ela era um filho bom, passava direto lá em casa para abraçá-la, pedir a benção e dizer que a amava. À época do acidente, os quatro filhos da vítima tinham 13, 10, sete e cinco anos.
Já José Cícero, pedreiro, deixou uma única filha e um neto, mas para o julgamento foram outros familiares e amigos.
Antes do julgamento, Maria ângela, mãe de Pedro, nitidamente abalada, deu um depoimento comovente.
“Está com cinco anos que perdi meu filho e, desde que o perdi, vivo no calmante pra poder viver. Meu filho saiu pra trabalhar e não voltou mais. Esse rapaz tirou a vida de dois pais de família, meu filh deixou quatro filhos e a dor que estou sentindo não desejo pra ninguém. Não tenho nem lágrimas pra chorar, não existe um dia sequer que não lembre dele”.
Após a leitura da sentença, quem se expressou foi o esposo de Maria Ângela. Ele falou sobre justiça feita e alívio.
“Esperamos ansiosos todos esses cinco anos, mesmo sabendo que o resultado não trará o nosso filho de volta, nos sentimos aliviados porque a justiça foi feita. Não tenho mais o que falar, a angústia é grande, isso abalou muito a minha família, a minha esposa vive à base de medicação diariamente”
Sob expectativa para o julgamento, Michele, filha de José Cícero, indignada, acusou o réu de assassinato e pediu justiça pelas duas famílias.
“O que o Sérgio Praxedes fez não foi cochilo, equívoco, ele assumiu total responsabilidade quando passou a noite ingerindo bebida alcoólica na casa de um influencer e, na madrugada, após ingerir mais bebida, invadir a Fernandes Lima na contramão. Ele tirou a vida de dois pais de família, eu ainda tive o privilégio de conhecer meu pai na fase adulta e de apresentar o primeiro neto a ele. E as quatro crianças que ficaram sem o pai/ quero justiça por meu pai e pelo Pedro, o que ele cometeu foi um assassinato”.
Terminado o júri, ela, aos prantos, asseverou que saia do Fórum Desembargador Jairon Maia Fernandes com o coração mais tranquilo.
“Estou abalada um pouco, pois revivi tudo o que aconteceu naquele dia. Mas, estou agora com o coração em paz porque o caso não foi esquecido, não ficou impune. Graças à equipe, ao Ministério Público, ao Dr Napoleão, ele foi culpado tanto por ter tirado a vida do Pedro Júnior como por ter tirado a vida do meu pai”.