PROJETO

Pesquisa pioneira sobre artes cênicas resgata Danças de Quilombo em Alagoas e memória de Bebedouro

Projeto inovador de Allexandrëa Constantino busca preservar a arte e a cultura afro-indígena e histórias apagadas pelo afundamento do solo em Maceió

Publicado em 14/05/2026 às 11:54

6O registro — seja vídeo, fotográfico, escrito ou oral — tem papel fundamental na preservação e manutenção da cultura e da memória individual e coletiva de um povo.

Em Maceió, especialmente no bairro de Bebedouro, parte dessas lembranças foi impactada pelo afundamento do solo provocado pela extração de sal-gema da Braskem, afetando não apenas estruturas físicas, mas também histórias, afetos e manifestações culturais.

É nesse contexto que surge a pesquisa “Danças de Quilombo – XVII/XVIII – Pesquisa, Preservação e Salvaguarda”, idealizada por Allexandrëa Constantino, artista e pessoa que pesquisa as dimensões da arte afro-indígena no Brasil. O estudo, iniciado em abril de 2026, foi selecionado pelo edital Cultura em Movimento, vinculado ao Plano de Ações Sociourbanísticas (PAS), previsto no acordo firmado entre MPF, MPE, Município de Maceió e Braskem.

O projeto de Allexandrëa tem o objetivo de preservar a memória coletiva, mantendo vivas histórias e manifestações sociais, políticas, culturais e artísticas. A pesquisa será fundamentada em fontes bibliográficas, como livros, teses, jornais, documentos, vídeos e fotografias, além de visitas à Biblioteca Central de Maceió, em busca de evidências históricas das tradicionais representações populares conhecidas como Danças de Quilombo.

Segundo Constantino, essas manifestações culturais aconteciam desde o século XVIII no bairro de Bebedouro, onde nasceu e se criou, além de municípios alagoanos como União dos Palmares, Limoeiro de Anadia, Marechal Deodoro e Viçosa.

“Será a partir desse projeto que pretendo levantar contribuições para a atualização das práticas culturais e para o fortalecimento do sistema educacional, em especial das artes cênicas - em escolas e universidades - no que diz respeito às contribuições da cultura alagoana e brasileira. O estudo pode trazer um impacto significativo para a sociedade alagoana ao estabelecer um marco das teatralidades e danças afro-diaspóricas e indígenas brasileiras”, explicou.

*Motivações para o percurso*

A pesquisa também busca responder à perda de memória causada por processos históricos e recentes, como o crime da Braskem. De acordo com Constantino, Bebedouro era o único território das Danças de Quilombo em Maceió, mas houve criminalização das práticas, perseguição e prisão de participantes, segundo jornais da época.

Diante disso, nasce a seguinte pergunta base do estudo: seriam esses alguns dos motivos de esvaziamento das manifestações?

“Com o deslocamento da população e o envelhecimento ou desaparecimento de mestres e mestras, parte dessa memória foi perdida. Assim, o projeto propõe pesquisar, levantar, organizar e catalogar essas histórias como forma de salvaguardar e patrimonializar esses registros”, pontuou.

Allexandrëa contou que as suas principais motivações para escrever o projeto começou em 2011, quando deu o primeiro passo ao se aprofundar em pesquisas sobre suas ancestralidades afro por parte de pai (quilombola e indígena) e por parte de mãe (povo Xukuru Kariri, Palmeira dos Indios/AL), abrindo o campo sobre diversidade de gênero e sexualidade, performatividades, teatralidades, danças e psicologias e, agora, em 2026, ao fundar o LabORÍ, nome da sua produtora, marcando o início de uma nova era em sua carreira.

Em 2020, durante a pandemia encontrou no cinema e nas práticas culturais com a “Coletiva Peles Pretas, Máscaras Pretas" (AL-BA-SP) o desejo de aprofundar o tema. Foi a partir desse encontro que conheceu as Danças de Quilombo de Alagoas, abordadas na dissertação de mestrado de Monilson Mony, integrante da coletiva e morador de Acupe (BA).

“Em 2021, tivemos um projeto aprovado no estado de São Paulo que nos permitiu viajar por três meses, passando um mês em cada estado, inclusive em Alagoas. Dentre outros locais, passamos pelo município de Limoeiro de Anadia e nos deparamos com a manifestação das Danças de Quilombo, que me tocou profundamente pela dimensão histórica”, contou.

Durante o processo preliminar de pesquisa, Constantino conversou com o historiador e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Danilo Marques, também morador de Bebedouro, que contribuiu com materiais, especialmente fotografias.

Segundo Allexandrëa, esses registros foram produzidos, em sua maioria, em contextos de denúncia por parte da elite burguesa, durante o Carnaval, aparecendo frequentemente como registros policiais.

“A pesquisa surge, portanto, desse desejo de contar essas histórias, e o edital possibilita o início do trabalho. Bebedouro, sendo o bairro de Maceió com maior incidência dessas danças e também o lugar onde nasci e cresci, reforça minha motivação de devolver essas informações ao povo de Maceió e de Alagoas”, destacou.

“Além disso, percebo a importância das contribuições que uma pesquisa como essa pode trazer para a área das artes cênicas alagoanas. Muito se fala dos musicais internacionais, pois, segundo o que venho pesquisando, nós também produzimos um grande acervo local desse tipo apresentação”, complementou.

*Próximos passos*

O estudo abrange inicialmente quatro municípios, com aprofundamento maior em Bebedouro, embora considere Maceió como um todo, já que mestres e mestras se dispersaram. As cidades são: União dos Palmares, Limoeiro de Anadia, Marechal Deodoro e Viçosa. “Durante o levantamento inicial (2022–2023), realizado junto à coletiva, identificamos que nesses locais as danças ainda existem, mesmo que muitas vezes de forma folclorizada”, disse Constantino.

A proposta será localizar mestres e mestras, recuperar memórias e atualizar essas práticas, além de compreender como cada município trabalha temas, personagens e dramaturgias. “As danças são bastante abrangentes, podendo ser comparadas, em certa medida, ao que hoje chamamos de musical.” A prioridade da pesquisa é iniciar o trabalho de campo, estabelecer parcerias e fortalecer o diálogo com instituições.

Allexandrëa também pretende produzir um livro com o resultado da pesquisa, publicar artigos acadêmicos, catalogar coreografias, personagens e dramaturgias e registrar a memória cultural, além de criar grupos de pesquisa e prática artística em parceria com a Ufal.

Outra proposta é atuar em comunidades periféricas, atualizando e fortalecendo as danças em Maceió e em Alagoas.

*Sobre Allexandrëa Constantino*

Allexandrëa Constantino é uma pessoa não-binária nascida em Alagoas. Iniciou a carreira no teatro profissional em 1998 no curso de formação do ator/UFAL e aprofundou a pesquisa sobre corpo e movimento em 2005, ao integrar a Cia LTDA, coordenada por Jorge Schultz.

Tem graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), com foco em pesquisa em performance, e também foi estudante com pesquisa do CNPq, aproximando-se da filosofia como base de criação artística.

Atua nas áreas de pesquisa, criação, produção, organização e divulgação. Possui pós-graduação em Arte e Sociedade pela UFAL e tem mais de 28 anos de trajetória entre Maceió, Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia, atuando em teatro, dança contemporânea, óperas, performances, audiovisual e videoarte.

Em 2016, recebeu o prêmio de Melhor Performance e Dança no Festival Experimental de Cinema de Toronto pelo curta Ícaro e também integrou o elenco do longa "Cavalo”. Dirigiu o curta Namorador, premiado pela FUNARTE, entre outros. Atuou em curadorias como o Festival Alagoanes de Cinema e a VI Mostra SESC de Cinema/AL. Em 2024, participou do GT para tombamento da Coleção Perseverança/AL, referente ao “QUEBRA/1912”. Em 2026, lança seu mais novo filme, o primeiro curta ficcional “QUEBRA”.

Entre as atividades recentes estão projetos do Instituto Vale do Sol, ENCART I e II, Escola de Criadores SP-AL, a coletiva Peles Pretas, Máscaras Pretas e ações junto à UFAL (ICHCA).

*SERVIÇO*

Pesquisa Danças de Quilombo em Alagoas
Autoria: Allexandrëa Constantino
Período: de abril a Outubro de 2026
Locais: Maceió (Bebedouro), Limoeiro de Anadia, União dos Palmares, Marechal Deodoro e Viçosa
Instagram: @allexandrea_
Para pesquisas, criações, apresentações, oficinas, cursos, palestras: (82) 99400-8993
Mais informações: (82) 99982-9628 (Jamerson)

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