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Estudo sobre manguezais de AL é publicado em boletim de referência nacional

Artigo é fruto de pesquisa no Complexo Estuarino Lagunar Mudaú-Mangaba liderada pela professora Melissa Fontes Landell, coordenadora do Laboratório de Diversidade e Biotecnologia Microbiana (LDBM), do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS)

Por Ascom UFAL Publicado em 11/05/2026 às 15:29
Professora Melissa Landell com equipe do ICBS

Manguezais são ecossistemas que ocupam a zona de transição entre os ambientes terrestre e marinho, formando sistemas altamente produtivos e atuando como berço para a manutenção da biodiversidade costeira. Esses ecossistemas apresentam condições bastante desafiadoras, como baixos níveis de oxigênio no solo, variações de salinidade, e alta carga de matéria orgânica, o que favorece o desenvolvimento de comunidades altamente especializadas. 

Um estudo desenvolvido sob a coordenação da professora Melissa Fontes Landell, do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), resultou na publicação do artigo intitulado “Leveduras e manguezais: diversidade e biotecnologia escondida”, no Boletim Microbiota da Sociedade Brasileira de Micologia.

O boletim, editado no Rio de Janeiro (RJ), tem como objetivo divulgar informações de interesse nacional e internacional relacionadas à micologia, incluindo notícias, cursos e eventos, bem como, promover ações voltadas à integração entre os membros da Sociedade.

“Estudamos microrganismos em manguezais, um grande grupo de organismos extremamente importantes  há mais de uma década. Então, fomos convidados pelos editores do Boletim para apresentar um pouco dos nossos trabalhos desenvolvidos na Ufal e que fazem parte de projetos maiores em rede”, destaca a professora Melissa Landell, doutora e pós-doutora em Microbiologia e Leveduras. No ICBS,  leciona as disciplinas de Genética, Engenharia Genética e Biotecnologia e coordena o Laboratório de Diversidade e Biotecnologia Microbiana (LDBM).

Ela acrescenta que o artigo fala um pouco sobre as pesquisas e expedições , sob a sua coordenação, nos manguezais alagoanos. “Estudamos microrganismos em manguezais, um grande grupo de organismos extremamente importantes  há mais de uma década. Então, fomos convidados pelos editores do Boletim para apresentar um pouco dos nossos trabalhos desenvolvidos aqui na Ufal e que fazem parte de projetos maiores em rede”, destaca.

Conforme mapeamento atual dos manguezais brasileiros, documento denominado de  Atlas dos Manguezais Brasileiros, lançado em março deste ano, foram identificados 1.229.644 hectares desses ecossistemas ao longo da costa do país. O mapeamento integra o Programa Nacional de Conservação e Uso Sustentável dos Manguezais do Brasil (ProManguezal), coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

O programa foi instituído em 2024 e organiza as ações do governo federal para conservação, recuperação e uso sustentável desses ecossistemas, em articulação com órgãos do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama) e outras políticas públicas. O Atlas aponta que o estado do Maranhão concentra a maior área de manguezais do país, com mais de 512 mil hectares, seguido dos estados do Pará e do Amapá. Do total mapeado, cerca de 82% estão protegidos por Unidades de Conservação, consta no documento.

Alagoas aparece no Atlas com cerca de 5.537 hectares de manguezais, concentrados no litoral norte e áreas como a Lagoa do Roteiro, representando apenas 0,4% da área de manguezal do país. O Estado destaca-se negativamente com a terceira maior taxa de destruição desse bioma no Nordeste, perdendo cerca de 14% de seus mangues em 17 anos devido à urbanização e poluição.

“Os manguezais de Alagoas vêm sofrendo bastante com as atividades antrópicas. A expansão urbana, a poluição por esgoto e resíduos sólidos, como o plástico, além do desmatamento, têm sido os principais problemas que observamos.  Mas, mesmo impactados, esses manguezais ainda abrigam uma grande diversidade microbiana”, salienta a pesquisadora Melissa Landell.

De acordo com a pesquisadora, as pesquisas sobre os manguezais são realizadas em várias regiões de Alagoas, mas o artigo focou, principalmente, nos trabalhos desenvolvidos no Complexo Estuarino Lagunar Mundaú-Manguaba (CELMM): “Estes trabalhos ainda estão em andamento, mas têm apresentado resultados surpreendentes. A equipe do nosso laboratório conta com diversos estudantes de graduação e pós-graduação da Ufal. Mas o artigo publicado tem a participação de dois estudantes de graduação em Ciências Biológicas e bolsistas do Programas Pibic e Pibit e dois estudantes de doutorado do Programa Multicêntrico de Pós-Graduação em Bioquímica e Biologia Molecular (PMBqBM), da instituição alagoana”, informa.  

“A publicação no Boletim Microbiota, representa um marco importante na minha formação. Ela sintetiza um processo coletivo de pesquisa e reforça meu pertencimento à comunidade científica, mostrando que, ainda na graduação, já é possível contribuir com a produção e divulgação do conhecimento científico. Nesse sentido, a iniciação científica tem sido essencial na construção do meu percurso acadêmico e profissional, permitindo compreender, na prática, o fazer científico e desenvolver habilidades fundamentais para minha atuação na área”, diz o graduando do bacharelado em Ciências Biológicas e  bolsista e do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), Wagner Barbosa da Silva.

Também são autores do artigo, o graduando Esmael Alves Vital, Vitoria Petra de Oliveira Barros, engenheira de pesca e doutoranda em Bioquímica e Biologia Molecular pelo Programa Multicêntrico de Pós-Graduação em Bioquímica e Biologia Molecular ( PMBQBM). O artigo pode ser acessado pelo link.

Diversidade de vidas

Ao reforçar a importância dos manguezais Melissa diz que esses ecossistemas abrigam uma rica diversidade microbiana, especialmente de leveduras. Ela afirma que essas leveduras desempenham um papel fundamental na ciclagem de nutrientes e nas interações ecológicas do manguezal, além de apresentarem elevado potencial biotecnológico. Mas aproveita para destacar a realidade dos impactos ambientais que acometem os manguezais locais.  

“A degradação desses ambientes leva à perda de habitats, à redução da diversidade e a desequilíbrios ecológicos, e isso afeta não apenas as espécies diretamente associadas ao manguezal, mas também os ecossistemas marinhos adjacentes e as populações humanas que dependem desses recursos. No que se refere aos microrganismos, os manguezais também desempenham funções ecológicas essenciais, como a decomposição da matéria orgânica, a ciclagem de nutrientes e a manutenção do equilíbrio biogeoquímico do manguezal”, lembra.

Landell diz que além disso, participam de interações ecológicas importantes com plantas e outros organismos, contribuindo participam de interações ecológicas importantes contribuindo para a estabilidade do ecossistema: "A preservação dos manguezais é crucial, pois grande parte dessa diversidade microbiana ainda é pouco conhecida. Muitos desses microrganismos têm potencial biotecnológico".

E aproveita para destacar a importância desses ecossistemas para o fornecimento de diversos serviços ecossistêmicos. “Além de abrigarem uma grande diversidade de aves, peixes, crustáceos e moluscos, os manguezais são fundamentais para a subsistência de várias comunidades tradicionais. Também desempenham um papel essencial na mitigação das mudanças climáticas, pois atuam como importantes reservatórios de carbono e protegem as regiões costeiras contra a ação das ondas e dos processos de erosão”, declara a pesquisadora.